Pular para o conteúdo
Ciência

As formigas que aprenderam a cultivar há 15 milhões de anos muito antes da agricultura humana

Um estudo revela como mudanças ambientais na América do Sul transformaram a evolução das formigas-cortadeiras, permitindo que elas dominassem os campos e desenvolvessem um sofisticado sistema agrícola.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Muito antes de os primeiros seres humanos cultivarem alimentos, um pequeno inseto já dominava uma técnica surpreendente de agricultura. As formigas-cortadeiras da América do Sul aperfeiçoaram, ao longo de milhões de anos, um sistema de cultivo de fungos que depende da coleta de folhas e gramíneas. Agora, uma nova pesquisa mostra como mudanças climáticas ocorridas há cerca de 15 milhões de anos moldaram essa habilidade e transformaram a história evolutiva dessas espécies.

A expansão das savanas mudou o destino das formigas

As formigas que aprenderam a cultivar há 15 milhões de anos muito antes da agricultura humana
© Pexels

Há aproximadamente 15 milhões de anos, durante o Mioceno, a paisagem sul-americana passou por uma grande transformação.

Parte das áreas florestais diminuiu, enquanto campos e savanas começaram a ocupar regiões cada vez maiores.

Esse novo cenário obrigou muitas espécies a se adaptarem aos recursos disponíveis.

Segundo um estudo publicado na revista Frontiers in Insect Science, algumas formigas-cortadeiras encontraram uma solução engenhosa: passaram a utilizar gramíneas como matéria-prima para manter seus cultivos de fungos.

No entanto, essa mudança exigiu profundas adaptações evolutivas.

Ao contrário das folhas de muitas árvores, as gramíneas possuem elevada concentração de sílica, tornando-se muito mais duras e difíceis de cortar.

Com o passar do tempo, essas formigas desenvolveram mandíbulas mais curtas, largas e resistentes, capazes de enfrentar esse novo desafio.

O DNA revelou como aconteceu essa transformação

As formigas que aprenderam a cultivar há 15 milhões de anos muito antes da agricultura humana
© Pexels

Para reconstruir essa história evolutiva, pesquisadores da Fundação para o Estudo de Espécies Invasoras (FuEDEI) e do CONICET analisaram o DNA de diversas espécies pertencentes aos gêneros Acromyrmex, Amoimyrmex e Atta.

As amostras foram coletadas na Argentina, no Brasil, no Paraguai e no Uruguai.

Utilizando modelos estatísticos e comparações genéticas, os cientistas conseguiram reconstituir a árvore evolutiva desses insetos.

Os resultados indicam que os ancestrais das atuais formigas-cortadeiras utilizavam principalmente plantas dicotiledôneas antes de se especializarem no corte de gramíneas.

Essa mudança representou uma importante inovação adaptativa, permitindo que elas explorassem um recurso abundante e praticamente inexplorado na época.

As formigas não comem as folhas que cortam

Apesar do nome, as formigas-cortadeiras não se alimentam diretamente das folhas nem do capim que carregam.

Todo esse material vegetal serve de substrato para cultivar um fungo específico, que constitui a principal fonte de alimento tanto para as larvas quanto para os indivíduos adultos.

Para garantir o sucesso desse cultivo, elas constroem formigueiros altamente organizados.

Algumas espécies erguem estruturas em forma de domo capazes de manter o interior próximo dos 24 °C, temperatura considerada ideal para o desenvolvimento do fungo.

Além disso, mantêm uma sofisticada relação de simbiose com bactérias benéficas e realizam constantes atividades de limpeza, reduzindo a presença de microrganismos que poderiam comprometer a plantação.

Esse complexo sistema agrícola surgiu milhões de anos antes da agricultura humana.

Uma espécie essencial para a natureza, mas desafiadora para a agricultura

As formigas-cortadeiras exercem um papel importante no equilíbrio dos ecossistemas.

Ao remover grandes quantidades de material vegetal, elas contribuem para a ciclagem de nutrientes e influenciam a dinâmica dos solos e da vegetação.

Entretanto, algumas espécies também provocam prejuízos significativos em atividades agrícolas e florestais.

Vinhedos e plantações florestais jovens estão entre os cultivos mais afetados.

Sem medidas de controle, as perdas econômicas podem ser elevadas.

Atualmente, o manejo depende principalmente de produtos químicos, embora pesquisadores busquem alternativas mais sustentáveis e específicas para reduzir os impactos ambientais.

Segundo o biólogo Andrés Sánchez-Restrepo, responsável pela área molecular da FuEDEI, compreender como essas formigas evoluíram para explorar gramíneas pode ajudar no desenvolvimento de métodos de controle mais eficientes.

A Cordilheira dos Andes ajudou a limitar sua expansão

Apesar da extraordinária capacidade de adaptação, as formigas-cortadeiras especializadas em gramíneas permanecem praticamente restritas à América do Sul.

Os pesquisadores apontam que a Cordilheira dos Andes funciona como uma barreira natural que dificulta sua dispersão para o Chile e parte da costa peruana.

Esse isolamento contribuiu para que sua evolução ocorresse de maneira bastante particular no continente.

Mais do que revelar uma curiosidade da natureza, o estudo demonstra como transformações ambientais podem modificar profundamente a trajetória evolutiva de uma espécie.

No caso das formigas-cortadeiras, a expansão dos campos sul-americanos levou ao surgimento de adaptações anatômicas, comportamentais e ecológicas que permanecem em funcionamento até hoje, tornando esses pequenos insetos alguns dos agricultores mais antigos e bem-sucedidos do planeta.

[Fonte: Noticias ambientales]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados