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Tecnologia

Seu próximo celular pode ficar mais caro por causa de algo que está acontecendo muito longe dele

Uma disputa por componentes essenciais está pressionando toda a indústria tecnológica. Celulares, notebooks e consoles podem custar mais, e a inteligência artificial está no centro do problema.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Durante décadas, a memória ficou progressivamente mais barata, permitindo colocar mais capacidade dentro dos eletrônicos sem aumentar seus preços na mesma proporção. Agora essa lógica está sendo invertida. A corrida mundial pela inteligência artificial está consumindo enormes quantidades de chips de memória e provocando uma escassez que começa a chegar diretamente ao consumidor. O resultado pode aparecer em um lugar bastante familiar: o preço do seu próximo celular.

Existe um componente discreto dentro de praticamente tudo

Quando pensamos nos componentes mais importantes de um celular, normalmente lembramos do processador, da câmera ou da bateria.

A memória RAM raramente recebe o mesmo destaque.

Mas praticamente todo dispositivo eletrônico moderno depende dela para manter temporariamente as informações necessárias enquanto executa tarefas.

Celulares precisam de RAM. Notebooks também. Consoles, televisores, roteadores, carros e equipamentos industriais utilizam diferentes tipos de memória.

Durante muito tempo, esse componente seguiu uma trajetória bastante conveniente para a indústria: mais capacidade por preços progressivamente menores.

Essa tendência ajudou fabricantes a oferecer aparelhos mais poderosos sem elevar continuamente os preços.

Agora, algo mudou.

A inteligência artificial está consumindo memória em uma escala gigantesca

Seu próximo celular pode ficar mais caro por causa de algo que está acontecendo muito longe dele
© Pexels

Grandes sistemas de inteligência artificial precisam de enormes centros de dados.

E esses centros precisam de memória.

Especialmente valiosa nesse mercado é a memória de alta largura de banda, conhecida como HBM, utilizada junto aos aceleradores responsáveis pelo treinamento e funcionamento de modelos avançados de IA.

Fabricantes perceberam que produzir componentes para essa infraestrutura pode ser extremamente lucrativo.

Isso cria um incentivo econômico poderoso para direcionar investimentos e capacidade industrial ao mercado de IA.

O problema é que a fabricação de diferentes categorias de memória compartilha recursos, investimentos e capacidade produtiva.

Quando uma parte cada vez maior dessa indústria passa a atender centros de dados, outros mercados começam a disputar aquilo que sobra.

Três empresas estão no centro de praticamente tudo

Seu próximo celular pode ficar mais caro por causa de algo que está acontecendo muito longe dele
© Pexels

Existe outro detalhe que ajuda a explicar a dimensão do problema.

O mercado mundial de DRAM está extremamente concentrado.

Samsung, SK Hynix e Micron controlam juntas cerca de 95% da produção global.

Isso significa que não existem dezenas de grandes fabricantes capazes de aumentar rapidamente a oferta quando a demanda dispara.

Construir novas fábricas de semicondutores também não é algo rápido.

São instalações extremamente caras e complexas que podem levar anos para entrar plenamente em operação.

Além disso, fabricantes têm poucos incentivos para construir capacidade excessiva rapidamente e provocar posteriormente uma queda nos preços.

A consequência é uma crise que pode continuar por bastante tempo.

Até a Apple está descobrindo que não consegue escapar

A Apple representa um caso particularmente interessante.

Poucas empresas compram componentes na mesma escala ou possuem tamanho poder de negociação sobre fornecedores.

Ainda assim, nem ela está imune.

O aumento dos preços da memória já começou a pressionar as margens da companhia.

Isso coloca a empresa diante das mesmas alternativas enfrentadas por outros fabricantes: aceitar uma margem menor, reduzir custos em outras partes do produto ou repassar pelo menos parte do aumento para os consumidores.

Com uma nova geração de iPhones prestes a ser apresentada, a possibilidade de preços maiores ganhou ainda mais atenção.

