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Ciência

Água com gás faz mal? Especialistas explicam o que acontece no corpo

Vídeos nas redes sociais levantaram dúvidas sobre possíveis riscos da água com gás para o organismo. Especialistas analisam o que realmente acontece no intestino, na pressão arterial e na saúde.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Nos últimos anos, a água com gás ganhou espaço entre pessoas que buscam reduzir o consumo de refrigerantes ou simplesmente variar a forma de se hidratar. No entanto, vídeos que circulam nas redes sociais começaram a levantar dúvidas sobre possíveis efeitos negativos da bebida. Entre as alegações mais repetidas estão impactos na pressão arterial e até riscos para idosos. Para entender o que é mito e o que realmente tem base científica, especialistas analisaram o tema.

O que realmente acontece no corpo quando bebemos água com gás

A água com gás é basicamente água comum que recebeu dióxido de carbono (CO₂) sob pressão. Esse processo cria as bolhas características da bebida, responsáveis pela sensação efervescente.

Quando ingerido, o gás carbônico não interfere diretamente em funções cardiovasculares ou no controle da pressão arterial. Segundo especialistas, ele atua principalmente no sistema digestivo.

A gastroenterologista Dra. Pâmela Oliveira explica que o gás presente na bebida é eliminado de duas maneiras principais: por meio da eructação, popularmente conhecida como arroto, ou por absorção ao longo do trato gastrointestinal.

Esse comportamento faz com que o gás não tenha impacto relevante sobre o volume de sangue ou sobre a resistência dos vasos sanguíneos — fatores diretamente ligados à pressão arterial.

Em outras palavras, o dióxido de carbono presente na água com gás não altera os mecanismos fisiológicos que regulam a pressão.

A nutricionista Carla de Castro reforça que não existem evidências científicas que indiquem aumento significativo da pressão arterial em pessoas saudáveis após o consumo da bebida.

Em alguns casos, pode ocorrer um aumento leve e momentâneo logo após a ingestão. Isso acontece porque o gás provoca distensão no estômago, criando uma sensação de plenitude. Ainda assim, essa alteração costuma ser pequena e passageira, não representando risco clínico para a maioria das pessoas.

A relação da bebida com o intestino e o sistema digestivo

Água com gás faz mal? Especialistas explicam o que acontece no corpo
© Pexels

Embora não afete diretamente a pressão arterial, a água com gás pode produzir alguns efeitos perceptíveis no sistema digestivo.

O principal deles é a sensação de estufamento ou distensão abdominal. Isso ocorre porque as bolhas liberam gás no estômago, que precisa ser eliminado pelo organismo.

Para algumas pessoas, essa característica pode até ajudar na digestão ou aliviar momentaneamente a sensação de peso após refeições.

Por outro lado, indivíduos mais sensíveis podem sentir desconforto abdominal ou aumento da produção de gases.

Esse efeito é particularmente relevante para pessoas que sofrem de refluxo gastroesofágico, gastrite ou distensão abdominal severa.

Nesses casos, a efervescência pode intensificar sintomas como queimação ou sensação de estômago cheio.

Segundo especialistas, porém, esse desconforto está relacionado ao sistema digestivo — e não a problemas cardiovasculares.

Outro ponto importante é que a água com gás hidrata da mesma forma que a água natural. Do ponto de vista fisiológico, ambas contribuem igualmente para a reposição de líquidos no organismo.

Mitos que surgiram nas redes sociais

Parte da desconfiança em relação à água com gás surgiu após a circulação de vídeos nas redes sociais que fazem afirmações alarmantes sobre a bebida.

Entre as alegações está a ideia de que o consumo poderia aumentar a pressão arterial, causar vasoconstrição cerebral ou até representar risco para idosos e pessoas hipertensas.

Segundo especialistas, essas afirmações não têm respaldo científico.

A gastroenterologista Pâmela Oliveira afirma que classificar a bebida como perigosa ou tóxica é uma interpretação equivocada.

Ela destaca que a água com gás é composta apenas por água e dióxido de carbono, sem aditivos químicos ou substâncias potencialmente nocivas.

A nutricionista Carla de Castro acrescenta que parte da confusão ocorre porque algumas pessoas associam a água com gás aos refrigerantes.

Refrigerantes de cola, por exemplo, contêm ácido fosfórico — uma substância que pode estar relacionada à redução da densidade óssea quando consumida em excesso.

A água com gás pura, no entanto, não contém esse tipo de composto.

Outro mito que circula nas redes envolve o uso da bebida em casos de desmaio.

Algumas pessoas afirmam oferecer água com gás a indivíduos que perderam a consciência. Médicos alertam que essa prática é perigosa.

Quando uma pessoa está com o nível de consciência reduzido, oferecer líquidos pode provocar broncoaspiração, situação em que o líquido entra nas vias respiratórias.

O procedimento correto em caso de desmaio é deitar a pessoa e elevar suas pernas para favorecer o fluxo sanguíneo.

Existe limite seguro para consumir água com gás?

Para a maioria das pessoas, a água com gás pode ser consumida normalmente como parte da ingestão diária de líquidos.

Não existe uma recomendação específica apenas para esse tipo de bebida. O que os especialistas consideram é o total de água ingerida ao longo do dia, que varia conforme peso corporal, temperatura ambiente e nível de atividade física.

Pessoas com hipertensão podem consumir água com gás, desde que observem um detalhe importante: o teor de sódio indicado no rótulo.

Algumas marcas adicionam pequenas quantidades desse mineral durante o processo de mineralização da água.

Na maioria dos casos, porém, a quantidade é muito baixa e não representa risco relevante.

Segundo especialistas, o principal fator associado a problemas cardiovasculares continua sendo o consumo excessivo de sódio na alimentação como um todo — especialmente em alimentos ultraprocessados.

Para muitas pessoas, inclusive, a água com gás pode ser uma alternativa útil para reduzir o consumo de refrigerantes.

Ela oferece uma experiência sensorial semelhante, com efervescência e refrescância, mas sem açúcar ou aditivos presentes em bebidas industrializadas.

Assim, longe de representar um risco, a água com gás pode fazer parte de uma estratégia mais saudável de hidratação quando consumida com equilíbrio.

[Fonte: Correio Braziliense]

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