Muito antes de os primeiros seres humanos cultivarem alimentos, um pequeno inseto já dominava uma técnica surpreendente de agricultura. As formigas-cortadeiras da América do Sul aperfeiçoaram, ao longo de milhões de anos, um sistema de cultivo de fungos que depende da coleta de folhas e gramíneas. Agora, uma nova pesquisa mostra como mudanças climáticas ocorridas há cerca de 15 milhões de anos moldaram essa habilidade e transformaram a história evolutiva dessas espécies.
A expansão das savanas mudou o destino das formigas

Há aproximadamente 15 milhões de anos, durante o Mioceno, a paisagem sul-americana passou por uma grande transformação.
Parte das áreas florestais diminuiu, enquanto campos e savanas começaram a ocupar regiões cada vez maiores.
Esse novo cenário obrigou muitas espécies a se adaptarem aos recursos disponíveis.
Segundo um estudo publicado na revista Frontiers in Insect Science, algumas formigas-cortadeiras encontraram uma solução engenhosa: passaram a utilizar gramíneas como matéria-prima para manter seus cultivos de fungos.
No entanto, essa mudança exigiu profundas adaptações evolutivas.
Ao contrário das folhas de muitas árvores, as gramíneas possuem elevada concentração de sílica, tornando-se muito mais duras e difíceis de cortar.
Com o passar do tempo, essas formigas desenvolveram mandíbulas mais curtas, largas e resistentes, capazes de enfrentar esse novo desafio.
O DNA revelou como aconteceu essa transformação

Para reconstruir essa história evolutiva, pesquisadores da Fundação para o Estudo de Espécies Invasoras (FuEDEI) e do CONICET analisaram o DNA de diversas espécies pertencentes aos gêneros Acromyrmex, Amoimyrmex e Atta.
As amostras foram coletadas na Argentina, no Brasil, no Paraguai e no Uruguai.
Utilizando modelos estatísticos e comparações genéticas, os cientistas conseguiram reconstituir a árvore evolutiva desses insetos.
Os resultados indicam que os ancestrais das atuais formigas-cortadeiras utilizavam principalmente plantas dicotiledôneas antes de se especializarem no corte de gramíneas.
Essa mudança representou uma importante inovação adaptativa, permitindo que elas explorassem um recurso abundante e praticamente inexplorado na época.
As formigas não comem as folhas que cortam
Apesar do nome, as formigas-cortadeiras não se alimentam diretamente das folhas nem do capim que carregam.
Todo esse material vegetal serve de substrato para cultivar um fungo específico, que constitui a principal fonte de alimento tanto para as larvas quanto para os indivíduos adultos.
Para garantir o sucesso desse cultivo, elas constroem formigueiros altamente organizados.
Algumas espécies erguem estruturas em forma de domo capazes de manter o interior próximo dos 24 °C, temperatura considerada ideal para o desenvolvimento do fungo.
Além disso, mantêm uma sofisticada relação de simbiose com bactérias benéficas e realizam constantes atividades de limpeza, reduzindo a presença de microrganismos que poderiam comprometer a plantação.
Esse complexo sistema agrícola surgiu milhões de anos antes da agricultura humana.
Uma espécie essencial para a natureza, mas desafiadora para a agricultura
As formigas-cortadeiras exercem um papel importante no equilíbrio dos ecossistemas.
Ao remover grandes quantidades de material vegetal, elas contribuem para a ciclagem de nutrientes e influenciam a dinâmica dos solos e da vegetação.
Entretanto, algumas espécies também provocam prejuízos significativos em atividades agrícolas e florestais.
Vinhedos e plantações florestais jovens estão entre os cultivos mais afetados.
Sem medidas de controle, as perdas econômicas podem ser elevadas.
Atualmente, o manejo depende principalmente de produtos químicos, embora pesquisadores busquem alternativas mais sustentáveis e específicas para reduzir os impactos ambientais.
Segundo o biólogo Andrés Sánchez-Restrepo, responsável pela área molecular da FuEDEI, compreender como essas formigas evoluíram para explorar gramíneas pode ajudar no desenvolvimento de métodos de controle mais eficientes.
A Cordilheira dos Andes ajudou a limitar sua expansão
Apesar da extraordinária capacidade de adaptação, as formigas-cortadeiras especializadas em gramíneas permanecem praticamente restritas à América do Sul.
Os pesquisadores apontam que a Cordilheira dos Andes funciona como uma barreira natural que dificulta sua dispersão para o Chile e parte da costa peruana.
Esse isolamento contribuiu para que sua evolução ocorresse de maneira bastante particular no continente.
Mais do que revelar uma curiosidade da natureza, o estudo demonstra como transformações ambientais podem modificar profundamente a trajetória evolutiva de uma espécie.
No caso das formigas-cortadeiras, a expansão dos campos sul-americanos levou ao surgimento de adaptações anatômicas, comportamentais e ecológicas que permanecem em funcionamento até hoje, tornando esses pequenos insetos alguns dos agricultores mais antigos e bem-sucedidos do planeta.
[Fonte: Noticias ambientales]