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Ciência

A inteligência artificial que já consegue prever quando você está sonhando

Um projeto internacional conseguiu antecipar com alta precisão os momentos em que uma pessoa está sonhando. Combinando inteligência artificial, registros cerebrais e a maior base de dados de sonhos humanos já criada, os cientistas estão mais próximos de decifrar os segredos da mente adormecida.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante muito tempo, saber se alguém estava sonhando só era possível ao acordá-lo e pedir que descrevesse a experiência. Agora, pela primeira vez, pesquisadores de diferentes países mostraram que algoritmos de inteligência artificial podem prever com grande precisão quando o cérebro entra em estado onírico. O avanço não só oferece uma nova forma de estudar o sono, como também abre portas para aplicações clínicas inéditas.

A maior base de dados de sonhos já criada

O progresso nasceu do projeto DREAM, que reuniu a mais extensa coleção internacional de registros cerebrais e relatos oníricos já realizada. Foram 53 especialistas, de 37 instituições em 13 países, com apoio da Fundação Bial e coordenação da Monash University (Austrália) e da IMT School for Advanced Studies Lucca (Itália).

Pela primeira vez, dados de 2.600 despertares de 505 voluntários, oriundos de 20 estudos prévios, foram padronizados em um único formato. Cada registro continha eletroencefalografia (EEG), magnetoencefalografia (MEG) e descrições detalhadas dos sonhos recordados.

Antes, os cientistas trabalhavam com peças isoladas. O DREAM juntou todas em um mosaico global, permitindo observar a atividade cerebral durante o sono em escala inédita.

Sonhos além da fase REM

O estudo confirmou algo surpreendente: os sonhos não pertencem apenas à fase REM, famosa por movimentos rápidos dos olhos e narrativas vívidas. Também podem ocorrer durante fases NREM, mais profundas e tranquilas.

Mesmo nesses estágios, o cérebro apresenta momentos de atividade semelhantes à vigília. Embora os sonhos NREM sejam menos frequentes e intensos, compartilham características com os REM, especialmente no início da noite e perto do despertar. Isso quebra a ideia de que só sonhamos quando os olhos se movem rapidamente.

Como a IA aprendeu a detectar sonhos

Os cientistas usaram registros cerebrais de alta resolução — segmentos de ao menos 20 segundos e frequências acima de 100 Hz — para treinar a inteligência artificial. O sistema foi capaz de identificar padrões específicos que precedem os sonhos.

O resultado: a IA conseguiu prever, em tempo real, quando um participante estava sonhando, mesmo sem depender do relato posterior. Trata-se de um salto para a neurociência, que agora pode estudar o sono de maneira objetiva e contínua.

Uma nova ferramenta para explorar a consciência

O projeto DREAM também abre caminho para investigações mais amplas sobre memória, aprendizagem e transtornos do sono. A padronização global permite comparar sonhos de diferentes idades, culturas e tipos — desde pesadelos até sonhos lúcidos e experiências “em branco”.

Segundo os coordenadores, “pela primeira vez podemos estudar o cérebro adormecido com a mesma precisão que o cérebro desperto”.

O que vem pela frente

O objetivo final não é apenas detectar sonhos, mas compreender seu papel biológico e cognitivo. Eles ajudam a consolidar memórias? São reflexos emocionais? Funcionam como ensaios mentais para a sobrevivência?

Além das respostas científicas, o método poderá ser usado na prática médica, ajudando no tratamento de distúrbios do sono e até na avaliação da consciência de pacientes em coma ou sob anestesia.

Pela primeira vez, o cérebro adormecido começa a revelar seus segredos — e a inteligência artificial pode ser a chave para abrir essa porta.

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