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As casas que ninguém quer no Japão estão atraindo estrangeiros — mas há um motivo para pensar duas vezes

O Japão tem milhões de casas vazias disponíveis por preços simbólicos, o que tem despertado o interesse de estrangeiros. No entanto, por trás dessa aparente oportunidade escondem-se riscos estruturais, legais e culturais que explicam por que nem mesmo os japoneses querem saber delas.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O Japão é conhecido por sua tecnologia avançada, tradição e segurança, mas também enfrenta um problema silencioso e crescente: o número de casas abandonadas. Essas propriedades, conhecidas como akiya, vêm atraindo estrangeiros em busca de moradia acessível ou oportunidades de investimento. Porém, antes de mergulhar nessa tendência, é preciso entender por que essas casas continuam vazias mesmo com preços extremamente baixos.

Akiya: casas abundantes, mas pouco desejadas

As casas que ninguém quer no Japão estão atraindo estrangeiros — mas há um motivo para pensar duas vezes
© Pexels

Estima-se que existam mais de nove milhões de akiya espalhadas por todo o Japão, o equivalente a cerca de 13,8% de todas as residências do país. Algumas projeções apontam que esse número pode chegar a 11 milhões e ultrapassar 30% da oferta habitacional na próxima década. Se cada casa pudesse abrigar três pessoas, daria para acomodar quase toda a população da Austrália.

Esse fenômeno está ligado principalmente à crise demográfica: a população japonesa está envelhecendo rapidamente e diminuindo ao mesmo tempo. Quando os proprietários, geralmente idosos, falecem ou vão para instituições de cuidados, suas casas ficam desocupadas. Muitos herdeiros, por sua vez, recusam-se a ocupá-las ou vendê-las, seja por questões econômicas, logísticas ou até supersticiosas — algumas casas são consideradas “amaldiçoadas” por terem sido palco de mortes.

Além disso, no Japão, imóveis com mais de 30 anos são vistos como ultrapassados e muitas vezes sem valor, o que contribui para o abandono.

A oportunidade tentadora dos preços baixos

Com preços que chegam a menos de 10 mil dólares, as akiya se tornaram uma tentação para estrangeiros em busca de um lar no Japão ou de investimentos com apelo exótico. O crescimento do trabalho remoto durante a pandemia também contribuiu para a migração de estrangeiros para áreas rurais, onde essas casas estão localizadas.

Segundo Tetsuya Kaneko, especialista do mercado imobiliário japonês, cresce o número de interessados estrangeiros em transformar akiya em casas de férias, imóveis para aluguel de curto prazo ou até residências para aposentadoria. Um desses casos é o do sueco Anton Wormann, que se mudou para o Japão em 2018 e já comprou sete akiya, reformando-as e lucrando até 11 mil dólares mensais com aluguel.

No entanto, Wormann investiu mais de 110 mil dólares nas reformas e reforça que o sucesso só veio com muito estudo, aprendizado da língua e conexão com a comunidade local. “Investir no Japão sem entender como o país funciona é receita para prejuízo”, alerta.

O outro lado da moeda: riscos e obstáculos

Apesar de atrativas no papel, as akiya envolvem uma série de armadilhas. O primeiro obstáculo é o alto custo de reforma. Muitas dessas casas estão em péssimo estado de conservação e exigem obras estruturais caras, que, em alguns casos, superam o valor de mercado do imóvel após renovado. Além disso, há barreiras legais, dificuldade em encontrar os donos e burocracias específicas do sistema japonês.

Outra preocupação recorrente é a segurança. Muitas akiya estão em áreas suscetíveis a terremotos, deslizamentos de terra ou clima extremo, e anos sem manutenção agravam esses riscos. O próprio Kaneko aponta que esse tipo de imóvel não é recomendado para investidores buscando retornos rápidos ou larga escala.

Além disso, mesmo que um estrangeiro esteja disposto a comprar e reformar uma akiya, há dificuldades para encontrar os proprietários. Em muitos casos, os herdeiros vivem em outras regiões ou até fora do Japão, o que complica a formalização da compra. Esse fator tem contribuído para o surgimento de verdadeiras vilas fantasmas, afastando ainda mais a população jovem dessas áreas.

Vale a pena investir?

A resposta é: depende. Para quem tem espírito empreendedor, paciência, disposição para entender a cultura japonesa e recursos para lidar com imprevistos, as akiya podem representar um projeto de vida ou de investimento fascinante. Mas para quem busca facilidade, retorno rápido ou não domina o idioma e o contexto local, o barato pode sair caro.

As casas abandonadas do Japão são mais do que imóveis baratos — são reflexos de uma crise demográfica profunda e de uma mudança cultural silenciosa. Para transformar uma akiya em lar ou fonte de renda, é preciso mais do que dinheiro: é necessário compromisso com o país e com suas complexidades.

Se você pensou em embarcar nessa aventura, a primeira lição é clara: nem sempre uma casa vazia significa uma oportunidade fácil. No Japão, cada imóvel carrega uma história — e o sucesso depende de saber ouvi-la antes de assinar qualquer contrato.

[Fonte: Terra]

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