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Tecnologia

Adeus Tinder? Para a geração Z, clubes de corrida estão virando o novo lugar para encontrar alguém

Cada vez mais jovens estão trocando aplicativos de namoro por clubes de corrida e plataformas como Strava. O motivo vai além do esporte e revela mudanças profundas na forma como a geração Z se relaciona.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, aplicativos de namoro dominaram a forma como as pessoas conheciam potenciais parceiros. Bastava deslizar a tela e iniciar uma conversa. Mas entre os jovens da geração Z, esse modelo parece estar perdendo força. Em vez de buscar conexões em algoritmos, muitos estão voltando para encontros no mundo real — e os clubes de corrida estão se tornando um dos lugares mais inesperados para isso acontecer.

Quando a corrida vira também um espaço de encontros

Ao amanhecer, parques e avenidas começam a se encher de corredores. O ritual é simples: amarrar o tênis, sair para correr alguns quilômetros e registrar o treino em aplicativos como o Strava.

Mas para muitos jovens, a atividade vai além do exercício físico.

Depois da corrida, os participantes costumam publicar o percurso, fotos ou comentários na plataforma — e sabem que outras pessoas estão observando.

Esse ambiente acabou criando um novo tipo de interação social.

Segundo o Year in Sport: Trend Report de 2025, divulgado pela própria Strava, um em cada cinco membros da geração Z afirmou já ter tido um encontro com alguém que conheceu em um clube de corrida.

No mesmo período, o número de novos clubes criados na plataforma aumentou 3,5 vezes.

Como a dinâmica social mudou nas plataformas esportivas

Aplicativos como Strava não foram criados para encontros românticos.

A função principal da plataforma é registrar atividades físicas, como corrida ou ciclismo, analisando dados como ritmo, distância e altitude.

Mesmo assim, a interação entre usuários acabou criando novas formas de flerte.

No aplicativo, dar um “kudo” — equivalente a um “curtir” — passou a funcionar como um gesto de interesse.

Além disso, quando a plataforma liberou mensagens diretas em 2023, muitos usuários rapidamente começaram a usá-las para iniciar conversas.

O diferencial em relação aos aplicativos de namoro é que, nesse ambiente, as pessoas observam primeiro o comportamento do outro.

A frequência de treinos, os horários das corridas e o estilo de vida revelam mais sobre alguém do que uma breve biografia digital.

O cansaço com os aplicativos de namoro

Essa mudança também está ligada ao desgaste das plataformas tradicionais de relacionamento.

Pesquisas mostram que muitos jovens estão cansados da dinâmica baseada em deslizar perfis.

Segundo uma pesquisa citada pela Forbes, mais de 75% da geração Z relatou sentir “burnout” com aplicativos de namoro, afirmando que eles raramente levam a conexões genuínas.

Até executivos do setor reconhecem o problema.

Spencer Rascoff, CEO da Match Group — empresa responsável por aplicativos como Tinder e Hinge — admitiu que muitas pessoas passaram a enxergar essas plataformas como um “jogo de números”, onde o foco está nas métricas e não na experiência.

Os efeitos já aparecem nos números da empresa.

O Tinder vem registrando queda no número de usuários pagantes, que caiu para menos de 10 milhões, e as ações da Match Group perderam valor desde o pico registrado em 2021.

O crescimento das chamadas “apps de hobby”

Enquanto os aplicativos de namoro enfrentam dificuldades, plataformas voltadas para hobbies e interesses específicos estão crescendo.

Entre elas estão:

  • Strava, voltada para atividades esportivas
  • Letterboxd, dedicada a cinéfilos
  • Goodreads, para leitores

Essas redes atraem jovens que procuram ambientes digitais mais positivos e baseados em interesses comuns.

Ao invés de discussões polarizadas ou disputas por atenção, os usuários compartilham atividades que realmente fazem parte de suas rotinas.

Nesse contexto, conhecer alguém passa a ser uma consequência natural da convivência em torno de um interesse comum.

A cultura do bem-estar substituindo a vida noturna

Outra mudança importante está relacionada ao estilo de vida da geração Z.

Para muitos jovens, o foco em bem-estar e saúde está substituindo hábitos tradicionais da vida social.

Dados do relatório da Strava mostram que:

  • 64% da geração Z prefere gastar dinheiro em equipamentos esportivos do que em encontros tradicionais
  • 46% afirmam que aceitariam uma primeira reunião romântica enquanto praticam exercício físico

Eventos esportivos também refletem essa tendência.

A Maratona de Nova York, por exemplo, registrou mais de 200 mil inscrições, enquanto a Maratona de Londres recebeu mais de 1,1 milhão de candidatos.

Além disso, novas formas de socialização surgiram.

Entre elas estão as chamadas coffee raves, festas matinais que combinam música eletrônica, café e atividades como yoga.

Nesse cenário, o esporte se tornou um novo espaço de convivência social.

Nem tudo é positivo nessa nova tendência

Apesar do entusiasmo em torno desse fenômeno, alguns especialistas alertam para possíveis problemas.

Alguns usuários temem que plataformas como Strava percam seu foco original e se tornem apenas mais uma rede social.

Há também preocupações relacionadas à privacidade.

Como o aplicativo registra rotas e horários de corrida, ele pode revelar informações sensíveis sobre a rotina de uma pessoa.

Isso levou algumas usuárias a considerar desativar mensagens diretas por receio de assédio ou exposição.

Por isso, especialistas destacam a importância de reforçar medidas de segurança e proteger dados pessoais.

O que essa mudança revela sobre a geração Z

No fim das contas, a popularidade dos clubes de corrida como espaço de encontros revela algo maior.

Depois de anos dominados por algoritmos e conexões digitais superficiais, muitos jovens estão tentando recuperar interações mais naturais.

Correr juntos, conversar após o treino ou compartilhar atividades em comum cria um ambiente menos artificial do que aplicativos focados exclusivamente em namoro.

Talvez por isso o fenômeno esteja crescendo.

Para muitos jovens, descobrir se alguém combina com você para o “maratona” da vida pode começar literalmente correndo lado a lado.

[Fonte: Xataka]

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