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Ciência

O planeta vermelho perdeu algo essencial ao longo de bilhões de anos — e MAVEN acompanhou parte do processo

Durante mais de uma década, uma sonda da NASA observou Marte de um ponto privilegiado e reuniu pistas sobre a transformação que deixou o planeta frio, seco e quase sem atmosfera.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Hoje, Marte parece um mundo congelado no tempo: frio, seco e coberto por uma atmosfera extremamente fina. Mas sua superfície guarda evidências de um passado muito diferente, quando água líquida percorreu o planeta e as condições eram potencialmente muito mais favoráveis. Para descobrir como essa transformação aconteceu, a NASA enviou uma missão que não procuraria vida nem exploraria o solo. Seu alvo estava muito mais acima — onde Marte interage diretamente com o Sol.

A pista mais importante estava longe do chão

A sonda MAVEN, sigla para Mars Atmosphere and Volatile Evolution, foi lançada em 18 de novembro de 2013 a bordo de um Atlas V. Depois de percorrer mais de 700 milhões de quilômetros, chegou à órbita marciana em setembro de 2014.

Sua missão era diferente da maioria das sondas enviadas ao planeta vermelho. Em vez de fotografar a superfície em busca de possíveis sinais de vida, MAVEN foi construída para estudar a atmosfera superior, a ionosfera e a maneira como essas regiões respondem à influência solar.

Isso permitiu observar um processo que seria impossível acompanhar diretamente a partir do solo: o escape gradual de partículas da atmosfera para o espaço.

Marte já apresentava sinais de um passado muito mais úmido. Antigos canais, minerais associados à presença de água e outras estruturas geológicas indicam que o planeta teve condições muito diferentes das atuais.

Para que água líquida permanecesse estável na superfície, entretanto, Marte precisava de uma atmosfera significativamente mais espessa.

A pergunta era simples de formular, mas muito mais difícil de responder: onde foi parar tudo isso?

O Sol estava desempenhando um papel muito maior do que parecia

A resposta encontrada por MAVEN envolve uma característica fundamental de Marte. Diferentemente da Terra, o planeta vermelho não possui hoje um campo magnético global capaz de proteger sua atmosfera da mesma maneira.

O vento solar — um fluxo constante de partículas carregadas lançado pelo Sol — consegue interagir diretamente com as regiões superiores da atmosfera marciana. As observações de MAVEN permitiram acompanhar mecanismos pelos quais partículas e gases podem ser removidos e escapar para o espaço.

E o processo não é completamente constante.

Durante períodos de atividade solar intensa, o escape atmosférico pode aumentar. Olhando para bilhões de anos no passado, a situação provavelmente foi ainda mais dramática: o Sol jovem era mais ativo e apresentava níveis maiores de radiação ultravioleta e vento solar.

Isso ajuda a explicar como Marte perdeu uma parcela significativa de sua atmosfera ao longo de sua história.

A consequência foi profunda. Com uma atmosfera mais rarefeita, tornou-se muito mais difícil manter condições capazes de sustentar água líquida estável na superfície.

A transformação do planeta, portanto, não aconteceu de uma única vez. Foi um processo prolongado, no qual a interação com o ambiente espacial desempenhou um papel fundamental.

A sonda ainda encontrou fenômenos que mudaram a história

MAVEN também revelou que a atmosfera marciana é muito mais dinâmica do que sua aparência desolada sugere.

A missão estudou auroras, a magnetosfera induzida e o hidrogênio presente nas regiões superiores da atmosfera — elemento especialmente importante para compreender a perda de água ao longo do tempo.

Em dezembro de 2022, a sonda observou ainda um fenômeno extraordinário: uma queda abrupta no vento solar ao redor de Marte fez com que a atmosfera e a magnetosfera se expandissem por milhares de quilômetros.

Além da pesquisa científica, MAVEN carregava o sistema de comunicação Electra, utilizado para receber informações de veículos e módulos na superfície marciana e retransmiti-las à Terra.

A missão originalmente deveria durar cerca de um ano. Acabou funcionando por mais de uma década.

A última comunicação foi recebida em 6 de dezembro de 2025, depois que a nave perdeu contato ao passar atrás de Marte. Após tentativas de recuperação, a NASA encerrou oficialmente a missão em junho de 2026.

MAVEN não reconstruiu sozinha toda a história climática de Marte. Mas seus dados ajudaram a estabelecer uma ligação fundamental: o planeta não simplesmente ficou seco. Ao longo de bilhões de anos, sua atmosfera foi sendo modificada e perdida, em parte pela interação contínua com o ambiente espacial.

É essa história que seus dados continuam ajudando os cientistas a reconstruir — a história de como um mundo que já teve água acabou se tornando o deserto gelado que vemos hoje.

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