Em um laboratório flutuante no porto de Los Angeles, uma máquina borbulha silenciosamente enquanto transforma água do mar em gás hidrogênio. O que parece um experimento futurista é, na verdade, o coração da tecnologia da Equatic, startup americana que promete enfrentar duas das maiores crises climáticas atuais: o excesso de dióxido de carbono na atmosfera e a lentidão na produção de hidrogênio verde.
Como a tecnologia funciona
O sistema da Equatic bombeia água do mar para um eletrolisador, que utiliza energia limpa — solar, eólica ou hidrelétrica — para dividir a água em hidrogênio e oxigênio. Durante o processo, surgem também uma corrente ácida e uma mistura alcalina de cálcio e magnésio. Essa mistura é exposta ao ar, onde o CO₂ é absorvido e convertido em bicarbonato dissolvido e minerais sólidos, formas em que o carbono pode permanecer estável por milhares de anos.
A empresa afirma que neutraliza completamente a corrente ácida antes de devolvê-la ao oceano, evitando a acidificação das águas. Segundo seus engenheiros, cada tonelada de CO₂ removida exige o processamento de cerca de 350 toneladas de água do mar, gerando também hidrogênio verde como subproduto comercial.
Ambições e riscos

A Equatic já opera plantas-piloto em Cingapura e Los Angeles, cada uma removendo até 40 toneladas de CO₂ por ano — o equivalente às emissões anuais de oito carros. Agora, constrói em Cingapura a maior usina oceânica de captura de carbono do mundo, projetada para eliminar 4 mil toneladas de CO₂ e produzir 100 toneladas de hidrogênio anualmente. Outra instalação, em fase de planejamento no Canadá, deverá remover mais de 100 mil toneladas de CO₂ por ano.
Apesar do entusiasmo, a proposta levanta preocupações. A advogada ambiental Mary Church, do Centro Internacional de Direito Ambiental (Ciel), alerta que manipular a química oceânica pode alterar níveis de nutrientes e afetar a biodiversidade. “A remoção marinha de carbono é arriscada e imprevisível”, diz. “Pode criar a ilusão de uma solução rápida, desviando o foco da redução real de emissões.”
Cientistas como James Kerry, da OceanCare, também temem que o processamento massivo de água possa gerar “águas mortas”, prejudicando a vida marinha. Ele ressalta que mesmo tecnologias terrestres mais maduras de captura de carbono ainda têm impacto mínimo no clima global.
Uma solução complementar?
Outros especialistas veem potencial, mas pedem cautela. Para Sifang Chen, pesquisadora da organização Carbon180, a captura oceânica tem vantagens logísticas, já que o oceano é vasto e oferece armazenamento natural e duradouro. No entanto, ela destaca a necessidade de regulação, monitoramento e transparência científica antes de qualquer expansão em larga escala.
A Equatic, por sua vez, insiste que cumpre padrões internacionais de segurança e realiza estudos de impacto ambiental antes de cada nova instalação. A empresa também monitora continuamente as áreas de descarga por meio de boias oceanográficas.
Além da captura de carbono, a produção de hidrogênio representa uma segunda fonte de receita. Embora menos eficiente que eletrolisadores convencionais, o processo ajuda a reduzir custos e pode tornar o projeto financeiramente sustentável. A Equatic já firmou acordos de pré-venda com a Boeing, que pretende usar o hidrogênio em combustíveis sustentáveis de aviação.
O desafio do custo e da escala
O objetivo da empresa é atingir um custo de US$ 100 por tonelada de CO₂ removida até 2030, reduzindo para US$ 30 nas décadas seguintes. Para comparação, seus créditos de carbono devem ser vendidos inicialmente por cerca de US$ 200 por tonelada.
O CEO Edward Sanders calcula que seriam necessárias 1.200 plantas industriais de grande porte para remover 20% das emissões globais atuais. Cada unidade consumiria cerca de 2,3 MWh de energia por tonelada de CO₂, um valor elevado, embora parte dessa energia retorne na forma de hidrogênio gerado.
Críticos argumentam que o consumo energético e a dependência de rochas minerais para neutralizar a acidez podem limitar a viabilidade. Sanders, no entanto, responde que há grandes volumes de rochas descartadas que podem ser reaproveitadas e que o sistema pode operar em períodos de excedente de energia renovável, sem competir com a rede elétrica.
Um futuro incerto, mas necessário

O consenso entre cientistas é que nenhuma tecnologia de remoção de carbono substitui a redução das emissões. No entanto, com o aquecimento global acelerando, soluções complementares podem se tornar inevitáveis.
“Precisamos de tecnologias que tanto removam quanto reduzam CO₂”, diz Sanders. “Fazer nada não é uma opção.”
Ainda é cedo para saber se as máquinas da Equatic serão heroínas ou vilãs da luta climática. Mas, para muitos, elas representam o retrato exato do dilema do século XXI: inovação urgente em um planeta à beira do colapso.
[ Fonte: BBC ]