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Ciência

A poluição pode estar chegando a uma parte do corpo que quase ninguém associa ao ar que respiramos

Um experimento brasileiro encontrou alterações preocupantes após a exposição a partículas comuns na poluição urbana, reforçando uma suspeita crescente sobre a relação entre qualidade do ar e saúde bucal.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos nos efeitos da poluição do ar, pulmões e coração aparecem quase imediatamente. A boca raramente entra nessa lista. Novas pesquisas, porém, estão ampliando essa perspectiva. Partículas microscópicas presentes no ar poluído podem entrar em contato com tecidos bucais e desencadear processos inflamatórios. Um experimento realizado no Brasil acrescenta uma peça importante a esse quebra-cabeça, embora seus resultados precisem ser interpretados com cautela.

O experimento brasileiro que colocou a boca sob investigação

Um estudo publicado em 2026 na revista Air Quality, Atmosphere & Health investigou como a exposição às partículas finas conhecidas como PM2,5 poderia afetar os tecidos da boca e agravar doenças periodontais.

Essas partículas têm diâmetro de até 2,5 micrômetros e podem ser produzidas por veículos, indústrias, queimadas e diferentes processos de combustão. Por serem extremamente pequenas, conseguem penetrar profundamente no sistema respiratório e estão associadas a uma série de problemas de saúde.

No experimento, pesquisadores brasileiros trabalharam com 40 camundongos machos jovens, divididos em grupos submetidos a ar filtrado ou a concentrações elevadas de PM2,5 durante períodos de 30 ou 60 dias.

As partículas foram concentradas a partir do ar de uma área de tráfego intenso de São Paulo. Durante o experimento, os animais expostos receberam concentrações próximas de 600 microgramas por metro cúbico, aproximadamente 20 vezes superiores à média ambiental registrada no período.

Isso é importante porque significa que o estudo não reproduziu diretamente a exposição cotidiana de uma pessoa que vive em São Paulo ou em outra grande cidade. O objetivo era acelerar e observar possíveis mecanismos biológicos em condições controladas.

O que aconteceu com os tecidos da boca

A poluição pode estar chegando a uma parte do corpo que quase ninguém associa ao ar que respiramos
© Pexels

Os cientistas encontraram sinais de inflamação e estresse oxidativo na língua e no periodonto dos animais expostos às partículas. Também foram identificadas alterações no tecido epitelial e aumento de determinados marcadores relacionados à resposta inflamatória.

Mas existe um detalhe essencial.

A poluição não provocou, sozinha, todos os danos periodontais observados. Parte dos camundongos havia recebido previamente uma indução experimental de inflamação periodontal. Foi nesse grupo que a exposição ao PM2,5 agravou de maneira mais evidente os danos e reduziu o volume do osso alveolar, estrutura que ajuda a sustentar os dentes.

Isso sugere que a poluição pode funcionar como um fator agravante de um problema já existente, em vez de necessariamente provocar periodontite de forma isolada.

O estudo também não demonstrou que a exposição fez os dentes dos animais caírem. Os pesquisadores avaliaram alterações nos tecidos e perda óssea por meio de microtomografia, mas não investigaram diretamente mobilidade ou perda dentária.

É uma distinção importante diante de interpretações mais alarmistas sobre os resultados.

E o que já sabemos sobre seres humanos?

O experimento com animais não está sozinho. Estudos epidemiológicos vêm encontrando indícios de uma relação entre poluição atmosférica e problemas periodontais em pessoas.

Uma pesquisa com 13.459 participantes de 96 cidades chinesas encontrou associação entre exposição prolongada a PM2,5 e maior risco de periodontite. Para cada aumento de 10 microgramas por metro cúbico na concentração média das partículas, os pesquisadores observaram aumentos de aproximadamente 7% a 9% no risco, dependendo do período de exposição analisado.

Outro trabalho encontrou associação entre PM2,5 e maior procura por atendimento relacionado à periodontite, enquanto o dióxido de nitrogênio apareceu relacionado a consultas por gengivite.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 analisou pesquisas sobre poluição e saúde bucal e concluiu que existem evidências de uma possível relação, particularmente com doenças periodontais. Ao mesmo tempo, os autores ressaltaram que os mecanismos biológicos ainda não estão completamente esclarecidos.

Um estudo de 2025 utilizando randomização mendeliana também encontrou associações entre determinados poluentes, incluindo PM2,5 e dióxido de nitrogênio, e condições como gengivite e doenças periodontais.

Ainda não dá para culpar apenas o ar

A poluição pode estar chegando a uma parte do corpo que quase ninguém associa ao ar que respiramos
© Unsplash

A periodontite é uma doença complexa. Higiene bucal, tabagismo, diabetes, genética, idade e condições socioeconômicas estão entre os muitos fatores capazes de influenciar seu desenvolvimento e progressão.

Por isso, encontrar uma associação entre poluição e problemas nas gengivas não significa automaticamente demonstrar que um causa diretamente o outro.

Há inclusive resultados que não apontam na mesma direção. Uma revisão sistemática identificou evidências favoráveis à associação em apenas parte dos estudos analisados, mostrando que o tema ainda precisa de investigações maiores e mais consistentes.

O experimento brasileiro acrescenta algo particularmente interessante: uma possível explicação biológica. As partículas parecem favorecer estresse oxidativo e inflamação, mecanismos que já estão envolvidos na destruição dos tecidos periodontais.

Isso transforma a boca em mais um território relevante na discussão sobre qualidade do ar.

A poluição atmosférica já é reconhecida como um importante problema de saúde pública. Agora, os pesquisadores estão tentando entender se aquilo que respiramos diariamente também pode deixar marcas em um lugar muito menos óbvio: nossas gengivas.

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