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Ciência

Antártida sob ataque por “tempestades submarinas”: nova pesquisa revela que o gelo está derretendo mais rápido do que imaginávamos

Cientistas identificaram um novo processo que acelera a perda de gelo no oeste da Antártida: vórtices oceânicos gerados pelo congelamento e degelo arrastam águas mais quentes do fundo do mar diretamente contra as plataformas de gelo. A descoberta adiciona um novo fator a um sistema já em colapso — e indica que o degelo pode ser mais rápido do que se previa.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A camada de gelo da Antártida Ocidental é colossal — cobre mais de 760 mil milhas quadradas e alcança 1,9 km de espessura em alguns pontos. Se desaparecesse totalmente, o nível do mar subiria cerca de três metros. Até pouco tempo, acreditava-se que mudanças dessa escala levariam séculos. Mas evidências recentes vêm rompendo essa ideia: o continente está se transformando com uma velocidade alarmante, impulsionado por mecanismos de degelo que os cientistas só agora estão conseguindo observar.

O novo vilão: vórtices que trazem calor para baixo do gelo

Um estudo publicado na Nature Geoscience descreve a formação de “tempestades submarinas”, vórtices poderosos que transportam água relativamente quente das profundezas até a base das plataformas de gelo — áreas flutuantes que prolongam o manto antártico sobre o oceano. Esse movimento rompe a camada isolante de água gelada que deveria proteger o gelo do contato com águas mais quentes, acelerando o derretimento por baixo.

O glaciologista Mattia Poinelli, autor principal e pesquisador da Universidade da Califórnia em Irvine e do JPL/NASA, explica:

“Eles se parecem exatamente com tempestades. São extremamente energéticos, com movimento vertical intenso e turbulento próximo à superfície.”

A origem dessas tempestades está no próprio vai e vem do gelo:

  • quando congela → o gelo expulsa sal;

  • quando derrete → libera água doce.

Essa alternância muda a densidade da água e cria redemoinhos que agem como turbinas, puxando calor de zonas profundas.

Uma engrenagem que pode desestabilizar toda a Antártida Ocidental

As plataformas de gelo funcionam como rolhas gigantes, segurando os glaciares que estão em terra firme. Se essas “tampas” se partirem de baixo para cima, os glaciares deslizam para o oceano — e isso eleva rapidamente o nível do mar. É por isso que o fenômeno preocupa tanto.

E o risco cresce junto com outra tendência grave: a queda dramática do gelo marinho que circunda a Antártida. Esses blocos soltos atuam como um amortecedor natural, absorvendo ondas e protegendo as plataformas contra impactos. Sem eles:

  • mais ondas atingem o gelo, quebrando-o;

  • o oceano escuro absorve calor que antes seria refletido;

  • mais derretimento libera mais água doce;

  • o ciclo se retroalimenta.

Resultado: mais tempestades submarinas, mais calor, mais perda de gelo.

Linhas de ancoragem também recuam — e depressa

As “grounding lines” — regiões onde o gelo deixa o solo e começa a flutuar — estão recuando rapidamente. Um estudo recente, com 25 anos de dados, registrou retirada de até 700 metros por ano. Cada avanço do oceano para dentro da plataforma expõe mais gelo ao calor, fragilizando todo o sistema.

As tempestades submarinas podem estar alimentando esse recuo. Para o físico Pietro Milillo, da Universidade de Houston:

“Esse estudo fornece um mecanismo convincente de tempestades pequenas, mas poderosas, que perfuram o gelo por baixo e aceleram o derretimento.”

O que ainda não sabemos — e o que precisamos descobrir logo

O novo estudo baseia-se em modelos, embora o fenômeno já tenha sido observado em ao menos uma área da Antártida. A lacuna crítica é dados reais do fundo das plataformas — uma zona difícil de acessar, escura e hostil, agora explorada por robôs submersíveis.

A dúvida central permanece aberta: quão rápido podemos perder esse gelo?
A resposta determinará o futuro do nível do mar global — e o mapa costeiro do planeta.

Milillo alerta:

“Pensamos que a camada de gelo muda lentamente, mas ela pode reagir em dias ou semanas. Precisamos monitorar o subgelo com a mesma urgência com que monitoramos tempestades atmosféricas.”

O degelo antártico não é apenas um processo distante — é um sistema altamente sensível que pode acelerar repentinamente. Tempestades invisíveis sob o gelo mostram que o futuro da Antártida depende de mecanismos que acabamos de começar a enxergar. E o tempo para entendê-los está derretendo tão rápido quanto o próprio continente.

 

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