A maioria das pessoas enxerga a neblina apenas como um fenômeno climático capaz de esconder paisagens e reduzir a visibilidade nas estradas. Mas cientistas descobriram que ela abriga algo muito mais complexo. Pesquisadores identificaram milhões de bactérias vivendo e se multiplicando dentro das minúsculas gotículas suspensas no ar — e algumas delas podem até ajudar a eliminar poluentes tóxicos da atmosfera. A descoberta abriu uma nova janela para entender como formas microscópicas de vida interagem com o clima e com a qualidade do ar que respiramos.
O que os cientistas encontraram dentro da neblina

O estudo foi conduzido por uma equipe liderada pela pesquisadora Thi Thuong Thuong Cao, da Universidade Estadual do Arizona e atualmente vinculada ao Virginia Tech, nos Estados Unidos.
Os cientistas já sabiam há algum tempo que bactérias podem existir em nuvens. Porém, quase nada era conhecido sobre a presença desses micro-organismos dentro da neblina ou sobre o que exatamente eles fazem ali.
Foi justamente isso que a pesquisa decidiu investigar.
Os pesquisadores queriam responder duas perguntas centrais: quais bactérias vivem nas gotículas de neblina e se elas realmente permanecem ativas naquele ambiente.
A resposta surpreendeu.
Segundo o estudo, menos de 1% das gotículas de neblina contêm bactérias. Mesmo assim, quando todas essas gotículas são consideradas em conjunto, a quantidade de vida microscópica presente é gigantesca.
Os cientistas calcularam que um pequeno volume de água de neblina pode conter cerca de 10 milhões de bactérias.
O dado impressionou porque a concentração encontrada se aproxima daquela observada em ambientes oceânicos.
Ao analisar as amostras, os pesquisadores identificaram diferentes grupos bacterianos, mas um deles chamou atenção de forma especial: as metilobactérias.
As bactérias parecem crescer mais rápido dentro da neblina

As análises revelaram algo ainda mais curioso.
As amostras de ar seco coletadas antes dos episódios de neblina apresentavam muito menos metilobactérias do que o material recolhido depois da formação da névoa.
Isso sugere que a neblina não apenas transporta essas bactérias, mas também favorece diretamente sua proliferação.
Para entender melhor o fenômeno, os cientistas realizaram experimentos em laboratório e observaram as bactérias ao microscópio.
Foi então que perceberam que os micro-organismos estavam realmente crescendo e se multiplicando dentro das gotículas.
Segundo Cao, as bactérias utilizam compostos simples de carbono como fonte de alimento. Entre essas substâncias está o formaldeído, um poluente bastante comum associado ao esmog e a problemas de saúde humana.
O mais surpreendente é que as bactérias removeram o formaldeído em velocidade tão alta que os pesquisadores passaram a suspeitar que elas não apenas absorviam a substância, mas também a quebravam quimicamente.
A neblina pode esconder um sistema natural de limpeza do ar
O formaldeído pode ser tóxico até mesmo para as próprias bactérias quando aparece em concentrações elevadas.
Por isso, os micro-organismos convertem a substância em dióxido de carbono para reduzir seus níveis no ambiente.
Na prática, isso significa que essas bactérias podem funcionar como uma espécie de sistema microscópico natural de filtragem atmosférica.
Os pesquisadores destacam que esse processo beneficia tanto os próprios micróbios quanto os seres humanos, já que ajuda a diminuir a presença de compostos químicos prejudiciais no ar.
A descoberta também reforça uma ideia que vem ganhando força na ciência moderna: a atmosfera terrestre é muito mais biologicamente ativa do que se imaginava há poucas décadas.
Além de transportar partículas de água e poluentes, o ar pode funcionar como habitat temporário para comunidades inteiras de micro-organismos capazes de interagir com processos climáticos e químicos em escala global.
Agora, os cientistas pretendem investigar como essas bactérias influenciam outros compostos presentes na atmosfera e qual impacto elas podem ter sobre o clima, a formação das nuvens e até a saúde humana.
Enquanto isso, a pesquisa deixa uma imagem difícil de ignorar: cada banco de neblina que atravessa uma cidade talvez carregue milhões de formas microscópicas de vida trabalhando silenciosamente acima de nossas cabeças.
[Fonte: Noticias de la ciencia]