A busca por vida inteligente fora da Terra costuma seguir uma lógica simples: procurar sinais emitidos por civilizações extraterrestres. Radiotelescópios monitoram o céu em busca de transmissões artificiais, enquanto observatórios tentam detectar fenômenos que não possam ser explicados por processos naturais.
Mas existe um problema fundamental nessa estratégia. O universo tem cerca de 13,8 bilhões de anos. A humanidade, por outro lado, existe há apenas uma fração infinitesimal desse período. Mesmo que civilizações avançadas tenham surgido em outros lugares da Via Láctea, as chances de que elas estejam ativas exatamente no mesmo momento que nós são extremamente pequenas.
Por isso, um novo estudo sugere uma abordagem diferente: em vez de procurar civilizações vivas, talvez devêssemos procurar os restos de civilizações mortas há muito tempo.
O problema do tempo na busca por alienígenas
A ideia foi proposta por Brian Lacki, astrônomo teórico ligado à Breakthrough Listen Initiative, da Universidade de Oxford.
Segundo o pesquisador, a maior dificuldade na busca por inteligência extraterrestre não é a distância, mas o tempo.
Uma civilização tecnológica pode durar apenas alguns milhares ou milhões de anos. Em escala cósmica, isso equivale a um piscar de olhos. Mesmo que existam inúmeras sociedades avançadas espalhadas pela galáxia, elas podem ter surgido e desaparecido bilhões de anos antes do aparecimento da humanidade.
Nesse cenário, os sinais de rádio que procuramos talvez já tenham desaparecido há eras.
Mas seus vestígios materiais podem ter sobrevivido.
As gigantescas estruturas que poderiam deixar rastros
A hipótese gira em torno das chamadas Esferas de Dyson.
Propostas pelo físico Freeman Dyson em 1960, essas megaconstruções teóricas seriam criadas por civilizações extremamente avançadas para capturar grande parte da energia produzida por uma estrela.
Ao contrário da imagem popular de uma esfera sólida envolvendo completamente um sol, os cientistas imaginam algo mais parecido com um enxame colossal de coletores solares orbitando a estrela.
Uma estrutura desse tipo poderia fornecer quantidades praticamente ilimitadas de energia para uma civilização altamente desenvolvida.
Mas ela também dependeria de manutenção constante.
O que acontece quando uma civilização desaparece
Segundo Lacki, uma Esfera de Dyson não permaneceria estável para sempre.
Se a civilização responsável por sua manutenção desaparecesse, os bilhões de componentes que compõem essa megaestrutura começariam gradualmente a perder estabilidade orbital.
Com o passar do tempo, colisões entre os elementos se tornariam inevitáveis.
Cada impacto produziria fragmentos menores. Esses fragmentos gerariam novas colisões, que criariam ainda mais detritos. O processo continuaria em uma reação em cadeia conhecida como cascata colisional.
Ao final, toda a estrutura poderia ser reduzida a partículas microscópicas de poeira.
O pesquisador chama esses fragmentos de “tecnogrãos” — minúsculos resíduos artificiais produzidos pela destruição de uma tecnologia extraterrestre.
Uma viagem através da Via Láctea
A história não terminaria aí.
Após serem reduzidos a partículas extremamente pequenas, esses tecnogrãos poderiam ser expulsos de seus sistemas estelares por ventos estelares e outros processos físicos.
Ao longo de milhões ou bilhões de anos, eles se espalhariam pelo meio interestelar, misturando-se à poeira que já existe entre as estrelas da galáxia.
Como o Sistema Solar orbita continuamente o centro da Via Láctea, existe a possibilidade de que ele atravesse regiões onde essa poeira artificial esteja presente.
Segundo o estudo, uma pequena fração dessas partículas poderia eventualmente entrar no Sistema Solar e alcançar corpos celestes como a Lua.
Por que a Lua seria o melhor lugar para procurar
A Terra não é um ambiente ideal para preservar vestígios tão delicados.
A erosão causada pelo vento, pela chuva, pela atividade geológica e pelos oceanos destrói ou altera continuamente materiais depositados em sua superfície.
A Lua, porém, é diferente.
Sem atmosfera significativa, sem chuva, sem placas tectônicas e praticamente sem erosão, ela funciona como uma cápsula do tempo geológica.
Partículas microscópicas que pousaram suavemente sobre o regolito lunar podem permanecer preservadas por períodos extremamente longos.
Por isso, Lacki sugere que futuras missões científicas poderiam analisar amostras lunares em busca de materiais com características incompatíveis com processos naturais conhecidos.
A primeira prova de alienígenas pode ser microscópica
A hipótese continua altamente especulativa. Não existe qualquer evidência de que Esferas de Dyson realmente existam, muito menos de que civilizações alienígenas tenham construído estruturas desse tipo.
Mesmo assim, a proposta apresenta uma mudança interessante de perspectiva.
Em vez de procurar mensagens enviadas intencionalmente por extraterrestres, os cientistas poderiam procurar resíduos tecnológicos deixados involuntariamente por sociedades desaparecidas há milhões ou bilhões de anos.
Se essa ideia estiver correta, a primeira evidência de vida inteligente fora da Terra talvez não chegue na forma de uma transmissão de rádio ou de uma nave interestelar.
Ela pode estar escondida há eras na superfície lunar, misturada à poeira, esperando que alguém a encontre sob o microscópio.