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Ciência

O que acontece quando abelhas tentam trabalhar sem gravidade? A Nasa decidiu descobrir

Um experimento incomum colocou milhares de abelhas diante de um ambiente completamente diferente da Terra. Depois da confusão inicial, os insetos mostraram uma capacidade que chamou a atenção da ciência.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos em animais enviados ao espaço, cães, macacos e pequenos roedores costumam aparecer primeiro. Mas a Nasa também colocou milhares de abelhas dentro de um ônibus espacial para responder a uma pergunta intrigante: o que aconteceria com uma sociedade tão organizada quando uma das principais referências da vida na Terra simplesmente desaparecesse? A experiência começou de forma caótica, mas terminou revelando algo inesperado sobre esses pequenos engenheiros naturais.

Mais de 3 mil abelhas deixaram a Terra em um experimento incomum

Era abril de 1984 quando o ônibus espacial Challenger decolou para a missão STS-41C. Entre os experimentos transportados para a órbita terrestre havia passageiros bastante diferentes dos astronautas: 3.301 abelhas operárias e uma rainha.

A ideia da Nasa era observar como uma colônia reagiria à microgravidade. Na Terra, esses insetos dependem de diferentes referências ambientais para voar, se organizar e construir os favos que formam a estrutura da colmeia.

Retirar praticamente a sensação de peso significava colocar esse sistema à prova.

E os primeiros momentos indicaram que a experiência não seria simples. Sem uma referência clara de cima e baixo, as abelhas ficaram desorientadas. O voo perdeu precisão e muitos insetos acabaram se chocando contra as paredes do compartimento.

O cenário, porém, começou a mudar conforme os dias passavam.

As operárias aparentemente encontraram outras maneiras de interpretar o ambiente. O contato entre os próprios indivíduos e diferentes sinais disponíveis no compartimento ajudaram a compensar a ausência da referência gravitacional habitual.

Pouco a pouco, o comportamento ficou mais coordenado.

Mas voar era apenas uma parte da experiência. Os pesquisadores queriam descobrir se as abelhas conseguiriam realizar uma tarefa muito mais sofisticada.

O verdadeiro desafio estava na construção

Uma colmeia é uma estrutura de enorme precisão. Seus característicos alvéolos hexagonais permitem aproveitar o espaço de maneira eficiente enquanto armazenam alimento e abrigam o desenvolvimento da colônia.

A pergunta era inevitável: essa arquitetura continuaria funcionando longe das condições encontradas na Terra?

Durante os quase sete dias da missão, as abelhas deram uma resposta impressionante.

Elas construíram aproximadamente 200 centímetros quadrados de favos e preservaram a conhecida geometria hexagonal das células. Isso aconteceu mesmo sem a gravidade terrestre atuando como uma das referências presentes no ambiente natural.

O que acontece quando abelhas tentam trabalhar sem gravidade? A Nasa decidiu descubrir
© Simon Kadula – Unsplash

Os favos espaciais, entretanto, não eram cópias absolutamente idênticas daqueles produzidos na Terra.

Análises realizadas depois da missão identificaram pequenas diferenças. As paredes das células construídas em microgravidade ficaram um pouco mais grossas, enquanto seu diâmetro médio foi ligeiramente menor.

Ainda assim, a estrutura fundamental permaneceu reconhecível.

O resultado reforçou a importância do comportamento instintivo das abelhas na construção dos favos. Mesmo diante de condições completamente diferentes, elas conseguiram reproduzir uma arquitetura extremamente complexa.

E a colônia não se limitou a construir.

A rainha também tentou manter a rotina da colônia

Durante a missão, a rainha permaneceu ativa e colocou cerca de 35 ovos. As operárias, por sua vez, continuaram desempenhando atividades importantes para a organização coletiva, incluindo ventilação e armazenamento de alimento nos alvéolos.

Nesse ponto, porém, o experimento encontrou uma limitação.

Depois que a missão retornou à Terra, nenhum dos ovos colocados no espaço chegou a eclodir. Os pesquisadores não conseguiram determinar de forma conclusiva por que as larvas não se desenvolveram.

Isso mostrou uma diferença importante entre sobreviver e trabalhar em microgravidade e completar todo o ciclo reprodutivo nessas condições.

Mesmo assim, o comportamento observado durante aqueles dias revelou uma capacidade de adaptação notável. Depois de uma fase inicial de desorientação, as abelhas conseguiram reorganizar atividades fundamentais da colônia em um ambiente para o qual sua evolução terrestre jamais as havia preparado diretamente.

Décadas depois, a experiência continua interessante por outro motivo.

Um experimento antigo que aponta para um problema do futuro

Se seres humanos estabelecerem bases permanentes na Lua, em Marte ou em outros ambientes fora da Terra, será necessário pensar muito além de foguetes, habitats e sistemas de energia.

Produzir alimentos durante missões prolongadas será um dos desafios. E isso pode exigir ecossistemas controlados envolvendo plantas, microrganismos e até insetos polinizadores.

As abelhas ocupam um papel especialmente importante nesse cenário por sua participação na reprodução de inúmeras plantas.

Saber que esses insetos conseguem adaptar parte de seu comportamento social e continuar construindo favos em microgravidade oferece informações úteis para compreender como organismos terrestres podem reagir a ambientes espaciais.

O experimento de 1984 não significa que colmeias estejam prontas para acompanhar humanos em futuras cidades marcianas. A dificuldade observada na reprodução mostra justamente que ainda existem questões biológicas importantes a investigar.

Mas aquelas 3.301 operárias e sua rainha deixaram uma descoberta curiosa: retire a gravidade, provoque alguns dias de confusão e as abelhas ainda podem encontrar uma maneira de voltar ao trabalho.

[Fonte: Gazeta do Povo]

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