A Terra está muito longe de ocupar o centro do Universo. Nosso planeta faz parte da periferia da Via Láctea, uma galáxia espiral que abriga centenas de bilhões de estrelas e onde o Sistema Solar ocupa apenas um pequeno trecho de um de seus braços espirais. Como estamos dentro dela, determinar seu formato e suas dimensões sempre foi um enorme desafio para os astrônomos.
Agora, uma nova pesquisa sugere que a Via Láctea pode ser maior do que se acreditava. Utilizando observações dos telescópios espaciais Chandra, da NASA, e XMM-Newton, da Agência Espacial Europeia (ESA), cientistas concluíram que alguns dos braços espirais mais externos estão aproximadamente 10% mais distantes do centro galáctico do que indicavam os modelos anteriores.
Como é a estrutura da Via Láctea

Os astrônomos estimam que a Via Láctea contenha entre 100 bilhões e 400 bilhões de estrelas.
Sua estrutura é composta por três regiões principais: um bulbo central, um disco repleto de braços espirais e um enorme halo de matéria que envolve toda a galáxia.
O disco galáctico possui cerca de 100 mil anos-luz de diâmetro, mas tem apenas aproximadamente 1.000 anos-luz de espessura. Além disso, ele não é totalmente plano, apresentando uma leve curvatura.
O Sistema Solar está localizado no Braço de Órion, uma ramificação secundária situada entre os braços de Sagitário e Perseu, a cerca de 26 mil anos-luz do buraco negro supermassivo Sagitário A*.
Os ecos de raios X revelaram novas distâncias
Para medir os braços espirais com maior precisão, os pesquisadores utilizaram uma técnica bastante incomum.
Eles analisaram os ecos produzidos quando intensas ondas de raios X atravessaram nuvens de poeira espalhadas pelos braços da Via Láctea.
Esses raios X tiveram origem em alguns dos eventos mais energéticos do Universo: os estouros de raios gama (GRBs), fenômenos provocados pelo colapso de estrelas extremamente massivas ou pela fusão de estrelas de nêutrons.
Quando essa radiação encontra nuvens de poeira interestelar, parte dela é refletida e forma anéis visíveis para telescópios espaciais como o Chandra. O tamanho desses anéis permite calcular com grande precisão a distância entre a Terra e as nuvens de poeira.
Os cientistas analisaram três explosões particularmente intensas: GRB 031203, GRB 160623A e GRB 221009A, uma das mais brilhantes já registradas.
Nossa galáxia pode ser significativamente maior
Com base nesses dados, a equipe conseguiu recalcular a posição de três importantes estruturas da Via Láctea: o Braço de Perseu, o Braço Exterior e o Braço Exterior Escudo-Centauro.
Foi justamente nessa última região que surgiu a maior surpresa.
Os resultados mostram que o Braço Exterior e o Braço Exterior Escudo-Centauro estão localizados aproximadamente 10% mais longe do centro galáctico do que indicavam as estimativas anteriores.
Segundo os pesquisadores, essa técnica possui uma vantagem importante sobre métodos tradicionais, pois depende apenas da geometria dos ecos de raios X. Já muitas medições anteriores utilizavam modelos baseados na rotação da Via Láctea, que apresentam maiores incertezas, principalmente nas regiões mais distantes da galáxia.
Um método raro, mas extremamente preciso
Apesar da elevada precisão, os cientistas reconhecem que essa técnica dificilmente poderá ser utilizada com frequência.
Isso porque explosões de raios gama suficientemente intensas e alinhadas com o plano da Via Láctea são eventos extremamente raros. Sem essas explosões, simplesmente não há ecos de raios X capazes de revelar as distâncias das nuvens de poeira.
Mesmo assim, o conhecimento sobre a estrutura da nossa galáxia deverá avançar rapidamente nos próximos anos.
Além das futuras atualizações da missão Gaia, da ESA, os pesquisadores esperam contar com o NewAthena, o observatório de raios X de próxima geração da agência europeia. O novo telescópio será capaz de detectar ecos de raios X muito mais fracos, permitindo explorar regiões ainda mais distantes da Via Láctea e compreender com maior precisão o verdadeiro tamanho da galáxia onde vivemos.
[ Fonte: El Debate ]