Em um país onde cada vez menos pessoas se casam e têm filhos, uma antiga tradição ganhou uma missão inesperada. Em vez de apenas oferecer silêncio e meditação, um templo budista da Coreia do Sul passou a reunir centenas de jovens solteiros em busca de romance. A iniciativa mistura encontros, dinâmicas, momentos constrangedores e um propósito nacional: combater a queda da natalidade.
Um templo milenar decidiu enfrentar um dos maiores problemas da Coreia do Sul

Escondido entre as montanhas cobertas de vegetação do monte Palgongsan, o templo Donghwasa atravessou séculos de história.
Fundado no século VIII, ele já serviu como refúgio espiritual e até como base para monges guerreiros que ajudaram a defender a Coreia durante as invasões japonesas do século XVI.
Agora, porém, enfrenta um inimigo completamente diferente.
Foi por isso que o templo passou a organizar retiros voltados exclusivamente para solteiros, reunindo homens e mulheres durante cerca de 30 horas em uma programação intensa que combina apresentações, caminhadas, encontros individuais, refeições, desafios e diversas oportunidades para quebrar o gelo.
Logo na abertura, um monge deixa claro que o objetivo vai além de encontrar um namorado ou uma namorada.
Segundo ele, os participantes estão ali para ajudar a salvar o futuro do país.
A Coreia vive uma das maiores crises demográficas do planeta

O problema que motivou a iniciativa preocupa especialistas há anos.
Com o avanço econômico, o alto custo da moradia, as dificuldades para conciliar carreira e família e as mudanças no estilo de vida, o número de nascimentos despencou.
Durante anos, a taxa de fecundidade sul-coreana esteve entre as menores do mundo.
Embora os indicadores tenham mostrado uma leve recuperação recentemente, o país continua muito distante do nível considerado suficiente para manter a população estável no longo prazo.
Além das questões econômicas, pesquisadores identificaram outra mudança importante.
Os jovens simplesmente estão namorando menos.
Muitos trabalham demais, possuem poucos espaços para conhecer pessoas novas ou não se sentem confortáveis utilizando aplicativos de relacionamento.
Na Coreia do Sul, grande parte dos casais ainda se conhece na escola, no ambiente de trabalho ou por meio dos tradicionais encontros às cegas organizados por amigos e familiares.
Fora desses círculos, iniciar uma conversa com um desconhecido continua sendo algo pouco comum.
Conseguir uma vaga no retiro é quase tão difícil quanto encontrar um parceiro
O sucesso da iniciativa surpreendeu até os organizadores.
Para participar do retiro, os candidatos precisam preencher questionários, gravar vídeos de apresentação e demonstrar interesse genuíno em casamento e formação de família.
A concorrência é enorme.
Em uma das edições, mais de 1.500 mulheres disputaram poucas vagas disponíveis.
O encontro é aberto inclusive para pessoas que não seguem o budismo.
Entre os participantes estava Sunhyeji, de 28 anos.
Depois de deixar Seul para trabalhar em outra região do país, ela percebeu que sua rotina praticamente eliminou qualquer oportunidade de conhecer alguém.
Casa, trabalho e poucos momentos de lazer formavam um ciclo difícil de romper.
Outro participante, Enyo, de 30 anos, contou que quase todos os colegas de sua fábrica eram homens e que suas experiências em encontros às cegas nunca passaram de conversas superficiais.
Para ambos, o retiro representava uma oportunidade rara de conhecer pessoas vivendo situações semelhantes.
Dança, rosas e apresentações transformam o retiro em um verdadeiro reality
Apesar do cenário tranquilo do templo, a programação está longe de ser silenciosa.
Os participantes passam o dia inteiro alternando atividades para estimular conversas e criar conexões.
Há caminhadas pelos jardins, encontros individuais, refeições em dupla e momentos em grupo.
Em determinado momento, os homens entregam rosas de plástico às mulheres com quem gostariam de conversar novamente.
Mais tarde, todos precisam mostrar algum talento diante dos demais.
Alguns dançam sucessos do K-pop, outros cantam, tocam instrumentos musicais ou apresentam habilidades inesperadas.
Depois vêm as rodadas de encontros rápidos, nas quais poucos minutos precisam ser suficientes para causar uma boa impressão.
As escolhas vão afunilando até que cada participante indique quem gostaria de encontrar novamente.
Nem todos conseguem formar um casal.
Mas quase todos terminam o retiro conhecendo pessoas novas e ampliando seu círculo de amizades.
O governo também aposta em iniciativas para aproximar solteiros
O retiro do templo faz parte de um esforço muito maior realizado na Coreia do Sul.
Há mais de duas décadas, governos locais e diferentes instituições promovem eventos para incentivar relacionamentos.
Existem encontros organizados em oficinas de marcenaria, festivais gastronômicos, passeios ao ar livre e até festas com DJs patrocinadas pelo poder público.
Ao mesmo tempo, bilhões de dólares foram investidos em políticas voltadas ao aumento da natalidade, incluindo incentivos financeiros, licenças parentais ampliadas e moradias subsidiadas para casais recém-casados.
Especialistas ainda discutem quanto essas iniciativas realmente influenciam o comportamento da população.
Parte da recuperação recente nas taxas de natalidade pode estar relacionada ao adiamento de casamentos durante a pandemia ou ao fato de uma nova geração estar chegando à idade de formar família.
Pesquisas recentes, porém, apontam outro dado animador.
O interesse pelo casamento e por ter filhos voltou a crescer entre muitos jovens solteiros.
Nem todos encontraram o amor, mas quase todos saíram diferentes
Ao final do retiro, oito casais foram formados.
Outros participantes não encontraram um parceiro romântico, mas levaram algo igualmente importante.
Enyo deixou o templo sem um relacionamento, embora garantisse que voltaria em uma próxima edição se tivesse outra oportunidade.
Sunhyeji também não saiu namorando, mas comemorava as amizades criadas durante aqueles dois dias.
Ela contou que passou parte da madrugada conversando com outras participantes e que o grupo já planejava novos encontros fora do templo.
Talvez esse seja o maior resultado da experiência.
Mais do que produzir casamentos imediatamente, o retiro cria espaços onde jovens conseguem fazer algo que anda cada vez mais raro na Coreia do Sul: conhecer pessoas, conversar sem pressa e construir conexões reais.
Em um país preocupado com seu futuro demográfico, às vezes a primeira solução não é convencer alguém a ter filhos, mas simplesmente ajudá-lo a encontrar alguém com quem queira compartilhar a vida.
[Fonte: BBC]