A Via Láctea é uma gigante cósmica com cerca de 100 mil anos-luz de extensão e centenas de bilhões de estrelas espalhadas por sua estrutura. Mas ela nem sempre foi assim. Há bilhões de anos, nossa galáxia cresceu lentamente ao devorar galáxias menores em uma sequência de colisões gravitacionais violentas.
Agora, um novo estudo sugere que uma dessas fusões pode ter permanecido escondida até hoje.
Astrônomos identificaram um grupo raro de estrelas antigas que pode representar os restos de uma galáxia anã absorvida pela Via Láctea há aproximadamente 10 bilhões de anos. Os pesquisadores deram a essa possível galáxia o nome de “Loki”, inspirado no deus da mitologia nórdica conhecido por sua natureza imprevisível e enganadora.
A descoberta foi publicada na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e pode alterar a compreensão atual sobre a formação da nossa galáxia.
Estrelas antigas funcionam como fósseis do universo

Os cientistas chegaram à hipótese de Loki ao estudar estrelas extremamente pobres em metais, conhecidas como VMPs — sigla em inglês para “Very Metal-Poor Stars”.
Na astronomia, “metais” são todos os elementos mais pesados que hidrogênio e hélio. As primeiras estrelas do universo praticamente não possuíam esses elementos, porque eles só começaram a surgir após gerações de estrelas explodirem em supernovas.
Por isso, estrelas com poucos metais costumam ser consideradas extremamente antigas — verdadeiros fósseis cósmicos capazes de revelar como era o universo primitivo.
Segundo a pesquisadora Cara Battersby, da Universidade de Connecticut, essas estrelas guardam pistas preciosas sobre a formação das primeiras galáxias.
“Elas existem há bilhões de anos e preservam informações sobre as primeiras gerações estelares do universo”, explicou a cientista.
O detalhe que chamou atenção dos pesquisadores
O mais curioso não foi apenas encontrar essas estrelas antigas, mas sim sua localização.
Tradicionalmente, estrelas pobres em metais costumam aparecer no halo galáctico — uma espécie de nuvem esférica de estrelas velhas que envolve a Via Láctea. Porém, os pesquisadores identificaram 20 dessas estrelas muito próximas ao disco galáctico, região mais densa e movimentada da galáxia.
Foi aí que o mistério começou.
O grupo liderado pelo pesquisador Federico Sestito, da Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido, analisou os dados coletados pelo telescópio espacial Gaia, da Agência Espacial Europeia, responsável por mapear cerca de 2 bilhões de estrelas entre 2014 e 2025.
Depois, os cientistas utilizaram o telescópio Canadá-França-Havaí para estudar a composição química dessas estrelas em detalhes.
Os resultados mostraram que todas possuem assinaturas químicas muito parecidas, sugerindo uma origem comum.
Loki: a galáxia “fantasma” da Via Láctea

Os pesquisadores acreditam que essas estrelas pertenciam originalmente a uma galáxia anã pobre em metais que acabou sendo engolida pela Via Láctea poucos bilhões de anos após o Big Bang.
O cenário se torna ainda mais intrigante porque parte dessas estrelas gira na mesma direção do disco galáctico, enquanto outra parte se move no sentido oposto.
Segundo Sestito, isso só seria possível se a fusão tivesse acontecido quando a Via Láctea ainda era jovem, menor e gravitacionalmente menos estável.
“Foi difícil entender como um único sistema poderia espalhar estrelas em órbitas tão diferentes”, afirmou o pesquisador.
Essa dificuldade ajudou a inspirar o nome Loki, já que o comportamento das estrelas parecia “enganar” os astrônomos.
O canibalismo galáctico que construiu nossa galáxia
A Via Láctea cresceu ao longo de bilhões de anos por meio de um processo chamado canibalismo galáctico. Nele, galáxias maiores absorvem sistemas menores usando sua gravidade para capturar estrelas, gás e matéria escura.
Os vestígios dessas fusões funcionam como registros arqueológicos do universo.
Um dos exemplos mais conhecidos é Gaia-Sausage-Enceladus, uma galáxia antiga que colidiu com a Via Láctea entre 8 e 10 bilhões de anos atrás e alterou profundamente sua estrutura.
Segundo o astrônomo Alexander Ji, da Universidade de Chicago, Loki pode ter sido quase tão importante quanto esse evento.
Se a hipótese estiver correta, isso significaria que os cientistas ainda desconhecem uma parte essencial da história da Via Láctea.
A descoberta ainda precisa ser confirmada
Apesar do entusiasmo, os próprios pesquisadores reconhecem que ainda existem dúvidas.
Uma possibilidade é que as estrelas identificadas pertençam não a uma galáxia desconhecida, mas a estruturas já catalogadas anteriormente. Novas observações e bancos de dados maiores serão necessários para confirmar se Loki realmente existiu.
Mesmo assim, a hipótese já desperta enorme interesse na comunidade astronômica.
Caso seja validada, Loki poderá revelar que a formação da Via Láctea foi muito mais caótica e complexa do que os modelos atuais sugerem — e que parte importante da nossa origem cósmica esteve escondida bem perto do Sistema Solar o tempo todo.
[ Fonte: CNN ]