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Ciência

A ONU aprovou uma proposta que pode mudar os mapas usados nas escolas

Durante séculos, uma escolha feita para facilitar viagens acabou moldando nossa percepção sobre o tamanho dos continentes. Agora, uma iniciativa internacional quer mudar essa visão.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Olhar para um mapa-múndi parece algo simples. Afinal, ele está em livros, salas de aula, sites e jornais há gerações. Mas existe um problema escondido nessa imagem familiar: representar uma esfera em uma superfície plana sempre exige algum tipo de distorção. Uma projeção criada há quase 500 anos continua influenciando a maneira como enxergamos países e continentes. Agora, uma decisão internacional reacendeu essa discussão e pode incentivar uma mudança importante.

A imagem familiar que esconde uma distorção

A história começa em 1569, quando o cartógrafo Gerardus Mercator apresentou uma projeção desenvolvida principalmente para facilitar a navegação. Seu grande mérito era permitir que determinadas rotas aparecessem como linhas retas, algo extremamente útil para navegadores.

O problema surgiu quando esse mesmo mapa passou a ser usado para representar o mundo de maneira geral.

Na projeção de Mercator, regiões próximas aos polos parecem muito maiores do que realmente são. Quanto mais distante uma área está do Equador, maior tende a ser sua representação visual.

Um dos exemplos mais conhecidos é a Groenlândia. Em muitos mapas tradicionais, ela parece ter dimensões próximas às da África. Na realidade, o continente africano possui uma área aproximadamente 14 vezes maior.

O mesmo efeito afeta Europa, Rússia e Canadá, que acabam ganhando uma dimensão visual desproporcional quando comparados a regiões próximas ao Equador.

Isso não significa que Mercator seja um mapa “errado”. Para navegação, sua característica continua sendo extremamente útil. A questão é utilizá-lo como padrão quando o objetivo é comparar o tamanho real dos territórios.

É justamente nesse ponto que começa a mudança defendida internacionalmente.

Uma nova forma de desenhar o planeta começa a ganhar espaço

A Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução incentivando governos, escolas, meios de comunicação e instituições a considerar projeções que preservem melhor as proporções de área dos continentes.

A decisão teve 164 votos favoráveis, enquanto os Estados Unidos votaram contra e seis países se abstiveram. Apesar do peso político da iniciativa, ela não é obrigatória. Nenhum país precisa abandonar seus mapas atuais.

Entre as alternativas mencionadas está a Equal Earth, criada pelos cartógrafos Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny e apresentada em 2018.

Seu princípio é diferente: a projeção procura preservar a proporção das áreas. Assim, um território que seja várias vezes maior que outro na realidade mantém essa relação de tamanho no mapa.

O resultado muda bastante a aparência do planeta. África recupera visualmente uma dimensão muito mais próxima de sua área verdadeira, enquanto Groenlândia, Europa e outras regiões do hemisfério norte deixam de parecer tão gigantescas.

Mas existe uma ressalva importante: nenhum mapa plano consegue representar perfeitamente uma esfera.

Ao transformar a superfície curva da Terra em uma folha ou tela, algum elemento precisa ser distorcido — pode ser a forma, a distância, os ângulos ou a área. Por isso, diferentes projeções servem para diferentes objetivos.

A decisão que transforma um debate antigo em uma questão global

A proposta que chegou à ONU foi apresentada por Togo em nome do grupo africano e recebeu apoio da União Africana. A campanha Correct The Map, promovida pelas organizações Speak Up Africa e Africa No Filter, ajudou a colocar a questão no centro do debate.

Para seus defensores, o assunto vai muito além da cartografia. Mapas também influenciam a percepção que as pessoas desenvolvem sobre países, regiões e continentes desde a infância.

A nova resolução, porém, não pretende transformar a Equal Earth em um novo mapa-múndi oficial. Também não muda fronteiras, resolve disputas territoriais ou determina qual projeção deve ser utilizada em todas as situações.

Na prática, a decisão funciona como uma recomendação para que instituições pensem melhor sobre qual tipo de mapa estão utilizando, principalmente em contextos educacionais e informativos.

O próximo passo depende justamente dessas instituições. Escolas, editoras, governos, veículos de comunicação e plataformas digitais podem adotar projeções equivalentes quando a comparação territorial for importante.

Portanto, a África não ficou maior e nenhum território mudou de tamanho. O que mudou foi a discussão sobre como escolhemos enxergar o planeta.

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