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Uma doença que parece do passado voltou a avançar perto do Brasil e acendeu um alerta difícil de ignorar

Uma infecção antiga, tratável e cercada de ferramentas de prevenção voltou a crescer em um país vizinho. Os números mais recentes acenderam o alerta e ajudam a entender por que ela continua desafiando a saúde pública.
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Tempo de leitura: 6 minutos

Há doenças que muita gente associa ao passado, como se já estivessem controladas pela medicina moderna. Mas algumas seguem circulando com força quando encontram desigualdade, demora no diagnóstico e falhas no acompanhamento dos pacientes. É isso que os dados mais recentes mostram sobre a tuberculose na Argentina. Mesmo com vacina, tratamento e exames disponíveis, a infecção voltou a avançar no país vizinho e reacendeu um alerta que também interessa ao Brasil, onde a doença continua sendo um problema de saúde pública.

O avanço da tuberculose na Argentina preocupa porque a doença não deveria estar crescendo nesse ritmo

Uma doença que parece do passado voltou a avançar perto do Brasil e acendeu um alerta difícil de ignorar
© Pexels

A tuberculose voltou a ocupar espaço no debate sanitário argentino por um motivo incômodo: os casos seguem subindo, e a mortalidade continua alta, apesar de se tratar de uma doença conhecida há décadas, com vacina disponível e tratamento estabelecido. Os dados mais recentes do Boletim Epidemiológico Nacional da Argentina mostram uma tendência de alta que se consolidou nos últimos anos e hoje preocupa autoridades de saúde do país.

O recorte oficial analisou as notificações acumuladas entre a semana 1 e a semana 22 de cada ano, de 2020 a 2026. O resultado expõe um avanço expressivo. Em 2020, a Argentina havia registrado 3.777 casos de tuberculose nesse intervalo. Em 2026, o número chegou a 6.482. Isso significa um aumento de 2.705 casos em seis anos, o equivalente a uma alta de 71,6%.

Houve um recuo em 2021, mas a queda foi pontual. A partir de 2022, as notificações voltaram a crescer de forma sustentada, até atingir em 2026 o maior valor de toda a série. Em paralelo, o país também registrou um dado que ajuda a dimensionar o peso da doença: em média, uma pessoa morre de tuberculose a cada sete horas na Argentina.

Para o leitor brasileiro, vale lembrar que a tuberculose não é um problema distante nem restrito a contextos históricos. O Brasil também convive com a doença e figura entre os países que ainda enfrentam desafios importantes para controlar a transmissão, ampliar o diagnóstico precoce e garantir que os pacientes completem o tratamento. Por isso, quando os números de um vizinho disparam, o sinal de alerta vai além da fronteira.

A distribuição dos casos na Argentina mostra ainda que a doença atinge com mais força alguns grupos. Em 2025, os homens concentraram 10.483 registros, o equivalente a 60,7% do total. As mulheres somaram 6.725 casos. Já em relação à idade, 61,5% dos casos incidentes foram registrados em pessoas entre 15 e 44 anos, justamente uma faixa etária economicamente ativa e com intensa circulação social.

Entre menores de 15 anos, foram notificados 1.271 casos, ou 7,8% do total. Embora o percentual seja menor, ele chama atenção porque a presença da doença em crianças costuma indicar transmissão ativa no ambiente familiar ou comunitário, o que sugere circulação persistente da bactéria.

O mapa dos casos revela desigualdades e mostra que a doença avança onde o sistema é mais frágil

Quando se observa a distribuição por regiões, o crescimento da tuberculose na Argentina não aparece de forma uniforme. O avanço se concentrou principalmente no Centro, no Nordeste argentino e na região de Cuyo. Algumas províncias tiveram aumentos bastante expressivos, o que reforça a percepção de que a doença se espalha com mais facilidade em contextos de vulnerabilidade social e dificuldade de acesso ao cuidado.

Os maiores aumentos percentuais foram registrados em Misiones, com alta de 44,9%, Mendoza, com 42,6%, Entre Ríos, com 38,8%, Santiago del Estero, com 34,3%, e Santa Fe, com 32,9%. Em números absolutos, Buenos Aires liderou o crescimento, com 186 casos a mais, seguida por Santa Fe, com 115, Córdoba, com 55, Entre Ríos, com 33, e Mendoza, com 23.

Também houve quedas em algumas áreas, como a Cidade de Buenos Aires, Jujuy, La Rioja e as províncias da região Sul. Ainda assim, o saldo geral segue sendo de expansão, e a dispersão territorial da doença é ampla. Dos 528 departamentos argentinos, 455 notificaram casos de tuberculose no biênio 2024-2025. Isso significa que 86,2% dessas divisões administrativas registraram a presença da doença.

O caso mais extremo foi o do departamento Ramón Lista, na província de Formosa, que apresentou uma taxa de 366,4 casos por 100 mil habitantes. Para comparar, Saladillo, na província de Buenos Aires, registrou 1,4 caso por 100 mil habitantes. A diferença entre os dois cenários foi de 262 vezes.

