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Ciência

Abraços podem amortecer os efeitos do estresse sobre a saúde, sugere estudo com 404 adultos

Receber abraços com frequência se associou a menor vulnerabilidade às infecções ligada a conflitos pessoais. O resultado aponta para a importância do apoio social, sem comprovar que o contato físico, sozinho, previna doenças.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um abraço dura poucos segundos, mas pode transmitir uma mensagem que permanece por mais tempo: existe alguém com quem contar. Foi essa ligação entre afeto, apoio e saúde que pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon investigaram em um estudo com 404 adultos. Após acompanhar suas experiências cotidianas, a equipe expôs os voluntários a um vírus do resfriado para observar como o estresse e os vínculos pessoais se relacionavam com a infecção.

Como os pesquisadores estudaram os abraços

Um simples abraço pode provocar mudanças surpreendentes no corpo e a ciência descobriu até onde seus efeitos conseguem chegar
© Edmond Dantès – Pexels

Liderada pelo psicólogo Sheldon Cohen, a equipe começou com um questionário sobre apoio social. O objetivo era avaliar até que ponto cada participante sentia que tinha pessoas disponíveis para ajudá-lo.

Depois, os pesquisadores realizaram entrevistas por telefone durante 14 noites consecutivas. Em cada ligação, perguntavam sobre conflitos interpessoais e se o voluntário havia recebido um ou mais abraços naquele dia.

Na etapa seguinte, os participantes, inicialmente saudáveis, receberam uma exposição controlada a um vírus capaz de causar resfriado. Eles permaneceram em quarentena enquanto os cientistas acompanhavam a ocorrência de infecção e os sinais da doença.

Conforme o comunicado da Universidade Carnegie Mellon, divulgado em dezembro de 2014, o experimento procurava entender se os abraços poderiam funcionar como uma expressão concreta de apoio social.

O efeito apareceu na relação entre conflitos e infecção

Os resultados mostraram que conflitos frequentes se associavam a uma maior suscetibilidade à infecção. Entretanto, essa relação era mais fraca entre os participantes que percebiam maior apoio das pessoas ao redor.

A frequência dos abraços apresentou um padrão semelhante. Quem relatava receber abraços com mais regularidade parecia menos vulnerável ao aumento do risco de infecção associado ao estresse interpessoal.

Na análise estatística, os abraços explicaram aproximadamente um terço do efeito protetor atribuído ao apoio social. Esse número exige cuidado: ele não significa que abraçar reduziu em 32% a chance de qualquer pessoa pegar um resfriado. Trata-se da parcela de uma relação estatística observada naquele estudo.

Entre os voluntários que desenvolveram infecção, maior apoio percebido e abraços mais frequentes também se associaram a sinais menos intensos da doença, independentemente da ocorrência de conflitos.

O abraço pode ser um sinal de segurança emocional

Abraço
© Unsplash – Priscilla Du Preez 🇨🇦.

A equipe escolheu os abraços porque eles costumam indicar proximidade e intimidade. Nesse contexto, o contato físico pode comunicar disponibilidade, acolhimento e confiança.

A interpretação proposta por Cohen é que receber um abraço de alguém próximo pode ajudar a transmitir apoio durante situações difíceis. Contudo, o próprio pesquisador reconheceu duas possibilidades: o efeito poderia estar relacionado ao contato físico ou ao fato de o abraço representar uma relação de maior intimidade.

Essa diferença importa. O estudo investigou pessoas inseridas em suas relações cotidianas, nas quais os abraços fazem parte de um conjunto de experiências. Não isolou o gesto de todo o contexto afetivo que o acompanha.

O estudo não prova que abraçar evita resfriados

Apesar da exposição controlada ao vírus, os pesquisadores não sortearam os participantes para receber mais ou menos abraços. Eles observaram a frequência desse contato antes da etapa experimental.

Por isso, os resultados não demonstram que aumentar o número de abraços, por si só, fortaleça a resposta imunológica. Pessoas que recebem mais afeto também podem ter relações mais estáveis, menor isolamento ou outras características relevantes para a saúde.

O trabalho, publicado na revista Psychological Science, oferece evidências de uma associação entre apoio, contato afetivo e menor vulnerabilidade aos efeitos do estresse. Não estabelece uma quantidade ideal de abraços nem permite transformar o gesto em uma recomendação para prevenir infecções.

Sua contribuição está em mostrar que a dimensão social merece espaço nas discussões sobre saúde. Um abraço não substitui medidas de prevenção ou atendimento médico, mas pode expressar algo importante diante de um período difícil: a sensação de que ninguém precisa enfrentar tudo sozinho.

 

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