Uma mãe que continua carregando seu filhote depois da morte. Um pequeno roedor que intensifica a busca pelo parceiro ausente. Comportamentos como esses levantam uma pergunta difícil: os animais sentem luto? Estudos mostram que romper um vínculo pode alterar tanto a rotina quanto processos biológicos. O desafio é descobrir o que essas mudanças revelam sobre uma experiência emocional que os animais não conseguem descrever em palavras.
Investigar essa questão exige mais do que identificar atitudes que parecem tristes aos olhos humanos. Os pesquisadores precisam comparar comportamentos, considerar explicações alternativas e distinguir a reação à perda de outras respostas ao estresse.
O que significa carregar um filhote morto

Entre os comportamentos mais estudados está o de mães primatas que transportam o corpo de suas crias por algum tempo após a morte.
Uma análise comparativa publicada em 2021 identificou padrões nessa resposta. O transporte era mais provável quando a morte ocorria por causas não traumáticas, como doenças, e entre mães mais jovens. Esses resultados indicam que fatores ligados à experiência materna e às circunstâncias da morte influenciam a conduta.
Uma hipótese é que sinais menos evidentes dificultem reconhecer que o filhote morreu. Outra possibilidade envolve a persistência do vínculo e dos cuidados maternos.
Nenhuma explicação isolada resolve todos os casos. Em um estudo com chimpanzés, os pesquisadores observaram mães carregando filhotes mortos apesar de indícios comportamentais de que reconheciam a morte. Portanto, manter contato com o corpo não significa necessariamente desconhecer o que aconteceu.
A ausência de um parceiro deixa marcas no cérebro
Os arganazes-da-pradaria, pequenos roedores que formam vínculos de casal, ajudam os cientistas a investigar os mecanismos biológicos dessas relações.
Uma pesquisa da Universidade do Colorado em Boulder mostrou que buscar, antecipar o encontro e interagir com o parceiro provocavam uma liberação maior de dopamina do que situações semelhantes com um indivíduo desconhecido.
A dopamina participa da motivação e dos circuitos de recompensa. O resultado sugere que um parceiro específico adquire uma importância particular para o cérebro do animal. Após quatro semanas de separação, essa diferença na resposta diminuiu, algo que os pesquisadores interpretam como um possível mecanismo que favorece a formação de novos vínculos.
Outro estudo encontrou aumento na procura pelo parceiro e alterações no sistema de dopamina após a separação. Isso reforça que perder uma relação pode produzir uma resposta diferente daquela associada ao isolamento de maneira geral. Contudo, separar animais em laboratório não reproduz todos os aspectos de uma morte.
As reações não precisam ser iguais às humanas
Também existem resultados que complicam a comparação direta entre espécies.
Um estudo divulgado pela University College London em 2025 identificou um período breve de inquietação física em mães de macacos após a morte dos filhotes. Os pesquisadores não observaram sinais frequentemente associados ao luto humano, como letargia e perda de apetite.
Esse resultado mostra por que procurar apenas uma versão animal da tristeza humana pode limitar a investigação. Espécies diferentes podem responder à perda de formas distintas, e uma mesma conduta pode ter mais de uma explicação.
O vínculo é uma parte central da resposta

As pesquisas convergem em um ponto: relações sociais importantes podem influenciar profundamente o comportamento e a biologia dos animais. A ausência de um companheiro, portanto, merece atenção científica.
Chamar essa experiência de luto exige definir quais evidências sustentam o termo. A questão permanece em estudo, mas os dados já permitem investigar a perda como algo que produz efeitos mensuráveis — inclusive quando a resposta do animal não se parece com a nossa.