Olhar para um mapa-múndi parece algo simples. Afinal, ele está em livros, salas de aula, sites e jornais há gerações. Mas existe um problema escondido nessa imagem familiar: representar uma esfera em uma superfície plana sempre exige algum tipo de distorção. Uma projeção criada há quase 500 anos continua influenciando a maneira como enxergamos países e continentes. Agora, uma decisão internacional reacendeu essa discussão e pode incentivar uma mudança importante.
A imagem familiar que esconde uma distorção
A história começa em 1569, quando o cartógrafo Gerardus Mercator apresentou uma projeção desenvolvida principalmente para facilitar a navegação. Seu grande mérito era permitir que determinadas rotas aparecessem como linhas retas, algo extremamente útil para navegadores.
O problema surgiu quando esse mesmo mapa passou a ser usado para representar o mundo de maneira geral.
Na projeção de Mercator, regiões próximas aos polos parecem muito maiores do que realmente são. Quanto mais distante uma área está do Equador, maior tende a ser sua representação visual.
Um dos exemplos mais conhecidos é a Groenlândia. Em muitos mapas tradicionais, ela parece ter dimensões próximas às da África. Na realidade, o continente africano possui uma área aproximadamente 14 vezes maior.
O mesmo efeito afeta Europa, Rússia e Canadá, que acabam ganhando uma dimensão visual desproporcional quando comparados a regiões próximas ao Equador.
Isso não significa que Mercator seja um mapa “errado”. Para navegação, sua característica continua sendo extremamente útil. A questão é utilizá-lo como padrão quando o objetivo é comparar o tamanho real dos territórios.
É justamente nesse ponto que começa a mudança defendida internacionalmente.
Uma nova forma de desenhar o planeta começa a ganhar espaço
A Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução incentivando governos, escolas, meios de comunicação e instituições a considerar projeções que preservem melhor as proporções de área dos continentes.
A decisão teve 164 votos favoráveis, enquanto os Estados Unidos votaram contra e seis países se abstiveram. Apesar do peso político da iniciativa, ela não é obrigatória. Nenhum país precisa abandonar seus mapas atuais.
Entre as alternativas mencionadas está a Equal Earth, criada pelos cartógrafos Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny e apresentada em 2018.
Seu princípio é diferente: a projeção procura preservar a proporção das áreas. Assim, um território que seja várias vezes maior que outro na realidade mantém essa relação de tamanho no mapa.
O resultado muda bastante a aparência do planeta. África recupera visualmente uma dimensão muito mais próxima de sua área verdadeira, enquanto Groenlândia, Europa e outras regiões do hemisfério norte deixam de parecer tão gigantescas.
Mas existe uma ressalva importante: nenhum mapa plano consegue representar perfeitamente uma esfera.
Ao transformar a superfície curva da Terra em uma folha ou tela, algum elemento precisa ser distorcido — pode ser a forma, a distância, os ângulos ou a área. Por isso, diferentes projeções servem para diferentes objetivos.
A decisão que transforma um debate antigo em uma questão global
A proposta que chegou à ONU foi apresentada por Togo em nome do grupo africano e recebeu apoio da União Africana. A campanha Correct The Map, promovida pelas organizações Speak Up Africa e Africa No Filter, ajudou a colocar a questão no centro do debate.
Para seus defensores, o assunto vai muito além da cartografia. Mapas também influenciam a percepção que as pessoas desenvolvem sobre países, regiões e continentes desde a infância.
A nova resolução, porém, não pretende transformar a Equal Earth em um novo mapa-múndi oficial. Também não muda fronteiras, resolve disputas territoriais ou determina qual projeção deve ser utilizada em todas as situações.
Na prática, a decisão funciona como uma recomendação para que instituições pensem melhor sobre qual tipo de mapa estão utilizando, principalmente em contextos educacionais e informativos.
O próximo passo depende justamente dessas instituições. Escolas, editoras, governos, veículos de comunicação e plataformas digitais podem adotar projeções equivalentes quando a comparação territorial for importante.
Portanto, a África não ficou maior e nenhum território mudou de tamanho. O que mudou foi a discussão sobre como escolhemos enxergar o planeta.