Quanto mais a Terra esquenta, mais alguns processos naturais começam a liberar gases de efeito estufa. Esses gases provocam ainda mais aquecimento, que pode gerar novas emissões.
É um ciclo que preocupa os cientistas há anos.
O problema é que alguns desses mecanismos ainda não aparecem adequadamente em muitos dos modelos utilizados para projetar o futuro do clima.
Um estudo publicado na revista Environmental Research Letters tentou calcular o tamanho dessa diferença. Os resultados indicam que emissões provocadas pelo próprio aquecimento podem acrescentar entre 0,2 °C e 0,4 °C às temperaturas globais até 2100.
Isso poderia amplificar em aproximadamente 20% a 30% o aquecimento causado pela humanidade após 2020.
O planeta pode alimentar o próprio aquecimento
Os cientistas chamam esses mecanismos de feedbacks climáticos, ou ciclos de retroalimentação.
Eles acontecem quando uma mudança no sistema climático provoca consequências capazes de reforçar ou reduzir a alteração inicial.
Alguns desses efeitos já estão relativamente bem representados nos modelos climáticos.
É o caso do aumento do vapor de água na atmosfera ou das mudanças na capacidade dos oceanos de absorver carbono.
Mas existem outras fontes que receberam menos atenção.
Entre elas estão o degelo do permafrost, o aquecimento de áreas úmidas, os incêndios florestais e as emissões provenientes de águas continentais, como rios e lagos.
Permafrost e áreas úmidas podem liberar mais gases
O permafrost é um solo permanentemente congelado encontrado principalmente nas regiões mais frias do planeta.
Ele armazena grandes quantidades de matéria orgânica.
Quando esse solo descongela devido ao aumento das temperaturas, microrganismos começam a decompor parte desse material, liberando dióxido de carbono e metano na atmosfera.
Algo semelhante pode acontecer em áreas úmidas.
Temperaturas mais elevadas podem aumentar as emissões de metano desses ecossistemas.
O problema é que tanto o CO₂ quanto o metano intensificam o efeito estufa.
Assim, o aquecimento causado inicialmente pelas atividades humanas pode desencadear novas emissões que, por sua vez, provocam ainda mais aquecimento.
Incêndios também devolvem carbono à atmosfera
As florestas armazenam enormes quantidades de carbono em árvores, folhas e solos.
Quando incêndios queimam essa vegetação, parte desse carbono retorna rapidamente para a atmosfera.
O aumento das temperaturas e condições mais secas podem favorecer incêndios mais intensos em determinadas regiões.
Os pesquisadores também consideraram as emissões de águas continentais.
Para entender o impacto combinado desses processos, a equipe utilizou um modelo climático de complexidade reduzida e analisou quatro grandes mecanismos: permafrost, incêndios florestais, áreas úmidas e águas interiores.
O objetivo era descobrir quanto CO₂ e metano adicionais essas fontes poderiam liberar conforme o planeta continua esquentando.
Mesmo zerar as emissões humanas não eliminaria o problema
Os resultados mostram por que esses ciclos merecem atenção.
Mesmo em um cenário no qual a humanidade alcançasse emissões líquidas zero, os feedbacks analisados poderiam acrescentar aproximadamente 0,2 °C de aquecimento até o final do século.
Isso acontece porque parte das emissões adicionais viria de processos naturais já estimulados pelo aumento das temperaturas.
Em um cenário no qual as emissões humanas continuassem próximas dos níveis atuais, o efeito adicional poderia chegar a cerca de 0,3 °C até 2100.
Considerando diferentes cenários, o estudo aponta uma faixa de aproximadamente 0,2 °C a 0,4 °C de aquecimento adicional.
Pode parecer pouco.
Para o sistema climático, porém, algumas frações de grau podem fazer uma diferença considerável.
O orçamento de carbono pode ser menor do que pensamos
Existe outra consequência importante.
Governos e cientistas trabalham com o chamado orçamento de carbono: uma estimativa da quantidade de CO₂ que a humanidade ainda poderia emitir mantendo determinada probabilidade de limitar o aquecimento a um nível específico.
Se processos naturais passarem a liberar mais gases de efeito estufa do que muitos cenários consideram, esse orçamento pode ser menor.
Em outras palavras, a humanidade poderia ter menos espaço para continuar emitindo carbono antes de ultrapassar determinados limites de temperatura.
Brian Buma, cientista climático e coautor do estudo, afirma que o sistema terrestre não fica parado enquanto governos discutem políticas.
Emissões provenientes do permafrost, das áreas úmidas e dos incêndios podem continuar avançando independentemente da velocidade das decisões políticas.
Cada fração de grau importa
O estudo chega em um momento particularmente delicado.
O limite de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, estabelecido como referência no Acordo de Paris, está cada vez mais difícil de ser mantido no longo prazo.
E ultrapassar esse patamar não funciona como um interruptor que transforma imediatamente o planeta em um lugar inabitável.
O risco aumenta progressivamente.
Cada fração adicional de grau pode intensificar ondas de calor, chuvas extremas, secas, incêndios e outros impactos associados às mudanças climáticas.
É por isso que um acréscimo aparentemente pequeno, como 0,2 °C ou 0,3 °C, pode ser relevante.
Modelos climáticos precisam considerar melhor esses ciclos
Os pesquisadores defendem que esses mecanismos sejam incorporados com maior precisão às próximas gerações de projeções e políticas climáticas.
Isso não significa que os modelos atuais estejam ignorando completamente as respostas naturais do planeta.
O problema é que determinados feedbacks de emissões ainda não são representados adequadamente em muitos cenários utilizados para orientar decisões.
A nova estimativa também não significa que o aquecimento global inevitavelmente será 30% maior.
O estudo indica que, dependendo da trajetória de emissões e da intensidade dessas respostas naturais, elas poderiam amplificar em cerca de 20% a 30% o aquecimento antropogênico acumulado após 2020.
A mensagem central é mais simples: reduzir as emissões humanas continua sendo fundamental, mas talvez seja necessário fazê-lo ainda mais rapidamente.
Porque, enquanto a humanidade aquece o planeta, alguns sistemas naturais podem começar a devolver parte desse aquecimento na forma de novas emissões — criando um ciclo cada vez mais difícil de interromper.