Se até uma empresa com a escala da Apple encontra dificuldades para absorver o aumento, fabricantes menores enfrentam uma situação ainda mais complicada.

Celulares mais baratos podem sofrer ainda mais

Existe um paradoxo nesse cenário.

É possível imaginar que o problema atingiria principalmente aparelhos premium com grandes quantidades de RAM.

Mas smartphones mais baratos podem sentir proporcionalmente um impacto ainda maior.

Quando um componente aumenta dezenas de dólares em um telefone de US$ 1.000, existe alguma margem para distribuir esse custo.

Em um aparelho vendido por US$ 200 ou US$ 300, a mesma diferença pesa muito mais.

Fabricantes podem reagir aumentando preços, reduzindo margens ou mantendo especificações de memória por mais tempo.

Isso significa que a crise não precisa necessariamente aparecer apenas como um número maior na etiqueta.

Também pode surgir na forma de aparelhos que evoluem menos de uma geração para outra.

Talvez você pague mais para receber praticamente a mesma RAM

Esse é um dos efeitos mais curiosos da escassez.

Durante anos, novas gerações de dispositivos geralmente vieram acompanhadas de melhorias graduais na quantidade e velocidade da memória.

Com os preços elevados, fabricantes podem simplesmente interromper essa progressão.

Em vez de passar de 12 GB para 16 GB, por exemplo, um celular premium pode permanecer com a mesma quantidade durante outra geração.

Em segmentos mais baratos, empresas podem procurar configurações ainda mais conservadoras.

Assim, o consumidor enfrenta duas possibilidades pouco agradáveis.

Pagar mais pelo novo aparelho ou pagar praticamente o mesmo por uma evolução menor.

E o problema já escapou dos celulares

A memória está presente em tantos produtos que a crise começou a produzir consequências em praticamente toda a indústria tecnológica.

Notebooks estão entre os mais afetados porque normalmente utilizam grandes quantidades de RAM e armazenamento.

Consoles também enfrentam pressões.

O mesmo acontece com componentes para computadores, dispositivos de realidade virtual e diversos equipamentos conectados.

Até setores que aparentemente estão distantes da corrida da IA podem acabar atingidos.

Carros modernos, por exemplo, utilizam semicondutores de memória em inúmeros sistemas eletrônicos.

Quando a oferta mundial fica apertada, todos esses mercados passam a competir pela mesma capacidade industrial.

Resolver a escassez pode levar anos

Samsung, SK Hynix e Micron estão investindo para aumentar a produção.

Mas existe um problema impossível de resolver apenas com dinheiro: tempo.

Uma nova fábrica de semicondutores não aparece em alguns meses.

Mesmo depois de construída, precisa instalar equipamentos extremamente sofisticados, iniciar processos produtivos e alcançar níveis adequados de rendimento.

Por isso, especialistas não esperam necessariamente uma normalização rápida.

A demanda por infraestrutura de IA também continua crescendo, o que torna ainda mais difícil prever quando oferta e procura voltarão a encontrar equilíbrio.

A conta da inteligência artificial pode chegar ao seu bolso

Existe algo particularmente interessante nessa crise.

Uma pessoa não precisa utilizar ChatGPT, gerar imagens ou trabalhar com inteligência artificial para sentir seus efeitos econômicos.

Basta comprar um celular.

A enorme quantidade de dinheiro direcionada para centros de dados está reorganizando prioridades dentro da cadeia global de semicondutores.

Memória que durante décadas ficou mais barata agora se tornou um recurso disputado.

E essa disputa acontece muito longe das lojas onde compramos nossos aparelhos.

Mas suas consequências podem aparecer exatamente ali.

Na próxima vez que um celular chegar custando mais e oferecendo uma evolução menor do que você esperava, talvez a explicação não esteja na câmera, na bateria ou no processador.

Pode estar escondida em alguns chips de memória e nos gigantescos centros de dados que estão alimentando a corrida mundial pela inteligência artificial.

[Fonte: The verge]

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