Há momentos em que ficar sozinho parece exatamente o que precisamos. Longe de conversas, compromissos e cobranças, alguns minutos de tranquilidade podem ajudar a recuperar a energia. Mas a mesma situação também pode produzir uma sensação de desconexão. Um estudo que acompanhou 178 adultos diariamente durante três semanas encontrou uma explicação para essa aparente contradição — e ela tem menos a ver com a quantidade de tempo sozinho do que imaginamos.
Estar sozinho pode ter dois efeitos ao mesmo tempo
A pesquisa foi conduzida pela psicóloga Netta Weinstein, da Universidade de Reading, e acompanhou durante 21 dias 178 adultos com mais de 35 anos, residentes no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Todos os participantes mantiveram um diário sobre a quantidade de tempo que passavam sozinhos e acompanhados. Eles também registravam diariamente seus níveis de estresse, satisfação com o dia, sensação de autonomia e percepção de solidão.
Ao todo, foram reunidos quase 3 mil registros individuais. Isso permitiu aos pesquisadores observar como pequenas mudanças na rotina de cada pessoa estavam relacionadas ao seu bem-estar de um dia para o outro.
Os resultados não apontaram para uma resposta simples.
Nos dias em que os participantes passavam mais tempo sozinhos, eles tendiam a apresentar menos estresse e maior sensação de autonomia. Sem outras pessoas por perto, havia mais liberdade para decidir o que fazer e como organizar o próprio tempo.
Mas havia também um efeito contrário.
Esses mesmos dias estavam associados a uma maior sensação de solidão e menor satisfação geral com o dia.
Ou seja, ficar sozinho podia proporcionar alívio e, ao mesmo tempo, aumentar a sensação de isolamento.
A explicação para essa aparente contradição apareceu quando os pesquisadores observaram uma característica específica da experiência.
A diferença estava em escolher ficar sozinho
Nem todo período de solidão era vivido da mesma maneira.
Quando os participantes percebiam que haviam escolhido voluntariamente passar aquele tempo sozinhos, a relação entre ficar sozinho e sentir-se mais solitário ou menos satisfeito ficava mais fraca ou simplesmente desaparecia.
A diferença parece pequena, mas é importante.
Existe uma grande distância entre decidir passar uma tarde sozinho em casa porque você quer descansar e perceber que está sozinho porque não teve outra opção.
No primeiro caso, o isolamento pode representar liberdade e recuperação. No segundo, pode ser interpretado como uma situação indesejada.
O estudo também apresenta uma nuance importante: escolher ficar sozinho não aumentou ainda mais os benefícios relacionados à redução do estresse e à autonomia. Esses efeitos permaneciam relativamente estáveis.
O que a escolha parecia fazer era principalmente reduzir o lado negativo da experiência.
Em outras palavras, ter controle sobre a própria solidão pode funcionar como uma espécie de proteção contra a sensação de isolamento.
Não existe um número mágico de horas sozinho
Os pesquisadores também não encontraram uma quantidade ideal de tempo que pudesse ser considerada saudável para todas as pessoas.
A relação entre tempo sozinho e bem-estar apresentou um padrão mais linear do que curvo. Isso significa que não surgiu uma espécie de ponto universal em que algumas horas de solidão seriam boas e, depois de determinado limite, necessariamente começariam a fazer mal.
A experiência depende muito mais das circunstâncias e da forma como cada pessoa vivencia aquele período.
Isso ajuda a explicar por que estar sozinho e sentir-se sozinho são coisas diferentes.
Uma pessoa pode passar horas sem companhia e aproveitar profundamente esse tempo. Outra pode estar cercada por dezenas de pessoas e ainda assim sentir uma forte desconexão.
A pesquisa, portanto, não sugere simplesmente que devemos passar mais ou menos tempo sozinhos.
Ela aponta para algo mais específico: o significado que damos a esse tempo parece ser fundamental.
A variável decisiva pode ser o controle
Publicado na revista Scientific Reports, o estudo mostra que a solidão não precisa ser necessariamente positiva ou negativa.
Quando o tempo sozinho é desejado, ele pode oferecer espaço para descansar, organizar pensamentos e recuperar uma sensação de autonomia. Quando é indesejado, a mesma situação pode estar associada a maior solidão e menor satisfação.
Por isso, a resposta para a aparente contradição está principalmente na autonomia.
Não é apenas uma questão de quantas horas uma pessoa passa sozinha, mas de quanto controle ela sente ter sobre essa escolha.
A diferença entre “eu quero ficar sozinho” e “estou sozinho porque não tenho escolha” pode mudar completamente a experiência.
E isso explica por que duas pessoas podem passar exatamente o mesmo período sem companhia e terminar o dia se sentindo de maneiras muito diferentes.