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Ciência

Astrônomos encontraram 27 possíveis “Tatooines” escondidos pela Via Láctea — e isso pode mudar completamente a busca por vida fora da Terra

Um grupo de pesquisadores australianos identificou 27 candidatos a planetas que orbitam dois sóis ao mesmo tempo, algo que parecia raro até pouco tempo atrás. O estudo usa uma técnica inédita para detectar mundos invisíveis aos métodos tradicionais e pode revelar que sistemas como o de Tatooine são muito mais comuns no universo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, Tatooine — o planeta fictício de Star Wars iluminado por dois sóis — parecia apenas uma das ideias mais criativas da ficção científica. Mas a astronomia moderna vem mostrando que George Lucas talvez não estivesse tão distante da realidade.

Pesquisadores da Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW), na Austrália, anunciaram a descoberta de 27 candidatos a planetas circumbinários, corpos celestes que orbitam duas estrelas simultaneamente. O trabalho foi publicado na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e já é visto como um avanço importante na busca por novos mundos fora do Sistema Solar.

O detalhe mais impressionante não é apenas a quantidade de candidatos encontrados. É a técnica usada para detectá-los — um método que pode revelar uma enorme população de planetas que simplesmente passava despercebida pelos telescópios atuais.

O universo pode ter muito mais planetas com dois sóis do que imaginávamos

Sistema Planetário1
© ESA

Hoje, a astronomia já catalogou mais de 6 mil exoplanetas confirmados. Quase todos orbitam uma única estrela, como acontece com a Terra e o Sol.

Os chamados planetas circumbinários sempre foram considerados raros. Até agora, apenas 18 haviam sido oficialmente confirmados.

Mas isso talvez tenha menos relação com a realidade do universo e mais com as limitações tecnológicas dos métodos atuais de observação.

Segundo Margo Thornton, autora principal do estudo, nosso conhecimento sobre exoplanetas está fortemente enviesado pelos sistemas mais fáceis de detectar.

A técnica mais utilizada atualmente é o método de trânsito, que observa pequenas quedas no brilho de uma estrela quando um planeta passa na frente dela. O problema é que sistemas com órbitas irregulares, inclinadas ou mais complexas podem escapar completamente dessa observação.

E é exatamente isso que costuma acontecer em sistemas binários.

A técnica que detecta planetas invisíveis aos métodos tradicionais

Para contornar essa limitação, os pesquisadores australianos utilizaram um método conhecido como precessão apsidal.

O nome parece complicado, mas a lógica é fascinante.

Em sistemas com duas estrelas, os cientistas monitoram mudanças extremamente sutis no ritmo e no tempo dos eclipses entre elas. Quando essas alterações não podem ser explicadas apenas pela gravidade das estrelas ou pelas leis da relatividade, surge uma possibilidade: algum objeto externo está interferindo gravitacionalmente no sistema.

Esse objeto pode ser um planeta.

Usando dados do telescópio espacial TESS, da NASA, os pesquisadores analisaram 1.590 sistemas binários e encontraram 27 sinais considerados promissores.

Ben Montet, coautor do estudo, admitiu surpresa com os resultados obtidos já na fase piloto da pesquisa.

Segundo ele, agora começa a parte mais interessante: descobrir quais desses candidatos realmente são planetas.

Alguns mundos encontrados são gigantescos

O planeta está girando mais devagar e os dias podem estar ficando mais longos
© https://x.com/ChronosIntelX/

Os possíveis planetas encontrados apresentam características bastante diferentes entre si.

Alguns possuem massa parecida com Netuno. Outros chegam a ser até dez vezes maiores que Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar.

As distâncias também impressionam. Há candidatos localizados a cerca de 650 anos-luz da Terra, enquanto outros estão a impressionantes 18 mil anos-luz de distância.

Isso sugere que mundos circumbinários podem estar espalhados por toda a Via Láctea.

E existe um detalhe ainda mais importante: mais da metade das estrelas do universo fazem parte de sistemas binários ou múltiplos.

Na prática, isso significa que os astrônomos talvez tenham ignorado durante anos uma parcela gigantesca de possíveis sistemas planetários.

Montet resumiu o problema de forma bastante direta: até agora, a humanidade observava apenas metade do quadro.

O próximo passo é descobrir se esses mundos realmente existem

A equipe da UNSW já prepara novas observações usando o Telescópio Anglo-Australiano, localizado em Coonabarabran, na Austrália.

O objetivo será analisar espectros de luz dos candidatos para confirmar se eles são realmente planetas e descartar outras possibilidades, como anãs marrons, anãs brancas ou até pequenos buracos negros.

Se parte dessas descobertas for confirmada, o impacto pode ser enorme para a astronomia moderna.

Não apenas porque aumentaria drasticamente o número de exoplanetas conhecidos, mas porque mudaria nossa compreensão sobre onde a vida pode surgir.

Segundo os pesquisadores, se planetas circumbinários puderem ser habitáveis, então ambientes favoráveis à vida podem existir em praticamente qualquer canto da galáxia.

No fim, a busca por mundos com dois sóis não é apenas sobre astronomia. É também sobre uma das perguntas mais antigas da humanidade: estamos realmente sozinhos no universo?

 

[ Fonte: La Nación ]

 

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