A hipótese de que vivemos em uma simulação digital ganhou força com avanços tecnológicos e ideias populares entre cientistas e futuristas. Contudo, uma nova pesquisa propõe um freio radical nessa imaginação: não seria matematicamente viável simular completamente o universo. Publicado no Journal of Holography Applications in Physics, o estudo combina física e teoremas da lógica para afirmar que a própria realidade ultrapassa o alcance dos algoritmos. Se estiverem certos, nenhuma “computadora cósmica” conseguiria reproduzir o mundo com precisão absoluta.
Um universo além da computação
Os pesquisadores partiram da premissa de que o universo funciona com base nas leis da física e das matemáticas. Se isso for verdade, concluíram, então nenhum algoritmo seria capaz de simular a realidade por completo. Em entrevista, o físico Mir Faisal, da Universidade da Colúmbia Britânica, explica que o universo opera em um tipo de entendimento que não cabe dentro de regras computacionais.
Essa conclusão se apoia em teoremas sobre o que pode ou não ser descrito por algoritmos. Para Faisal, toda simulação é limitada por instruções formais, enquanto a realidade funciona em um nível mais profundo e não algorítmico.
O papel da incompletude
Uma das grandes influências do estudo é o famoso teorema da incompletude de Kurt Gödel, formulado em 1931. Ele diz, em resumo, que nenhum sistema lógico pode provar todas as verdades possíveis usando apenas seus próprios axiomas. Sempre existirão afirmações verdadeiras que não podem ser demonstradas ali dentro.
Um exemplo clássico ilustra a ideia: “Não é possível provar que esta sentença verdadeira pode ser provada”. Se fosse provada, viraria falsa; se não pode ser provada, é verdadeira — e isso desafia qualquer algoritmo. Para os cientistas, o mesmo tipo de limite aparece quando tentamos criar um modelo matemático perfeito do universo.
Uma realidade sempre mais profunda
Segundo o estudo, a física moderna dá pistas desse limite: o que já entendemos hoje pode ser substituído por teorias mais abrangentes amanhã. Já passamos da mecânica de Newton para Einstein e, depois, para mecânica quântica. Isso sugere que pode haver uma “camada de realidade” além de qualquer descrição algorítmica, algo que a computação jamais conseguiria capturar.
Os humanos conseguem conceber verdades “gödelianas”, enquanto computadores não. Para Faisal, isso implica que uma simulação perfeita do universo não é apenas improvável — é impossível.
O fim da “teoria de tudo”?
Os autores também sugerem que talvez nunca alcancemos uma teoria completa do cosmos se tentarmos fazê-la funcionar apenas com computação. Se a realidade opera além das regras formais, a própria ideia de uma teoria algorítmica total seria contraditória.
Mesmo assim, o estudo não pretende encerrar o debate — e sim mostrar que o universo pode ser ainda mais complexo do que imaginamos. Talvez estejamos longe de saber se uma simulação é possível. Ou, brincam os autores, talvez seja melhor perguntar isso ao nosso suposto programador.