Uma onda quebra na praia e, por alguns instantes, sua espuma ganha um brilho azulado. Logo depois, a escuridão volta a dominar a paisagem. A cena pode parecer um efeito de cinema, mas tem uma explicação biológica: pequenos organismos presentes na água conseguem produzir luz. Conhecido como bioluminescência, o fenômeno ocorre em diferentes regiões costeiras e pode criar um espetáculo passageiro junto à areia.
Uma reportagem do jornal argentino La Capital destacou esse brilho no litoral sul de São Paulo. Entretanto, o texto mistura a localização de Praia da Juréia com a Ilha do Cardoso. São destinos distintos: a primeira fica em Iguape, enquanto a ilha pertence ao município de Cananéia.
De onde vem a luz azul

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), os principais responsáveis pelos espetáculos luminosos próximos à costa costumam ser dinoflagelados, organismos microscópicos que integram o plâncton.
Algumas espécies, como Noctiluca scintillans, emitem luz quando o movimento das ondas estimula suas células. Por isso, o brilho acompanha a agitação da água e pode aparecer em flashes, em vez de formar uma faixa permanentemente iluminada.
A produção de luz envolve uma reação química. Uma molécula chamada luciferina participa do processo, com a atuação de uma enzima denominada luciferase. A energia liberada aparece na forma de luz, frequentemente azul ou esverdeada.
Não se trata de um reflexo da Lua nem de iluminação artificial. Os próprios organismos geram a luminosidade.
Por que uma praia brilha em uma noite e fica escura na seguinte
A presença desses seres vivos varia conforme o ambiente. Temperatura, salinidade, disponibilidade de nutrientes e luz influenciam o crescimento e a distribuição de dinoflagelados, como descreve uma pesquisa da Universidade de São Paulo sobre organismos bioluminescentes. teses.usp.br
Assim, uma observação isolada não permite garantir que o mesmo trecho de praia voltará a apresentar o fenômeno no dia seguinte. A intensidade também depende da concentração dos organismos e da movimentação da água.
A escuridão ajuda a perceber os flashes. Noites com pouca iluminação ambiental favorecem a observação, mas não fazem o plâncton luminoso aparecer. É preciso distinguir duas condições: a existência do fenômeno e a facilidade de enxergá-lo.
Juréia e Ilha do Cardoso são lugares diferentes
A página oficial de turismo de Iguape situa Praia da Juréia no bairro da Barra do Ribeira. Em uma de suas extremidades fica o Costão da Juréia, associado ao Parque Estadual do Prelado.
Já a Ilha do Cardoso abriga um parque estadual no extremo sul do litoral paulista. Seus núcleos de visitação têm acesso por transporte aquático, conforme as informações da Fundação Florestal.
A existência dessas áreas naturais não comprova, por si só, que determinada praia ofereça avistamentos frequentes de bioluminescência. Por isso, o brilho não deve entrar no roteiro como uma atividade com horário e resultado assegurados.
Um encontro que depende da natureza
Para quem deseja observar o fenômeno, vale consultar informações locais sobre ocorrências recentes e respeitar as regras de acesso, especialmente em unidades de conservação. Reduzir luzes fortes também facilita a adaptação dos olhos à escuridão.
A expectativa mais realista é encontrar uma praia que já valha a visita por sua paisagem. Se as condições se alinharem, o movimento de uma onda poderá acrescentar algo inesperado: alguns segundos de azul no meio da noite.