O reino dos fungos continua revelando surpresas que desafiam a ciência. Em uma região da China, médicos observam há anos um fenômeno tão curioso quanto difícil de explicar: pessoas perfeitamente saudáveis passam a enxergar pequenos seres humanos caminhando pelas paredes, sobre móveis e até nos pratos de comida. A repetição desse padrão despertou o interesse de pesquisadores, que acreditam estar diante de um mecanismo cerebral ainda desconhecido.
Um fungo consumido na Ásia provoca um tipo raro de alucinação

Todos os anos, durante o período de chuvas na província de Yunnan, na China, hospitais recebem pacientes que apresentam um quadro bastante incomum.
Embora estejam conscientes e orientados, muitos relatam enxergar dezenas de pequenos seres humanos circulando pelo ambiente.
Alguns descrevem figuras semelhantes a duendes caminhando sobre mesas, escondendo-se sob portas, escalando paredes ou atravessando objetos da casa.
O responsável por essas experiências é o Lanmaoa asiatica, um fungo silvestre bastante apreciado na culinária local devido ao seu intenso sabor umami.
Moradores da região conhecem há muito tempo um cuidado considerado essencial: o alimento deve permanecer no fogo por pelo menos 15 minutos antes do consumo.
Quando ingerido mal cozido, aumenta significativamente o risco de desenvolver essas curiosas alucinações.
O aspecto que mais chama atenção dos cientistas é a enorme semelhança entre os relatos.
Enquanto outras substâncias alucinógenas costumam provocar experiências bastante diferentes entre os usuários, o Lanmaoa asiatica produz descrições extremamente parecidas.
Na psiquiatria, esse tipo de manifestação recebe o nome de alucinação liliputiana, referência aos minúsculos habitantes descritos em As Viagens de Gulliver.
Os primeiros registros científicos desse fenômeno surgiram em 1991, quando pesquisadores chineses documentaram pacientes que afirmavam observar pequenos personagens movimentando-se continuamente ao seu redor.
Cientistas ainda não descobriram qual substância provoca esse efeito
Apesar de já ser conhecido pelas comunidades locais, o Lanmaoa asiatica só foi oficialmente reconhecido como uma espécie distinta em 2015.
Desde então, diversos grupos de pesquisa passaram a investigar o mecanismo responsável por essas alucinações tão específicas.
Um dos pesquisadores envolvidos é Colin Domnauer, da University of Utah.
Durante seus estudos, ele percorreu mercados tradicionais na província de Yunnan perguntando diretamente aos vendedores qual era o fungo que fazia as pessoas “verem gente pequena”.
Após coletar amostras e realizar análises genéticas, sua equipe confirmou a identidade da espécie e verificou que ela também ocorre nas Filipinas, onde relatos praticamente idênticos também foram registrados.
Experimentos realizados com extratos do fungo em modelos animais revelaram alterações comportamentais compatíveis com a presença de uma substância psicoativa.
Entretanto, as análises químicas trouxeram uma surpresa.
O Lanmaoa asiatica não contém psilocibina, composto responsável pelos efeitos dos cogumelos alucinógenos mais conhecidos, nem apresenta moléculas pertencentes às famílias tradicionais de substâncias psicodélicas.
Outro aspecto incomum é o tempo de ação.
As alucinações normalmente começam entre 12 e 24 horas após o consumo e podem durar de um a três dias. Em alguns casos, os sintomas persistem por quase uma semana, exigindo internação hospitalar até desaparecerem completamente.
O mistério pode ajudar a compreender melhor o funcionamento do cérebro
Para os pesquisadores, o interesse pelo Lanmaoa asiatica vai muito além da curiosidade.
Descobrir qual molécula produz um padrão tão consistente de alucinações pode ampliar significativamente o conhecimento sobre percepção, consciência e funcionamento cerebral.
Uma das hipóteses é que o fungo contenha um composto completamente desconhecido, capaz de atuar em regiões do cérebro por mecanismos diferentes daqueles observados nos psicodélicos já estudados.
Esse conhecimento também pode contribuir para compreender melhor as chamadas alucinações liliputianas espontâneas, um fenômeno extremamente raro que pode ocorrer mesmo em pessoas que nunca consumiram drogas ou cogumelos.
Até 2021, pouco mais de 200 casos desse tipo haviam sido descritos na literatura médica, e parte dos pacientes apresentou sintomas persistentes por longos períodos.
O estudo do Lanmaoa asiatica também evidencia o quanto ainda se conhece pouco sobre a diversidade dos fungos.
Os cientistas estimam que menos de 5% das espécies existentes no planeta tenham sido descritas formalmente, indicando que milhares de organismos ainda podem esconder substâncias com aplicações importantes para a medicina, a farmacologia e a neurociência.
Embora muitas perguntas permaneçam sem resposta, o Lanmaoa asiatica já ocupa um lugar singular entre os organismos mais intrigantes investigados pela ciência. Sua capacidade de provocar alucinações tão específicas pode se tornar uma ferramenta valiosa para desvendar processos fundamentais da mente humana e abrir novas linhas de pesquisa sobre doenças neurológicas, percepção e consciência.
[Fonte: Cerebrodigital]