Durante anos, pedir algo à Siri significou formular comandos relativamente simples e esperar que a assistente entendesse exatamente o que deveria fazer. A explosão da inteligência artificial generativa tornou esse modelo insuficiente. Agora, a Apple prepara uma das maiores transformações da história da ferramenta, com recursos que prometem aproximá-la dos assistentes modernos e, principalmente, aproveitar uma vantagem que poucas concorrentes possuem: sua integração com todo o ecossistema da empresa.
Siri quer deixar para trás a era dos comandos simples
Lançada em 2011, a Siri foi uma das primeiras grandes apostas da Apple no mercado de assistentes virtuais. Durante muito tempo, funções como configurar alarmes, fazer ligações, consultar o clima ou enviar mensagens por voz pareciam avançadas.
A chegada de ferramentas como ChatGPT e Gemini mudou rapidamente as expectativas.
Os usuários passaram a esperar conversas naturais, compreensão de contexto, capacidade de interpretar informações e respostas elaboradas. É justamente nessa direção que a Apple pretende levar sua assistente.
A nova Siri fará parte da estratégia de Apple Intelligence e deverá compreender melhor aquilo que o usuário está dizendo, inclusive quando uma pergunta depende de informações apresentadas anteriormente na conversa.
Uma das mudanças mais significativas será a possibilidade de contar com um aplicativo próprio. Por ele, será possível acessar conversas anteriores, fixar chats considerados importantes e continuar consultas realizadas anteriormente.
Essas informações poderão ser armazenadas de maneira privada por meio do iCloud.
A assistente também ganhará capacidade de procurar dados espalhados pelo dispositivo. Em vez de exigir que o usuário diga exatamente onde está determinada informação, a Siri poderá pesquisar mensagens, e-mails, fotografias, documentos e arquivos para encontrar aquilo que precisa.
Na prática, alguém poderia perguntar sobre uma informação recebida anteriormente sem precisar lembrar se ela estava em um e-mail, mensagem ou documento.
A tela do iPhone também poderá virar contexto para a IA
Outra mudança importante está na capacidade de compreender aquilo que aparece na tela.
Se o usuário estiver visualizando uma fotografia, por exemplo, poderá fazer uma pergunta relacionada diretamente à imagem sem precisar descrevê-la. A ideia é tornar a interação menos dependente de comandos cuidadosamente formulados.
Essa integração contextual pode se tornar uma das principais armas da Apple na corrida da inteligência artificial.
A empresa também apresentou outras ferramentas inteligentes destinadas à edição de fotografias, organização de tarefas, produtividade e proteção de menores.
Outra novidade anunciada é o Apple Upgrade, programa que permitirá renovar determinados dispositivos por meio de pagamentos mensais.
Mas é a reconstrução da Siri que representa uma das mudanças estratégicas mais relevantes.
As primeiras funções já podem ser experimentadas por desenvolvedores e participantes do programa de testes por meio da versão beta pública do iOS 27. O lançamento oficial está previsto para setembro, juntamente com as novas versões dos sistemas operacionais da companhia.
Inicialmente, porém, a experiência completa estará limitada ao inglês dos Estados Unidos.
Outros idiomas deverão ser adicionados progressivamente por meio de atualizações posteriores.
Também haverá diferenças regionais. Devido às regras relacionadas à Lei de Mercados Digitais da União Europeia, algumas funções do Apple Intelligence não estarão disponíveis inicialmente em iPhones e iPads no bloco europeu, embora determinados recursos possam chegar aos Macs.
Nem todo iPhone terá acesso à nova experiência

A inteligência artificial também estabelece uma nova fronteira entre aparelhos antigos e recentes.
Segundo a Apple, vários recursos dependem de capacidade elevada de processamento local. Por isso, a compatibilidade ficará concentrada nos dispositivos com hardware mais avançado.
Nos smartphones, entram na lista o iPhone 15 Pro e 15 Pro Max, toda a família iPhone 16 e os novos modelos da linha iPhone 17. O iPhone 15 convencional e aparelhos anteriores, incluindo a série 14, ficam fora das principais funções de IA.
Nos computadores, o requisito é mais abrangente: Macs equipados com Apple Silicon, começando pelo chip M1. Isso inclui modelos compatíveis das famílias MacBook Air, MacBook Pro, iMac, Mac mini, Mac Studio e Mac Pro.
No caso dos tablets, Apple Intelligence estará disponível em iPads Pro e Air equipados com M1 ou superior, além do iPad mini com A17 Pro ou chips posteriores.
A estratégia também alcança outras categorias. Apple Watch Series 9, Ultra 2 e SE de terceira geração poderão acessar determinados recursos quando vinculados a um iPhone compatível. O Apple Vision Pro também faz parte dos planos.
Apple tenta recuperar terreno na corrida da inteligência artificial
A transformação chega depois de a companhia enfrentar críticas por avançar mais lentamente em IA generativa enquanto OpenAI, Google e Microsoft aceleravam seus próprios produtos.
A resposta da Apple tenta aproveitar uma característica histórica de seu ecossistema: a integração entre hardware e software.
Parte significativa do processamento deverá acontecer diretamente no dispositivo. A proposta é reduzir a necessidade de enviar informações para servidores externos e transformar privacidade em um dos diferenciais da plataforma.
O objetivo final vai muito além de criar uma Siri capaz de conversar melhor.
A Apple quer uma inteligência artificial capaz de compreender o contexto do usuário e trabalhar entre iPhone, Mac, iPad, Apple Watch e Vision Pro sem obrigá-lo a procurar manualmente informações em diferentes aplicativos.
Se essa integração funcionar como prometido, a maior mudança da Siri não estará simplesmente em responder perguntas mais complexas. Estará em conhecer suficientemente bem o contexto disponível nos aparelhos para que o usuário precise explicar cada vez menos.
Depois de anos sendo vista como uma assistente que ficou para trás, a Siri prepara sua tentativa mais ambiciosa de voltar ao centro do ecossistema da Apple.
[Fonte: CR]