Pular para o conteúdo
Mundo

Uruguai tem a maior taxa de suicídio da América Latina: 5 fatores ajudam a entender o problema

Com 19,16 mortes por suicídio a cada 100 mil habitantes, o Uruguai enfrenta um dos maiores desafios de saúde pública da região. Solidão, dificuldade para pedir ajuda, acesso limitado a especialistas, violência e incerteza sobre o futuro estão entre os fatores que ajudam a compreender o cenário.
Por

Tempo de leitura: 5 minutos

Nos dias em que se sente bem, Yamila Durán pinta o rosto de verde, lilás e amarelo. Quando o ânimo não acompanha, a uruguaia de 18 anos prefere apenas um delineado preto.

A atividade faz parte de uma oficina de maquiagem artística do programa Ni Silencio Ni Tabú, iniciativa de promoção da saúde mental voltada aos jovens.

Ao final das aulas, os participantes conversam sobre as emoções que sentiram e até sobre as cores escolhidas.

Para Yamila, esse espaço ajudou a mudar uma época em que se sentia sozinha e incompreendida. Ela chegou a ter pensamentos suicidas, afastou-se dos amigos e abandonou a escola por dois anos.

Hoje, voltou a estudar e pensa em cursar psicologia.

Sua história ajuda a colocar um rosto em um problema que atinge o Uruguai de maneira particularmente intensa.

Uruguai registra 19,16 mortes por 100 mil habitantes

Apesar de uma pequena redução recente, a taxa de suicídio do país permanece em 19,16 mortes para cada 100 mil habitantes.

Em 2025, foram registradas 668 mortes por suicídio. Os homens representaram 79% dos casos e as mulheres, 21%.

Entre os idosos, o problema é especialmente grave: pessoas com mais de 80 anos, principalmente homens, apresentam as maiores taxas de mortalidade.

Já as tentativas são mais frequentes entre adolescentes de 15 a 19 anos, sobretudo meninas. As autoridades também demonstram preocupação crescente com crianças entre 10 e 14 anos.

No continente americano, apenas Guiana e Suriname apresentam taxas superiores às do Uruguai. A média das Américas é de aproximadamente 9,2 mortes por 100 mil habitantes.

Especialistas destacam que não existe uma única explicação para o fenômeno. O suicídio é resultado de uma combinação complexa de fatores individuais, sociais e econômicos.

Ainda assim, cinco questões aparecem com frequência no debate uruguaio.

1. A solidão afeta uma parcela importante da população

Pressões E Solidão
© Anthony Tran – Unsplash

A solidão está entre os principais motivos de consultas psicológicas no país.

E não significa necessariamente viver fisicamente isolado.

Uma pessoa pode estar cercada por familiares, colegas ou contatos nas redes sociais e, mesmo assim, sentir que não possui vínculos significativos ou uma verdadeira rede de apoio.

Segundo dados apresentados no país, 24% da população uruguaia está no nível mais alto de um índice de solidão.

No mundo, a Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente uma em cada seis pessoas enfrenta a solidão.

Os extremos de idade estão entre os grupos particularmente vulneráveis.

No caso dos jovens, a construção da identidade e a necessidade de pertencimento tornam as conexões sociais especialmente importantes.

2. O silêncio ainda dificulta a busca por ajuda

Yamila conta que inicialmente encontrou apoio em seus pais, mas não conseguia conversar com eles com a profundidade que precisava.

Não necessariamente por falta de preocupação.

Muitas famílias simplesmente não possuem ferramentas para abordar sofrimento emocional, depressão ou pensamentos suicidas.

O estigma também pode levar quem está sofrendo a esconder o que sente por medo, vergonha ou receio de ser julgado.

Foi justamente por isso que o programa frequentado por Yamila recebeu o nome Ni Silencio Ni Tabú — “Nem Silêncio Nem Tabu”, em português.

Especialistas também apontam outro paradoxo.

Durante anos, o suicídio esteve entre as principais causas de mortes violentas no Uruguai, mas nem sempre recebeu no debate público uma atenção proporcional à dimensão do problema.

