O que acontece quando a mente não consegue formar imagens? A afantasía, condição que afeta milhões de pessoas, desafia ideias antigas sobre a imaginação e mostra que visualizar não é a única forma de pensar. Pesquisas recentes revelam diferenças reais no funcionamento do cérebro, abrindo um novo capítulo na compreensão da diversidade mental humana.
O que é a afantasía?

Afantasía é o nome dado à incapacidade de formar imagens mentais. Pessoas com essa condição descrevem a mente como um “vazio preto” quando tentam imaginar cenas, objetos ou rostos. No entanto, isso não significa que não sejam criativas — elas apenas pensam de uma forma não visual.
Um teste simples e popular é o da “maçã”: pede-se que alguém feche os olhos e visualize uma maçã. Enquanto alguns veem a fruta com detalhes nítidos, quem tem afantasía relata ver… nada. Esse contraste ajuda a identificar diferentes graus de vivacidade mental.
Ciência e evidências concretas
Durante décadas, a afantasía foi vista com ceticismo, considerada apenas uma diferença na forma de descrever experiências subjetivas. Mas pesquisas recentes trouxeram evidências fisiológicas claras.
Um estudo de 2022 revelou que pessoas com imaginação visual apresentam contração das pupilas ao imaginar o sol brilhando — uma reação ausente nos afantas. Outro experimento mostrou que os afantas não reagem emocionalmente a histórias assustadoras, mas respondem normalmente a imagens reais, sugerindo que a visualização mental influencia a emoção.
Em 2025, exames de ressonância magnética revelaram baixa atividade na área visual do cérebro dos afantas, ao contrário das pessoas com hiperfantasia (imaginação extremamente vívida), que apresentam fortes conexões entre a região frontal e visual.
Vivências e comunidade
O crescimento do reconhecimento da afantasía levou à criação de redes de apoio e troca de experiências. Um dos principais grupos é o Aphantasia Network, fundado por Tom Ebeyer, que já conta com mais de 60 mil participantes. Em fóruns como o Reddit, mais de 70 mil pessoas compartilham descobertas pessoais, muitas vezes percebendo a condição por acaso, ao assistirem vídeos ou lerem relatos.
Curiosamente, muitos afantas atuam em profissões criativas como arte, design, arquitetura e literatura, contrariando a ideia de que a criatividade depende de imagens mentais.
Por outro lado, alguns relatam limitações, como dificuldade em reviver memórias visuais ou imaginar rostos queridos. Estudos indicam que pessoas com afantasía tendem a ter uma memória autobiográfica menos rica em detalhes visuais.
Como isso afeta o dia a dia?
Embora a afantasía altere a forma como a mente processa a informação, ela não é considerada uma deficiência. Para Sarah Shomstein, professora da Universidade George Washington, trata-se apenas de uma variação neurológica: “Não há dano ou déficit. É um jeito diferente de o cérebro funcionar”.
Ela mesma descobriu que tem afantasía ao tentar imaginar uma maçã e notar que via apenas escuridão. Ainda assim, consegue compreender conceitos e ideias de forma complexa. A maioria dos afantas reconhece rostos, se orienta normalmente e leva uma vida comum.
Atualmente, cientistas e pessoas com afantasía buscam desenvolver uma linguagem mais precisa para descrever essa forma única de pensar. A condição ainda é pouco conhecida, mas está ganhando visibilidade e ampliando a compreensão sobre a diversidade cognitiva humana.
Um convite à empatia
Para o pesquisador Adam Zeman, um dos primeiros a estudar a afantasía, essa condição nos lembra que não devemos tomar nossa experiência mental como universal. “É uma diferença invisível fascinante. Mostra como as mentes humanas podem operar de formas muito distintas — e igualmente válidas.”
A investigação da afantasía continua a revelar como o cérebro pode interpretar e representar o mundo de maneiras surpreendentemente variadas. E nos faz perguntar: será que imaginamos do mesmo jeito? Talvez, para muitos, a resposta seja um silencioso e escuro “não”.
[ Fonte: Infobae ]