Buracos negros parecem representar um dos limites definitivos do Universo. Depois que algo atravessa seu horizonte de eventos, retornar deixa de ser uma possibilidade dentro da relatividade geral. Mas as mesmas equações que descrevem esses objetos extremos também permitem imaginar uma situação praticamente inversa. Ela existe no papel há décadas, mas levanta uma pergunta que continua sem resposta: será que a natureza realmente criou esse fenômeno?
A matemática permite uma porta que funciona ao contrário
Os chamados buracos brancos aparecem naturalmente em determinadas soluções das equações de Einstein. Enquanto um buraco negro possui um horizonte que só pode ser atravessado em uma direção — para dentro —, um buraco branco teria o comportamento temporalmente invertido.
Em princípio, matéria e energia poderiam sair dessa região, mas nada vindo do exterior conseguiria atravessar seu horizonte para entrar.
Isso torna o conceito imediatamente intrigante. Só existe um problema fundamental: uma solução matematicamente permitida não é automaticamente um objeto que exista no Universo.
A relatividade geral oferece diversas configurações possíveis, mas cabe às observações determinar quais delas correspondem à realidade física.
O interesse pelos buracos brancos aumentou ainda mais com uma das grandes questões que continuam abertas na física moderna: o que acontece com a informação que cai em um buraco negro se ele eventualmente desaparecer por meio da radiação de Hawking?
É nesse ponto que uma ideia ainda mais ousada entra em cena.
Everyone knows about black holes, but few realize there's a hypothesis about white holes 👀
White holes are the opposite of black holes. While black holes seem to "suck" all the surrounding space into themselves, white holes "spit" it out.
White holes are unstable. As matter… pic.twitter.com/SZZAQpvhht
— Black Hole (@konstructivizm) June 10, 2026
E se um buraco negro não terminasse exatamente onde imaginamos?
Alguns modelos de gravidade quântica em loop propõem que a história de um buraco negro poderia ser diferente em escalas extremas.
Segundo esses cenários, quando a matéria em colapso atingisse densidades absurdamente elevadas, efeitos quânticos poderiam impedir que ela chegasse a uma singularidade de densidade infinita.
Em vez disso, ocorreria uma espécie de “rebote quântico”.
O interior do buraco negro poderia então evoluir para uma região futura com propriedades semelhantes às de um buraco branco. A matéria e a informação que haviam entrado anteriormente poderiam, em determinadas versões desses modelos, acabar emergindo novamente.
A ideia resolve alguns problemas conceituais de maneira elegante, mas ainda está muito longe de ser uma explicação comprovada.
A gravidade quântica em loop continua sendo uma área de pesquisa, e não existe evidência experimental demonstrando que um buraco negro realmente passe por essa transformação.
Há ainda uma característica particularmente estranha nesses modelos: o tempo.
Para a matéria que participa do processo, o rebote poderia ocorrer em um intervalo relativamente curto. Para um observador distante, entretanto, efeitos relativísticos poderiam fazer com que o processo parecesse durar períodos gigantescos, potencialmente bilhões de anos.
Isso abre uma possibilidade quase surreal: um objeto que começou como buraco negro poderia permanecer nessa condição durante uma escala de tempo imensa antes de apresentar características semelhantes às de um buraco branco.
O Universo poderia esconder uma dessas estruturas?
A conexão com os chamados buracos de minhoca torna a hipótese ainda mais interessante.
Algumas extensões matemáticas das soluções de buracos negros contêm estruturas associadas a buracos negros, buracos brancos e regiões separadas do espaço-tempo. Essas configurações ficaram conhecidas, em determinados contextos, como pontes de Einstein-Rosen.
Mas isso não significa que um buraco negro seja uma passagem utilizável para outra galáxia.
Os tradicionais “buracos de minhoca” associados a essas soluções não são atravessáveis: a geometria do espaço-tempo faz com que a passagem se feche antes que matéria ou luz consiga atravessá-la completamente.
E existe um obstáculo ainda maior para os próprios buracos brancos: a estabilidade.
Estudos indicam que determinadas configurações seriam extremamente sensíveis a pequenas perturbações. A presença de matéria ou radiação nas proximidades poderia alterar a solução e fazê-la evoluir de maneira incompatível com um buraco branco estável.
Também não conhecemos um processo astrofísico convencional capaz de produzir esses objetos.
Até hoje, nenhum telescópio, detector de ondas gravitacionais ou outra observação astronômica identificou de maneira convincente um buraco branco.
Portanto, eles continuam exatamente no limite entre matemática e realidade: as equações permitem descrevê-los, alguns modelos de gravidade quântica oferecem mecanismos hipotéticos para produzi-los, mas não sabemos se o Universo realmente contém algum.
Para descobrir a resposta, seria necessário avançar justamente onde a física ainda enfrenta uma de suas maiores dificuldades: encontrar uma teoria experimentalmente comprovada que consiga descrever, ao mesmo tempo, a gravidade e as regras do mundo quântico.