Homens vivem menos que mulheres em praticamente todo o mundo, mas a explicação vai muito além da biologia. Uma série de estudos publicada na revista científica The Lancet aponta que padrões culturais associados à masculinidade podem contribuir para mortes prematuras. A pressão para demonstrar força, esconder emoções e evitar ajuda médica está entre os fatores que prejudicam a saúde masculina.
Por que os homens vivem menos que as mulheres?

Uma série de artigos científicos publicada na revista The Lancet reacendeu o debate sobre as diferenças na saúde de homens e mulheres.
Segundo os pesquisadores, os homens acumulam aproximadamente 16% mais anos de vida saudável perdidos por doenças ou mortes prematuras do que as mulheres.
Essa diferença resulta de uma combinação de fatores biológicos, econômicos, sociais e culturais. Entre eles estão comportamentos associados a modelos tradicionais de masculinidade.
A ideia de que homens precisam demonstrar resistência física, independência e controle emocional pode influenciar decisões relacionadas à própria saúde.
Para Sally Theobald, pesquisadora da Escola de Medicina Tropical de Liverpool e uma das autoras da série, determinadas normas culturais incentivam homens a minimizar sintomas e adiar consultas médicas.
Isso não significa que a masculinidade seja necessariamente prejudicial, mas que alguns padrões rígidos podem favorecer comportamentos de risco.
A pressão para ser forte pode afastar homens dos médicos

Um dos problemas identificados pelos pesquisadores é a resistência masculina em procurar atendimento médico.
Homens, especialmente entre 16 e 60 anos, tendem a consultar médicos de atenção primária com menor frequência em diversos contextos.
A expectativa social de autossuficiência pode contribuir para esse comportamento. Reconhecer uma doença ou admitir sofrimento emocional ainda é interpretado por algumas pessoas como sinal de fraqueza.
Uma revisão científica publicada no Journal of Mental Health, que analisou 82 estudos, encontrou associação entre maior adesão a normas tradicionais de masculinidade e menor procura por ajuda psicológica.
A situação pode ser ainda mais complicada para trabalhadores que dependem de rendimentos diários. Nesse cenário, faltar ao trabalho para procurar atendimento representa também uma ameaça financeira.
Assim, fatores culturais e dificuldades econômicas podem atuar juntos, aumentando a vulnerabilidade à doença.
Álcool, tabaco e comportamentos de risco também entram na conta
Os estudos destacam que determinados hábitos prejudiciais à saúde são historicamente associados à ideia de virilidade.
Entre eles estão o consumo excessivo de álcool, o tabagismo e a exposição a situações perigosas.
De acordo com os dados apresentados na série científica, as mortes relacionadas ao álcool atingem aproximadamente três vezes mais homens do que mulheres. Além disso, cerca de dois terços das mortes associadas ao consumo de drogas ocorrem entre homens.
A influência cultural também aparece na publicidade.
Durante décadas, campanhas comerciais associaram cigarros, bebidas alcoólicas e determinados produtos à força, independência e masculinidade.
Os pesquisadores argumentam que essas estratégias ajudaram a normalizar comportamentos prejudiciais à saúde.
Entre as principais causas que contribuem para a mortalidade masculina estão doenças cardiovasculares, câncer, acidentes, violência e suicídio.
A saúde mental masculina também sofre consequências
Outro aspecto importante envolve a dificuldade de expressar emoções.
Homens que crescem ouvindo que não devem demonstrar tristeza, medo ou vulnerabilidade podem desenvolver resistência a compartilhar problemas psicológicos.
Essa dificuldade pode atrasar diagnósticos e tratamentos de depressão, ansiedade e outros transtornos.
Os pesquisadores também destacam que desemprego e crises econômicas podem afetar especialmente homens cuja identidade está fortemente vinculada ao papel de provedor financeiro.
Um estudo internacional divulgado pelo Centre for Economic Policy Research, baseado em dados de 87 mil pessoas de 70 países, identificou associações entre normas rígidas de masculinidade, maior propensão a comportamentos arriscados e sintomas depressivos.
Esses resultados indicam relações estatísticas, mas não demonstram que todos esses problemas sejam diretamente causados pelos padrões de masculinidade.
Especialistas alertam para os riscos da chamada machosfera
A pesquisa também chama atenção para comunidades digitais que promovem versões rígidas da masculinidade, frequentemente associadas à rejeição do feminismo e à valorização da força física.
Conhecidas como machosfera, essas redes podem apresentar o autocuidado como uma questão exclusivamente individual, ignorando desigualdades sociais e dificuldades de acesso aos serviços de saúde.
Os autores alertam que a falta de políticas específicas pode abrir espaço para influenciadores que oferecem soluções comerciais simplificadas para problemas complexos.
Entretanto, a interpretação dos estudos não é consensual.
Especialistas da Sociedade Espanhola de Epidemiologia questionam a ideia de que a saúde masculina tenha sido historicamente negligenciada. Eles lembram que a medicina utilizou o corpo masculino como referência durante séculos, frequentemente deixando de considerar necessidades específicas das mulheres.
Também destacam que viver mais não significa necessariamente viver com melhor saúde, já que mulheres enfrentam maiores cargas de determinadas doenças crônicas e incapacidades.
O que pode mudar na prevenção de doenças?
Apesar das divergências, pesquisadores concordam sobre a importância de compreender como expectativas sociais influenciam a saúde.
Para os homens, isso envolve reconhecer sintomas, procurar atendimento preventivo, cuidar da saúde mental e abandonar a ideia de que pedir ajuda representa fraqueza.
Os especialistas também defendem políticas que considerem diferenças econômicas, culturais e sociais, sem colocar a saúde masculina em competição com a feminina.
A principal conclusão é que ampliar a perspectiva de gênero na medicina pode beneficiar toda a população.
Questionar padrões que associam masculinidade à invulnerabilidade pode ajudar homens a reconhecer seus limites e buscar cuidados antes que problemas tratáveis se tornem graves.