Universidades formam pesquisadores, especialistas e líderes que tomarão algumas das decisões climáticas mais importantes das próximas décadas. Mas existe uma questão incômoda por trás desse processo: e se a própria maneira de ensinar sobre mudanças climáticas estiver reproduzindo desigualdades históricas? Uma abordagem conhecida como pedagogia climática decolonial propõe rever quem possui autoridade para explicar a crise e, principalmente, quais conhecimentos são considerados legítimos na busca por soluções.
A crise climática também envolve uma disputa sobre quem produz conhecimento
A pesquisadora Doreen Martínez utiliza o conceito de “colonialismo climático” para questionar a distribuição de responsabilidades pela crise ambiental. A ideia central é que populações e países que historicamente contribuíram menos para o aquecimento global frequentemente enfrentam algumas das consequências mais graves, enquanto atores do Norte Global continuam exercendo grande influência sobre a definição dos problemas e das possíveis respostas.
Essa desigualdade também aparece na produção do conhecimento.
Instituições de ensino superior ocupam uma posição especialmente importante porque ajudam a estabelecer quais teorias, pesquisas e perspectivas chegarão aos futuros cientistas, formuladores de políticas públicas e profissionais responsáveis pelas estratégias climáticas.
Quando determinadas formas de conhecimento dominam esse processo, outras experiências podem permanecer à margem. Isso inclui conhecimentos indígenas, saberes ecológicos locais e perspectivas desenvolvidas por comunidades que convivem diretamente com secas, enchentes, erosão costeira ou outros impactos climáticos.
A pedagogia climática decolonial procura justamente ampliar esse campo.
Em vez de apresentar a mudança climática exclusivamente como um problema técnico que pode ser solucionado com novas tecnologias, ela também pergunta como colonialismo, desenvolvimento desigual, exploração econômica e relações históricas de poder ajudaram a produzir as vulnerabilidades atuais.
Um estudo procurou sinais dessa abordagem dentro das universidades
Para compreender como essa perspectiva aparece na prática, um projeto de pesquisa analisou instituições vinculadas ao cluster global dedicado ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 13, relacionado à ação climática, da International Association of Universities.
A investigação concentrou-se em programas universitários associados ao ensino sobre clima, incluindo iniciativas da University of the West Indies e da University of Nairobi, no Quênia.

Os pesquisadores analisaram materiais disponíveis publicamente e complementaram essas informações com uma pesquisa qualitativa enviada a representantes institucionais.
O objetivo era identificar quatro características consideradas importantes para uma pedagogia climática decolonial: valorização do conhecimento comunitário, ensino conectado às realidades locais, abordagem baseada em justiça climática e intercâmbio de conhecimentos entre instituições e comunidades do Sul Global.
O primeiro elemento considera as comunidades não apenas beneficiárias de políticas ou objetos de pesquisa, mas produtoras de conhecimento. Isso significa que moradores, especialistas locais e detentores de saberes tradicionais também podem participar da formação dos estudantes.
O segundo defende que o clima seja estudado dentro de contextos concretos, utilizando trabalho de campo, estudos de caso e vulnerabilidades específicas de cada região.
Os dois últimos elementos levam a discussão para uma dimensão ainda mais política.
Ensinar sobre o clima também significa discutir quem provocou a crise

A perspectiva da justiça climática propõe apresentar as mudanças ambientais como resultado não apenas de processos naturais ou tecnológicos, mas também de relações históricas e políticas.
Nesse modelo, estudantes são estimulados a perguntar quem mais contribuiu para a crise, quais populações enfrentam seus impactos mais severos e como estruturas construídas durante períodos coloniais continuam influenciando vulnerabilidades contemporâneas.
As conexões Sul-Sul aparecem como outra peça importante.
Países do Sul Global compartilham, em muitos casos, experiências relacionadas ao colonialismo, à desigualdade econômica e às dificuldades de adaptação climática. A colaboração entre suas universidades poderia permitir que conhecimentos fossem produzidos conjuntamente, em vez de depender principalmente de modelos desenvolvidos no Norte Global.
Mas uma parceria entre países do Sul não é automaticamente decolonial. Também é necessário observar possíveis desigualdades internas e verificar quem realmente controla recursos, currículos e decisões acadêmicas.
A análise das universidades revelou justamente um cenário de avanços importantes, mas também lacunas significativas.
Os cursos já estão mudando, mas algumas peças continuam faltando
Os programas analisados apresentaram evidências relevantes de ensino conectado às condições locais.
Na University of the West Indies, cursos climáticos abordam particularmente a realidade dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento e relacionam questões ambientais às prioridades econômicas e sociais caribenhas.
Também aparecem discussões sobre justiça reparatória, exploração histórica e o peso desproporcional das mudanças climáticas sobre populações vulneráveis.
Na University of Nairobi, o ensino também está fortemente conectado ao contexto nacional. Seu mestrado relacionado às mudanças climáticas dialoga com estratégias climáticas e prioridades de desenvolvimento do Quênia, além de incorporar dimensões sociopolíticas.
Entretanto, segundo a análise, a relação entre crise climática, colonialismo e responsabilidade histórica desigual aparece de maneira menos explícita.
Uma das maiores lacunas encontradas nas duas instituições estava na participação direta das comunidades.
Embora existam projetos comunitários, atividades de campo e especialistas convidados, as evidências disponíveis não mostraram claramente comunidades atuando como parceiras efetivas na construção do ensino.
O próximo passo pode exigir uma mudança muito maior nas universidades

Outro ponto ainda pouco desenvolvido é a colaboração educacional Sul-Sul.
Existem redes internacionais, consórcios e parcerias envolvendo as universidades analisadas, mas foram encontradas poucas evidências de disciplinas compartilhadas ou de produção conjunta de conhecimento climático entre universidades e comunidades do Sul Global.
Os pesquisadores reconhecem que uma investigação mais aprofundada dos currículos e conversas diretas com representantes das instituições seriam necessárias para compreender melhor essas relações.
A questão também revela uma limitação na forma como o progresso educacional relacionado ao ODS 13 costuma ser avaliado.
Indicadores podem identificar se uma instituição menciona mudanças climáticas ou sustentabilidade em seus programas, mas isso não necessariamente revela como esses assuntos são ensinados, quais perspectivas recebem espaço ou se questões de justiça fazem realmente parte da formação.
A proposta é desenvolver indicadores qualitativos capazes de avaliar elementos como justiça climática, participação comunitária, aprendizagem situada e reciprocidade entre instituições.
Também seria necessário ampliar cursos ministrados conjuntamente por universidades do Sul Global.
A mudança parece sutil, mas toca em uma pergunta fundamental para o futuro da ação climática: quem terá autoridade para imaginar as soluções?
Se as universidades continuarem utilizando principalmente as mesmas estruturas de conhecimento que acompanharam séculos de desenvolvimento desigual, podem acabar reproduzindo parte das relações que contribuíram para a própria crise.
A pedagogia decolonial propõe outro caminho: colocar mais pessoas, experiências e conhecimentos dentro da sala de aula antes de decidir como enfrentar um problema que afeta o planeta inteiro.
[Fonte: University World News]