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Tecnologia

As cidades avançam com a inteligência artificial, mas ainda falta uma forma de medir quem está realmente preparado

Governos locais já incorporam IA aos serviços públicos, mas ainda não existe um padrão global para comparar seu nível de preparação. Um novo estudo quer mudar isso analisando infraestrutura, talento, governança e capacidade tecnológica.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A inteligência artificial começa a ocupar um espaço cada vez maior na administração das cidades. Sistemas automatizados já são utilizados para melhorar serviços públicos, processar informações e agilizar a relação entre cidadãos e governos. Existe, porém, um problema básico: ainda não sabemos como comparar quais cidades estão realmente preparadas para essa transformação.

Um novo estudo da Oxford Insights tenta preencher essa lacuna. A organização, responsável por um dos principais índices globais sobre preparação governamental para inteligência artificial, analisou seis cidades para desenvolver as bases de um futuro indicador específico para centros urbanos.

Os países já são comparados, mas as cidades ficaram para trás

O futuro das cidades inteligentes pode não depender de instalar mais tecnologia
© Pexels

Atualmente existem diversos indicadores internacionais capazes de comparar países em aspectos como legislação sobre IA, investimentos, pesquisa científica e infraestrutura tecnológica.

A Oxford Insights publica desde 2017 o Government AI Readiness Index. Sua edição de 2025 analisou 195 governos e avaliou sua capacidade de utilizar e administrar a inteligência artificial de maneira que gere benefícios públicos.

O problema é que esses indicadores nacionais não conseguem mostrar com precisão o que acontece dentro das cidades.

E isso é particularmente importante porque é justamente no nível municipal que grande parte das pessoas interage diariamente com o Estado: transporte, documentação, serviços administrativos, planejamento urbano e atendimento ao cidadão passam pelas autoridades locais.

Para começar a entender essa realidade, pesquisadores analisaram Abu Dabi, Seul, Londres, Montreal, Helsinque e Tallinn.

Não basta instalar um chatbot e dizer que a cidade usa IA

Uma das principais conclusões é que medir a preparação de uma cidade exige olhar muito além da quantidade de ferramentas de inteligência artificial implantadas.

Por trás de qualquer sistema avançado existe uma infraestrutura muito maior.

É necessário ter capacidade computacional, fornecimento de energia, conectividade, dados, profissionais especializados, financiamento e instituições capazes de controlar como a tecnologia será utilizada.

A pesquisa também considera aspectos como governança e resiliência. Afinal, quanto mais serviços públicos dependem de sistemas digitais, maiores são as consequências de uma falha de software, ataque cibernético ou interrupção da infraestrutura.

O estudo trabalha com seis grandes pilares para determinar o grau de preparação de uma cidade e conclui que não existe uma única fórmula para chegar lá.

Existem pelo menos quatro tipos de cidades na corrida pela IA

Os pesquisadores identificaram quatro modelos diferentes.

As chamadas “Platform Cities” concentram seus esforços principalmente em infraestrutura. As “Cognitive Cities” se apoiam em universidades, pesquisa e produção de conhecimento.

Já as “Delivery Cities” utilizam a tecnologia principalmente para melhorar a prestação de serviços públicos.

Por fim, existem as “Strategic Cities”, nas quais a inteligência artificial ocupa uma posição central tanto na estratégia governamental quanto no desenvolvimento econômico. Abu Dabi e Seul foram classificadas nesse último grupo.

Isso significa que duas cidades podem estar igualmente avançadas em IA e, ainda assim, terem chegado a essa posição por caminhos completamente diferentes.

Abu Dabi quer se transformar em um governo baseado em IA

Abu Dabi
© Getty Images – Unsplash

O caso mais detalhado da pesquisa foi Abu Dabi.

Em janeiro de 2025, o emirado anunciou uma estratégia de três anos com a ambição de se transformar no primeiro governo totalmente baseado em inteligência artificial do mundo.

Um dos exemplos é o TAMM, plataforma digital utilizada para centralizar serviços governamentais. Segundo os dados apresentados pela Oxford Insights, o sistema é utilizado por 4,7 milhões de pessoas e atualmente consegue resolver de forma autônoma, com IA, 96% das consultas recebidas.

Mas o diferencial de Abu Dabi não está apenas nos serviços digitais.

A cidade desenvolveu simultaneamente diferentes camadas necessárias para sustentar esse ecossistema, incluindo capacidade computacional, energia, modelos de IA, investimentos e adoção da tecnologia pelo próprio governo.

Foi justamente essa estrutura que permitiu aos pesquisadores observar como a preparação para IA pode ser construída na prática.

O próximo passo será comparar entre 15 e 20 cidades

A intenção da Oxford Insights agora é transformar esse trabalho inicial em algo maior.

A organização pretende testar seu futuro City AI Readiness Index em aproximadamente 15 a 20 cidades. A proposta é criar uma referência semelhante à que governos nacionais já utilizam há anos.

O objetivo não seria apenas produzir mais um ranking.

Para governos municipais, o índice poderia revelar onde estão as principais deficiências: falta de profissionais especializados, infraestrutura insuficiente, problemas de financiamento, governança frágil ou baixa capacidade de responder a falhas.

Para os cidadãos, poderia oferecer uma maneira mais transparente de saber até que ponto sua cidade realmente está preparada para utilizar sistemas que começam a influenciar serviços essenciais.

À medida que a inteligência artificial deixa de ser apenas uma experiência e entra definitivamente na infraestrutura urbana, dizer que uma cidade “usa IA” começa a significar muito pouco.

A questão mais importante passa a ser outra: ela possui tecnologia, energia, profissionais, regras e instituições suficientes para utilizá-la de maneira segura e confiável?

 

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