Quem convive com um cachorro pode perceber que ele procura mais a companhia de uma pessoa da casa. À primeira vista, a explicação parece simples: deve ser quem oferece comida, carinho ou brincadeiras. Mas a construção desse vínculo envolve outros elementos. Segundo a veterinária Juliana Stephani, a segurança transmitida pelo cuidador e a coerência nas interações também ajudam a explicar por que o animal desenvolve uma relação especialmente próxima com alguém.
Confiança se constrói nas pequenas interações

Em declarações publicadas pelo TN, Stephani destacou a importância de combinar afeto, paciência e orientações claras.
A ideia é que o cachorro consiga compreender o que esperar de quem cuida dele. Horários reconhecíveis, respostas consistentes e experiências positivas ajudam a criar um ambiente previsível.
Isso não transforma a escolha de uma “pessoa favorita” em uma fórmula. Cada cão tem sua história, seu temperamento e suas preferências. A explicação da veterinária aponta para características que podem fortalecer a relação, sem estabelecer uma regra válida para todos os animais.
Também não significa que oferecer carinho ou alimento tenha pouca importância. Esses cuidados fazem parte do vínculo, junto com os passeios, as brincadeiras e a maneira de lidar com situações difíceis.
O que significa estabelecer limites sem agressividade
Na orientação de Stephani, colocar limites envolve manter regras compreensíveis e agir com paciência. Gritos, punições físicas e atitudes intimidatórias não fazem parte dessa proposta.
Na prática, vale pensar no comportamento que se deseja ensinar. Se o cachorro costuma pular nas visitas, por exemplo, o cuidador pode organizar a chegada das pessoas e recompensar momentos em que ele mantém as patas no chão.
A coerência entre os moradores também ajuda. Permitir uma conduta em algumas ocasiões e reagir com irritação em outras pode dificultar a compreensão do animal.
Essa abordagem se aproxima das recomendações da Sociedade Veterinária Americana de Comportamento Animal, que defende métodos de treinamento baseados em recompensas. O objetivo é ensinar comportamentos desejáveis por meio de experiências positivas, preservando o bem-estar do cão.
A rotina oferece referências para o cachorro

Passeios, alimentação, descanso e brincadeiras criam oportunidades diárias de interação. Segundo Stephani, participar desses momentos com constância ajuda o cuidador a se tornar uma referência para o animal.
Uma rotina estável não exige que tudo aconteça no mesmo minuto. O ponto central é oferecer alguma previsibilidade e atender às necessidades do cachorro de forma consistente.
Além disso, estar presente envolve prestar atenção às respostas do cão. Nem toda aproximação precisa terminar em carinho, e nem todo animal gosta das mesmas brincadeiras. Observar quando ele procura contato e quando prefere se afastar ajuda a tornar a convivência mais confortável.
Quais comportamentos podem indicar proximidade?
A veterinária menciona atitudes como procurar a companhia de alguém, descansar por perto, buscar essa pessoa com o olhar e demonstrar tranquilidade em sua presença.
Esses comportamentos podem expressar confiança, mas precisam ser interpretados no contexto. Seguir uma pessoa pela casa, isoladamente, não permite concluir que ela seja a favorita. A atitude também pode envolver expectativa de comida, curiosidade ou um hábito aprendido.
Da mesma forma, um cachorro mais independente pode manter um vínculo forte sem acompanhar o cuidador de um cômodo a outro. A intensidade da proximidade física não funciona como uma medida universal de afeto.
Há espaço para mais de um vínculo importante
Ter uma pessoa de referência não impede o cachorro de construir relações positivas com outros moradores. Pessoas diferentes podem participar de experiências igualmente importantes, como passeios, cuidados e brincadeiras.
Por isso, a orientação mais útil é investir na qualidade da convivência. O vínculo tende a se beneficiar quando o animal encontra atenção, oportunidades de interação e respostas respeitosas.
A mensagem central de Stephani está nessa combinação: carinho, presença e segurança se acumulam ao longo do tempo. Mais do que um gesto isolado ou um petisco especial, são as experiências cotidianas que ajudam a construir confiança.