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Ciência

A planta medicinal usada há gerações no Brasil que agora surpreende a ciência ao mostrar efeitos promissores contra a artrite

Uma planta silvestre comum no litoral brasileiro, usada há décadas na medicina popular, entrou no radar da ciência moderna. Testes laboratoriais indicam que seu extrato tem ação anti-inflamatória, analgésica e potencial antiartrítico, abrindo caminho para novas terapias naturais baseadas em conhecimento ancestral.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante muito tempo, a medicina tradicional foi vista com desconfiança pela ciência acadêmica. Mas esse cenário vem mudando. Um estudo recente conduzido por pesquisadores brasileiros mostrou que a túnica de São José, uma planta amplamente utilizada por comunidades costeiras, apresenta efeitos relevantes contra inflamação e dor articular em modelos experimentais. O trabalho ajuda a unir saber popular e pesquisa científica de ponta.

Uma planta simples, um potencial inesperado

Conhecida popularmente como túnica de São José ou periquito-da-praia, a Alternanthera littoralis cresce de forma espontânea nas restingas do litoral brasileiro. Além de fazer parte da alimentação tradicional como verdura silvestre, a planta é usada há gerações para aliviar inflamações, infecções e problemas parasitários.

Até pouco tempo atrás, essas aplicações se apoiavam quase exclusivamente em relatos etnobotânicos. Faltavam estudos experimentais robustos que comprovassem sua eficácia. Isso mudou com uma pesquisa publicada no Journal of Ethnopharmacology, uma das principais revistas científicas dedicadas ao estudo de plantas medicinais.

O que a pesquisa descobriu

O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade Federal da Grande Dourados, da Universidade Estadual de Campinas e da Universidade Estadual Paulista, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Os pesquisadores prepararam um extrato etanólico a partir das partes aéreas da planta e o testaram em modelos animais de artrite induzida. Os resultados chamaram atenção: houve redução significativa do inchaço das articulações, diminuição da dor e menor dano aos tecidos inflamados.

Em alguns parâmetros, os efeitos observados foram comparáveis aos da prednisolona, um anti-inflamatório amplamente utilizado na prática médica. Para uma planta de uso popular, esse nível de resposta experimental é considerado relevante.

Segurança e limites do uso

Além da eficácia, o estudo também avaliou a segurança do extrato. Nos testes de toxicidade oral aguda e subaguda, não foi observada mortalidade mesmo em doses elevadas, de até 2.000 mg por quilo de peso corporal. Isso sugere uma boa margem de tolerância nos modelos experimentais.

O único efeito adverso identificado foi uma discreta elevação de uma enzima hepática em doses muito altas, sem outros sinais clínicos importantes. Segundo os autores, isso indica um perfil de segurança favorável dentro de faixas terapêuticas — embora os dados ainda não possam ser extrapolados para seres humanos.

Por que a ciência se interessa por essa planta

A Alternanthera littoralis é rica em flavonoides com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, como vitexina, isovitexina, quercetina e derivados da isorhamnetina. Esses compostos já são conhecidos por modular processos inflamatórios, o que ajuda a explicar os efeitos observados nos testes.

O interesse científico vai além de um possível novo fitoterápico. Estudos como esse reforçam o valor da biodiversidade brasileira e mostram como o conhecimento tradicional pode orientar descobertas farmacológicas relevantes.

Ainda não é um remédio — e isso é importante

Apesar dos resultados animadores, os próprios pesquisadores reforçam a necessidade de cautela. O uso clínico da planta ou de seus extratos não é recomendado neste momento. Antes disso, são necessários estudos adicionais, incluindo testes de toxicidade crônica, ensaios clínicos controlados em humanos e padronização das formas de preparo.

Somente após essas etapas será possível avaliar se a túnica de São José pode, de fato, se transformar em um tratamento seguro e eficaz para pessoas com artrite.

Um elo entre tradição e ciência

O caso da Alternanthera littoralis ilustra como práticas tradicionais podem antecipar caminhos que a ciência leva décadas para validar. Ao investigar essas plantas com rigor metodológico, pesquisadores não apenas ampliam o arsenal terapêutico, mas também ajudam a preservar e valorizar saberes populares.

Por enquanto, a túnica de São José segue como uma promessa — mas uma promessa que a ciência começa, finalmente, a levar a sério.

 

[ Fonte: Infobae ]

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