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Ciência

A larva dessa mosca tem uma traseira que parece a cabeça de um cupim — e os cupins estão caindo nessa

Pesquisadores que trabalham no Marrocos descobriram larvas de mosca que são verdadeiras mestres da camuflagem.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Como uma larva de mosca consegue se infiltrar em um ninho de cupins? Com uma traseira que se parece com a cabeça de um cupim, é claro.

Uma equipe internacional de pesquisadores no Marrocos encontrou larvas de mosca-varejeira não apenas vivendo, mas prosperando dentro de uma colônia de cupins. Essa espécie, possivelmente nova para a ciência, desenvolveu adaptações impressionantes para escapar dos cupins soldados, que normalmente desmembram intrusos com rapidez. Entre os truques de sobrevivência, a larva exibe uma traseira em forma de cabeça de cupim, tentáculos semelhantes a antenas e a capacidade de imitar o cheiro característico da colônia. E a estratégia claramente funciona: os pesquisadores observaram os cupins cuidando das larvas infiltradas.

“Foi uma descoberta por acaso. Em nosso grupo, normalmente estudamos borboletas e formigas. Mas, como tinha chovido muito e as borboletas não estavam voando, fomos procurar formigas. Quando levantamos uma pedra, encontramos um cupinzeiro com três larvas de mosca que nunca havíamos visto antes”, relatou Roger Vila, biólogo do Institute of Evolutionary Biology, em um comunicado do Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha. “Deve ser uma espécie extremamente rara, porque já fizemos três expedições adicionais nessa área e, apesar de levantarmos centenas de pedras, encontramos apenas mais duas moscas, juntas, em outro cupinzeiro”, acrescentou.

A pesquisa foi publicada nesta segunda-feira na revista Current Biology. O estudo descreve a chamada “máscara de cupim”, localizada na parte traseira das larvas. Essa estrutura imita uma cabeça, com antenas e palpos (apêndices sensoriais próximos à boca relacionados ao tato e ao paladar) que têm o mesmo tamanho dos apêndices dos cupins colhedores adultos. Para completar a ilusão, os espiráculos — orifícios respiratórios das larvas — se assemelham a olhos.

“A maioria dos cupins vive a vários metros de profundidade e não possui percepção visual. Mas os cupins colhedores saem ao entardecer para buscar grama e, por isso, têm olhos funcionais. As larvas conseguem imitar esses olhos com seus espiráculos”, explicou Vila.

Cupins não têm luz artificial e dependem de suas antenas para reconhecer outros membros da colônia, identificando-os pelo toque e pelo cheiro. No entanto, as larvas também dominam esse aspecto. Os pesquisadores notaram tentáculos semelhantes a antenas espalhados pelo corpo, que, segundo eles, ajudam as larvas a enganar vários cupins ao mesmo tempo. Além disso, descobriram que as larvas conseguem imitar o cheiro característico da colônia.

“Analisamos a composição química dessas larvas e o resultado foi surpreendente: elas são indistinguíveis dos cupins da colônia onde vivem; cheiram exatamente igual”, afirmou Vila. “Além disso, cada colônia tem um perfil químico específico, e as larvas conseguem imitar essas diferenças sutis. Esse odor é essencial para a interação com os cupins e para que possam usufruir da vida comunitária. É um disfarce químico.”

E elas realmente se beneficiam desse truque. Ao transferirem as larvas e os cupins para um laboratório, os pesquisadores notaram que as intrusas costumam permanecer nas áreas mais movimentadas do cupinzeiro. Ali, os cupins cuidam das larvas e, possivelmente, até as alimentam — embora os cientistas ainda precisem confirmar esse comportamento.

Contudo, os pesquisadores também observaram que as larvas estudadas acabaram morrendo sem completar sua metamorfose. “Pode ser que existam fatores específicos no cupinzeiro ou na relação simbiótica com os cupins que não conseguimos reproduzir no laboratório. Ainda não sabemos qual é a dieta dessas larvas, nem como elas se desenvolvem na fase adulta”, explicou Vila.

Esse comportamento de imitação não é completamente inédito. Algumas moscas-corcundas (família Phoridae) também imitam cupins, mas apenas na fase adulta. A grande diferença é que essas novas larvas começam a enganação logo no início de sua vida.

“O ancestral comum das moscas-varejeiras e das moscas-corcundas viveu há mais de 150 milhões de anos — uma distância evolutiva maior do que a que separa humanos e camundongos. Por isso, temos confiança de que descobrimos um novo caso de evolução de integração social”, disse Vila.

Os pesquisadores também conseguiram determinar que a mosca descoberta pertence ao gênero Rhyncomya, da família Calliphoridae. Não há registros de outras espécies desse gênero que tenham um “estilo de vida” semelhante, o que sugere uma evolução relativamente recente.

Essa é a primeira vez que cientistas observam uma mosca-varejeira vivendo com sucesso disfarçada entre cupins. E quem sabe quantas outras tentaram e foram desmembradas pelos soldados antes de finalmente acertarem o disfarce?

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