O Japão é conhecido por sua tecnologia avançada, tradição e segurança, mas também enfrenta um problema silencioso e crescente: o número de casas abandonadas. Essas propriedades, conhecidas como akiya, vêm atraindo estrangeiros em busca de moradia acessível ou oportunidades de investimento. Porém, antes de mergulhar nessa tendência, é preciso entender por que essas casas continuam vazias mesmo com preços extremamente baixos.
Akiya: casas abundantes, mas pouco desejadas

Estima-se que existam mais de nove milhões de akiya espalhadas por todo o Japão, o equivalente a cerca de 13,8% de todas as residências do país. Algumas projeções apontam que esse número pode chegar a 11 milhões e ultrapassar 30% da oferta habitacional na próxima década. Se cada casa pudesse abrigar três pessoas, daria para acomodar quase toda a população da Austrália.
Esse fenômeno está ligado principalmente à crise demográfica: a população japonesa está envelhecendo rapidamente e diminuindo ao mesmo tempo. Quando os proprietários, geralmente idosos, falecem ou vão para instituições de cuidados, suas casas ficam desocupadas. Muitos herdeiros, por sua vez, recusam-se a ocupá-las ou vendê-las, seja por questões econômicas, logísticas ou até supersticiosas — algumas casas são consideradas “amaldiçoadas” por terem sido palco de mortes.
Além disso, no Japão, imóveis com mais de 30 anos são vistos como ultrapassados e muitas vezes sem valor, o que contribui para o abandono.
A oportunidade tentadora dos preços baixos
Com preços que chegam a menos de 10 mil dólares, as akiya se tornaram uma tentação para estrangeiros em busca de um lar no Japão ou de investimentos com apelo exótico. O crescimento do trabalho remoto durante a pandemia também contribuiu para a migração de estrangeiros para áreas rurais, onde essas casas estão localizadas.
Segundo Tetsuya Kaneko, especialista do mercado imobiliário japonês, cresce o número de interessados estrangeiros em transformar akiya em casas de férias, imóveis para aluguel de curto prazo ou até residências para aposentadoria. Um desses casos é o do sueco Anton Wormann, que se mudou para o Japão em 2018 e já comprou sete akiya, reformando-as e lucrando até 11 mil dólares mensais com aluguel.
No entanto, Wormann investiu mais de 110 mil dólares nas reformas e reforça que o sucesso só veio com muito estudo, aprendizado da língua e conexão com a comunidade local. “Investir no Japão sem entender como o país funciona é receita para prejuízo”, alerta.
O outro lado da moeda: riscos e obstáculos
Apesar de atrativas no papel, as akiya envolvem uma série de armadilhas. O primeiro obstáculo é o alto custo de reforma. Muitas dessas casas estão em péssimo estado de conservação e exigem obras estruturais caras, que, em alguns casos, superam o valor de mercado do imóvel após renovado. Além disso, há barreiras legais, dificuldade em encontrar os donos e burocracias específicas do sistema japonês.
Outra preocupação recorrente é a segurança. Muitas akiya estão em áreas suscetíveis a terremotos, deslizamentos de terra ou clima extremo, e anos sem manutenção agravam esses riscos. O próprio Kaneko aponta que esse tipo de imóvel não é recomendado para investidores buscando retornos rápidos ou larga escala.
Além disso, mesmo que um estrangeiro esteja disposto a comprar e reformar uma akiya, há dificuldades para encontrar os proprietários. Em muitos casos, os herdeiros vivem em outras regiões ou até fora do Japão, o que complica a formalização da compra. Esse fator tem contribuído para o surgimento de verdadeiras vilas fantasmas, afastando ainda mais a população jovem dessas áreas.
Vale a pena investir?
A resposta é: depende. Para quem tem espírito empreendedor, paciência, disposição para entender a cultura japonesa e recursos para lidar com imprevistos, as akiya podem representar um projeto de vida ou de investimento fascinante. Mas para quem busca facilidade, retorno rápido ou não domina o idioma e o contexto local, o barato pode sair caro.
As casas abandonadas do Japão são mais do que imóveis baratos — são reflexos de uma crise demográfica profunda e de uma mudança cultural silenciosa. Para transformar uma akiya em lar ou fonte de renda, é preciso mais do que dinheiro: é necessário compromisso com o país e com suas complexidades.
Se você pensou em embarcar nessa aventura, a primeira lição é clara: nem sempre uma casa vazia significa uma oportunidade fácil. No Japão, cada imóvel carrega uma história — e o sucesso depende de saber ouvi-la antes de assinar qualquer contrato.
[Fonte: Terra]