Essa desigualdade territorial ajuda a explicar por que a tuberculose continua sendo um desafio tão persistente. Embora seja causada por uma bactéria e tratada com antibióticos, seu avanço não depende só da existência de remédios. A doença costuma encontrar terreno fértil em locais marcados por pobreza, moradias precárias, superlotação, alimentação insuficiente, dificuldade de acesso aos serviços de saúde e atrasos no diagnóstico.

O próprio boletim argentino reconhece isso ao afirmar que o crescimento sustentado dos casos reflete tanto a persistência de determinantes sociais e sanitários favoráveis à transmissão quanto a retomada das atividades de detecção e diagnóstico. Em outras palavras, parte da alta pode estar relacionada à recuperação da vigilância, mas isso não elimina o fato de que a circulação da doença segue intensa.

Se a tuberculose tem vacina e tratamento, por que ela ainda provoca tantas mortes?

A tuberculose é causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, também conhecida como bacilo de Koch. É uma infecção antiga, descrita há séculos, e que ainda hoje representa um desafio para sistemas de saúde de diferentes países. Sua forma mais comum afeta os pulmões, mas a doença também pode atingir outros órgãos.

A principal estratégia de prevenção é a vacina BCG, aplicada ainda nos primeiros dias de vida e incorporada tanto no calendário vacinal argentino quanto no brasileiro. Ela não impede todos os casos, mas ajuda a proteger especialmente contra as formas mais graves da doença em crianças. Quando a infecção se instala, o tratamento costuma ser feito com uma combinação de antibióticos por vários meses.

Na teoria, isso deveria ser suficiente para reduzir drasticamente a mortalidade. Na prática, o caminho é mais complicado. O sucesso depende de diagnóstico rápido, início oportuno do tratamento, acesso contínuo aos medicamentos e acompanhamento até o fim. Qualquer ruptura nesse processo aumenta o risco de agravamento, abandono terapêutico e transmissão para outras pessoas.

Os dados argentinos ajudam a enxergar esse gargalo. Entre os casos notificados em 2024, o desfecho mais frequente foi o sucesso do tratamento, com 9.034 registros, ou 53,3% do total. Mas o restante do quadro mostra como o controle ainda está longe do ideal: 2.715 pessoas perderam o seguimento do tratamento, 2.378 continuavam em acompanhamento, 1.263 morreram e 1.160 ficaram sem informação final registrada.

No caso de 2025, a categoria predominante foi “em tratamento”, com 8.425 casos, o equivalente a 47,7%, enquanto o sucesso terapêutico alcançou 5.209 casos, ou 29,5%. O boletim ressalta que esses números devem ser lidos com cautela, porque muitos pacientes ainda podem estar dentro do período esperado de tratamento. Mesmo assim, chama atenção o fato de 1.567 casos permanecerem sem informação de resultado, um indício de que ainda há falhas importantes no monitoramento e no encerramento adequado dos registros.

O que a Argentina está fazendo agora e por que esse debate também interessa ao Brasil

Diante da alta, o Ministério da Saúde da Argentina reforçou a distribuição de insumos para ampliar a capacidade de diagnóstico. Entre dezembro de 2025 e a data de publicação do boletim, o país distribuiu 40.500 cartuchos para diagnóstico molecular de tuberculose. Esses materiais foram enviados para províncias e distritos como Buenos Aires, Cidade de Buenos Aires, Tierra del Fuego, Salta, Chaco, Jujuy e Santa Fe, com o objetivo de acelerar a identificação dos casos.

Além disso, durante 2026 também foram distribuídas 2.870 doses de Derivado Proteico Purificado, o PPD, usado na prova tuberculínica, também conhecida como teste de Mantoux. O exame ajuda a identificar se a pessoa já foi exposta à bactéria e é importante tanto para o diagnóstico quanto para a investigação de contatos próximos.

Essas medidas mostram que o governo argentino tenta reagir fortalecendo a vigilância e o acesso ao diagnóstico. Ainda assim, o cenário deixa claro que o problema não será resolvido apenas com a entrega de insumos. A tuberculose avança justamente porque combina fatores biológicos, sociais e estruturais. Não basta ter teste e remédio se o paciente demora a procurar atendimento, abandona o tratamento por falta de suporte ou vive em condições que favorecem a transmissão.

Para o Brasil, acompanhar esse movimento faz sentido por dois motivos. O primeiro é geográfico: surtos, mudanças epidemiológicas e falhas de controle em países vizinhos sempre merecem atenção regional. O segundo é mais profundo: o Brasil também convive com a tuberculose e enfrenta desafios semelhantes em grandes centros urbanos, periferias, comunidades vulneráveis e populações com acesso precário à saúde.

No fim, o que os números da Argentina escancaram não é apenas o retorno de uma doença antiga, mas a dificuldade persistente de controlar infecções que prosperam quando desigualdade e fragilidade institucional caminham juntas. A tuberculose tem tratamento, tem prevenção e tem protocolo. O que ela ainda não encontrou, em muitos lugares, foi um ambiente social e sanitário capaz de impedir que continue se espalhando.

[Fonte: Central de noticias Madariaga]

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