Romper esse silêncio é considerado parte fundamental da prevenção.

3. Conseguir atendimento especializado ainda pode ser difícil

O Uruguai avançou ao reconhecer a saúde mental como um direito e incorporar atendimento psicológico ao sistema público.

Porém, existe uma diferença entre reconhecer esse direito e conseguir atendimento rápido e adequado.

O problema aparece principalmente fora de Montevidéu.

Em Las Piedras, terceira cidade mais populosa do país e onde Yamila participa das atividades, haveria apenas uma psiquiatra disponível no sistema público, segundo o coordenador do centro ouvido pela BBC Mundo.

O governo tenta ampliar a cobertura.

Dos sete centros ligados ao programa juvenil citado na reportagem, apenas dois estão na capital. Os demais foram distribuídos por outras localidades.

Reduzir o tempo de espera para atendimento psiquiátrico e melhorar o acompanhamento de pessoas após tentativas de suicídio também estão entre as prioridades anunciadas pelas autoridades.

Há ainda uma distinção importante: problemas de saúde mental e suicídio não são sinônimos.

Segundo a OMS, nem todas as pessoas que morrem por suicídio apresentam um transtorno mental, assim como a maioria das pessoas com problemas de saúde mental não deseja tirar a própria vida.

4. Violência e desigualdade aumentam a vulnerabilidade

Violencia Familiar Criancas
© Getty Images – Unsplash

A resposta também precisa ultrapassar os consultórios.

Violência doméstica, relacionamentos abusivos e agressões dentro de ambientes educacionais podem contribuir para situações de sofrimento psicológico.

A violência psicológica, por exemplo, pode produzir consequências duradouras sobre a autoestima.

Condições socioeconômicas também entram nessa equação.

Pobreza, desemprego, precariedade profissional, problemas habitacionais e desigualdade podem aumentar a exposição ao estresse enquanto reduzem os recursos disponíveis para enfrentar uma crise.

Entre as mulheres, a violência sexual merece atenção especial.

Uma pesquisa da Unicef no Uruguai indicou que 30% das mulheres jovens relataram alguma situação de abuso sexual durante a infância ou adolescência, contra 9% dos homens.

Experiências traumáticas desse tipo podem aumentar a vulnerabilidade a problemas de saúde mental, autolesões e comportamentos suicidas.

5. Não conseguir imaginar o futuro também pesa

Outro fator mencionado pelos especialistas é a falta de perspectiva.

Quando uma pessoa encontra dificuldades para conquistar estabilidade profissional, moradia, independência financeira ou construir projetos pessoais, pode surgir uma sensação de estagnação.

Isso pode ser especialmente importante entre os jovens.

O Uruguai possui cerca de 3,4 milhões de habitantes e enfrenta também um processo de envelhecimento populacional.

Nesse contexto, especialistas defendem que políticas de prevenção precisam criar não apenas atendimento médico, mas também redes sociais e comunitárias capazes de oferecer pertencimento e perspectivas.

Prevenir exige muito mais do que atendimento psicológico

A experiência de Yamila ajuda a mostrar essa complexidade.

A terapia foi importante, mas também foram fundamentais os vínculos construídos com outros jovens em um ambiente onde ela não se sentia julgada.

Seus pensamentos suicidas diminuíram, ela retomou os estudos e começou a imaginar novamente o próprio futuro.

Agora, quando terminar o ensino médio, pretende estudar psicologia na universidade.

O caso não oferece uma fórmula simples para resolver um problema nacional.

Mas ajuda a mostrar por que especialistas insistem que a prevenção precisa combinar atendimento profissional, acesso aos serviços públicos, combate à violência, redução do isolamento e fortalecimento dos vínculos sociais.

Por trás de uma taxa de 19,16 mortes por 100 mil habitantes existem histórias individuais, famílias e comunidades.

E é justamente por isso que enfrentar o suicídio exige algo que vai muito além das estatísticas: criar condições para que pessoas em sofrimento encontrem apoio antes de acreditarem que precisam enfrentar tudo sozinhas.

 

[ Fonte: BBC ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados