As carteiras físicas são consideradas a forma mais segura de armazenar criptomoedas porque mantêm as chaves privadas totalmente desconectadas da internet. Durante anos, esse modelo foi visto como uma das melhores barreiras contra ataques virtuais. No entanto, um problema descoberto recentemente mostrou que nem sempre o maior risco está na conexão com a rede. Em alguns casos, a vulnerabilidade pode surgir no exato momento em que as chaves são criadas.
Uma falha silenciosa permitiu prever chaves que deveriam ser impossíveis de adivinhar
A descoberta envolve determinados modelos da carteira física ColdCard, bastante conhecida entre investidores de Bitcoin. Segundo pesquisadores de segurança, uma alteração introduzida no firmware em 2021 fez com que algumas frases-semente fossem geradas utilizando um sistema de números pseudoaleatórios em vez da fonte física de aleatoriedade prevista originalmente pelo fabricante.
Essa diferença parece pequena, mas teve consequências importantes. A segurança de uma carteira depende justamente da imprevisibilidade da frase-semente, composta normalmente por 12 ou 24 palavras. É a partir dela que todas as chaves privadas e endereços utilizados para movimentar os bitcoins são criados.
Quando esse processo perde parte de sua aleatoriedade, o número de combinações possíveis diminui significativamente. Em vez de depender de um conjunto praticamente impossível de ser reproduzido, algumas sementes passaram a ser calculáveis por quem conseguisse reconstruir as mesmas condições utilizadas durante sua geração.
O mais preocupante é que os criminosos não precisaram invadir os dispositivos, instalar programas maliciosos nem obter acesso físico às carteiras. Bastava gerar inúmeras combinações possíveis em seus próprios computadores e verificar quais delas correspondiam a endereços que continham fundos.
As investigações identificaram três grandes ondas de movimentações suspeitas registradas até o início de agosto. Juntas, elas envolveram aproximadamente 1.367 bitcoins distribuídos por mais de 4.500 endereços, valor que, na época, representava cerca de 89 milhões de dólares.
Especialistas também observaram sinais de uma possível quarta onda de transferências. Caso ela seja confirmada, o total poderá superar 1.800 bitcoins retirados de mais de 5.200 carteiras. Ainda assim, pesquisadores ressaltam que parte dessas estimativas foi baseada em padrões identificados na blockchain e não necessariamente em relatos confirmados de todas as vítimas.
A atualização corrige o problema, mas não protege carteiras já comprometidas
As análises apontam que a vulnerabilidade surgiu durante uma modificação interna do software da ColdCard. Na tentativa de reorganizar funções criptográficas, o firmware passou a utilizar uma biblioteca que acabou recorrendo a um gerador determinístico de números aleatórios em vez do componente físico dedicado a essa tarefa.
Esse gerador utilizava informações como identificadores do microcontrolador e registros internos do sistema para produzir a sequência inicial. Embora esses dados apresentem alguma variação, eles não oferecem o nível de imprevisibilidade necessário para aplicações criptográficas de alta segurança.
Após a descoberta, a fabricante Coinkite disponibilizou uma atualização emergencial para todos os modelos afetados. No entanto, os especialistas alertam que instalar o novo firmware resolve apenas a criação de futuras frases-semente. As carteiras geradas anteriormente continuam utilizando a mesma sequência potencialmente vulnerável.
Por esse motivo, a recomendação oficial é atualizar imediatamente o dispositivo, criar uma nova frase-semente totalmente inédita e transferir todos os ativos para uma carteira recém-gerada. Mesmo usuários que adicionaram camadas extras de proteção, como senhas BIP-39 ou geração manual de entropia com dados, também foram orientados a realizar a migração.
A empresa informou ainda que interrompeu temporariamente as vendas dos equipamentos afetados e descartou unidades que ainda continham o firmware vulnerável.
O episódio também levantou um debate importante sobre auditorias em projetos de código aberto. Embora o software da ColdCard estivesse disponível publicamente, as revisões realizadas ao longo dos anos verificaram apenas a presença do gerador físico dentro do código, sem acompanhar todo o caminho percorrido pela função responsável pela criação das frases-semente.
O caso não significa que todas as carteiras físicas sejam inseguras. Pelo contrário, reforça uma lição importante para todo o setor: manter as chaves privadas completamente offline continua sendo uma excelente prática, mas essa proteção perde valor se o processo responsável por gerar essas chaves não oferecer um nível realmente imprevisível de aleatoriedade.