Para ter dimensão do problema, isso equivale a 23 pessoas sem teto a cada 10 mil habitantes. Um número alto para qualquer nação — ainda mais para a maior economia do mundo.
Por que a população em situação de rua cresceu tanto

Especialistas apontam que não existe um único culpado. O aumento da população em situação de rua é resultado de uma combinação de fatores que se reforçam mutuamente.
O principal deles é a crise de moradia acessível. Em muitas cidades americanas, o preço do aluguel cresceu muito mais rápido que os salários. Para milhões de famílias, basta uma demissão, uma doença ou um imprevisto financeiro para perder a casa.
Outro fator decisivo foi o fim de programas emergenciais criados durante a pandemia. Auxílios federais, subsídios para aluguel e moratórias contra despejos ajudaram a conter o problema por um período. Quando essas medidas acabaram, a realidade voltou com força total — e piorada pela inflação.
Há ainda a pressão demográfica causada pelo aumento de imigrantes que solicitam asilo. Sem acesso imediato a trabalho, renda ou moradia, muitos acabam engrossando as estatísticas de pessoas vivendo nas ruas.
Crianças e famílias estão entre as mais afetadas
Um dos dados mais alarmantes envolve famílias com crianças. Elas responderam por cerca de 40% do aumento recente no número de pessoas sem moradia. Em janeiro de 2024, quase 150 mil menores de idade foram contabilizados sem acesso a uma casa.
Esse cenário agrava problemas de saúde, educação e desenvolvimento infantil, além de gerar efeitos de longo prazo difíceis de reverter. Para especialistas, a falta de moradia na infância aumenta significativamente o risco de pobreza crônica na vida adulta.
A resposta do governo e as críticas
Diante da crise, o governo federal anunciou medidas mais duras. Entre elas, estão a facilitação de prisões de pessoas em situação de rua, o reforço de patrulhas e a transferência compulsória para centros de tratamento, especialmente na região de Washington, DC.
A política prioriza repasses federais para cidades que proibirem acampamentos urbanos, endurecerem regras contra o uso de drogas em espaços públicos e ampliarem a coleta de dados sobre pessoas com transtornos mentais.
Organizações da sociedade civil e pesquisadores reagiram com um alerta. Para eles, criminalizar a falta de moradia não resolve o problema e pode agravá-lo. Instituições como a Aliança Nacional para o Fim dos Sem-Teto e estudos ligados à Universidade da Califórnia em San Francisco defendem que a crise é estrutural, ligada à desigualdade econômica, à falta de políticas habitacionais e a falhas no acesso a serviços de saúde mental.
Um problema rico demais para ser ignorado
O recorde de pessoas sem moradia nos Estados Unidos escancara um paradoxo incômodo: crescimento econômico não garante bem-estar social. Sem políticas públicas voltadas à moradia, renda e saúde, a riqueza concentra enquanto o número de pessoas vivendo nas ruas aumenta.
O debate está longe de acabar — e o caminho escolhido agora pode definir se a maior economia do mundo vai enfrentar o problema pela raiz ou apenas empurrá-lo para fora do campo de visão.
[Fonte: Diário da Região]