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Tecnologia

Apps de namoro estão deixando usuários exaustos, ansiosos e mais solitários — e a ciência já identificou o ciclo por trás desse fenômeno

Baixar o aplicativo, criar expectativas, se frustrar, apagar a conta e voltar meses depois. Esse padrão se repete com milhões de pessoas ao redor do mundo. Agora, pesquisas mostram que o desgaste provocado pelas plataformas de namoro pode se parecer mais com burnout profissional do que com a busca por um relacionamento.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Há dois anos, Fernanda decidiu abandonar os aplicativos de namoro. Cansada de conversas sem futuro, promessas vazias e encontros decepcionantes, ela acreditava ter encerrado aquele capítulo da vida. Mas bastou ver amigos encontrando parceiros pela internet para a esperança reaparecer.

Aos 29 anos, a consultora de relações internacionais resolveu dar mais uma chance às plataformas. Poucas semanas depois, já estava novamente presa em um ciclo familiar: dezenas de conversas simultâneas, notificações constantes, ansiedade para responder mensagens e a sensação de que precisava ser interessante o tempo todo.

O problema não era apenas a falta de resultados. Era o desgaste emocional acumulado. E, segundo especialistas, Fernanda não está sozinha.

Quando procurar um relacionamento começa a parecer um trabalho

Tinder
© Nikita Burdenkov – Shutterstock

Pesquisadores vêm observando que muitos usuários de aplicativos de namoro desenvolvem sintomas semelhantes aos encontrados em ambientes profissionais altamente estressantes.

O fenômeno é conhecido como burnout, ou esgotamento emocional.

Liesel Sharabi, diretora do Laboratório de Relacionamentos e Tecnologia da Universidade Estadual do Arizona, liderou um estudo que acompanhou centenas de usuários por três meses. Os resultados revelaram um padrão consistente: quanto mais tempo as pessoas permaneciam nas plataformas, maiores eram os sinais de desgaste psicológico.

Segundo a literatura científica, o burnout costuma apresentar três componentes principais: exaustão emocional, cinismo e sensação de impotência.

Nos aplicativos de namoro, esses elementos aparecem de formas bastante específicas.

A exaustão surge quando abrir o aplicativo deixa de ser divertido e passa a gerar cansaço, ansiedade ou desmotivação.

O cinismo aparece quando os perfis começam a parecer todos iguais e as pessoas deixam de ser vistas como indivíduos reais, transformando-se em apenas mais uma foto na tela.

Já a impotência se manifesta quando o usuário conclui que nada do que faz funciona e começa a acreditar que talvez o problema esteja nele próprio.

Os efeitos podem ir além da frustração amorosa

Embora seja comum ouvir que “namorar sempre foi difícil”, as pesquisas indicam que os impactos podem ser mais profundos.

Sharabi participou recentemente de uma meta-análise que reuniu 17 anos de estudos envolvendo aproximadamente 26 mil participantes. Os resultados mostraram que usuários de aplicativos de namoro apresentavam índices mais elevados de ansiedade, depressão, solidão, sofrimento psicológico e dificuldades de regulação emocional em comparação com pessoas que não utilizavam essas plataformas.

O dado mais preocupante é que os efeitos parecem ser ainda mais intensos entre indivíduos que já enfrentavam vulnerabilidades emocionais antes de entrar nos aplicativos.

Paradoxalmente, justamente quem encontra mais dificuldade para conhecer pessoas presencialmente pode acabar sendo o grupo mais afetado pelo desgaste digital.

O papel da gamificação e do excesso de opções

Tinder
© Elena Helade- Unsplash

Especialistas apontam que parte do problema está no próprio design das plataformas.

Muitos aplicativos utilizam sistemas de recompensa semelhantes aos encontrados em redes sociais e até em máquinas caça-níqueis. Curtidas, combinações e notificações geram pequenas descargas de satisfação que incentivam o usuário a continuar deslizando a tela.

O problema é que essas recompensas são imprevisíveis. Às vezes elas aparecem, às vezes não.

Esse mecanismo mantém as pessoas engajadas por longos períodos, mesmo quando a experiência deixa de ser prazerosa.

Outro fator importante é a quantidade de opções disponíveis.

Antes da internet, uma pessoa podia conhecer algumas dezenas ou centenas de potenciais parceiros ao longo da vida. Hoje, é possível visualizar mais perfis em uma semana do que gerações anteriores conheceriam em anos.

Embora isso amplie as oportunidades, também cria uma carga mental significativa. Avaliar constantemente novas possibilidades transforma a busca por um relacionamento em uma atividade quase profissional.

Quatro estratégias para evitar o esgotamento

Para Sharabi, abandonar completamente os aplicativos não é necessariamente a solução. O mais importante é aprender a utilizá-los de forma equilibrada.

A primeira recomendação é não depender exclusivamente deles para conhecer pessoas. Participar de atividades sociais, praticar esportes, frequentar eventos ou aceitar apresentações feitas por amigos reduz a pressão colocada sobre cada interação online.

A segunda é estabelecer limites claros de uso. Definir horários específicos para acessar o aplicativo evita sessões intermináveis de deslizar perfis sem propósito.

O terceiro conselho é compartilhar a experiência com amigos. Conversar sobre frustrações, expectativas e decepções ajuda a reduzir a sensação de isolamento que frequentemente acompanha o processo.

Por fim, é fundamental reconhecer quando chegou a hora de fazer uma pausa. Se o aplicativo começa a prejudicar o humor, diminuir a autoestima ou alimentar a sensação de desesperança, afastar-se temporariamente pode ser a decisão mais saudável.

O futuro dos aplicativos pode estar mudando

Tinder
© Getty

As próprias empresas do setor parecem reconhecer que existe um problema.

Nos últimos anos, plataformas como Tinder, Bumble e Hinge passaram a experimentar novos formatos, incluindo ferramentas baseadas em inteligência artificial e eventos presenciais destinados a estimular conexões fora das telas.

O motivo é simples: muitos jovens demonstram sinais claros de fadiga digital e vêm reduzindo o interesse por aplicativos tradicionais.

Ainda não se sabe se essas mudanças serão suficientes para quebrar o ciclo de desgaste identificado pelos pesquisadores. Mas uma conclusão já parece evidente: encontrar alguém pela internet pode ampliar as oportunidades de relacionamento, mas não deveria custar a saúde mental de quem está procurando.

Talvez o desafio não seja apenas encontrar a pessoa certa. Talvez seja descobrir uma forma mais humana de fazer isso.

 

[ Fonte: BBC ]

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