Pular para o conteúdo

Bad Bunny transforma o show do Super Bowl em um manifesto latino e provoca a ira de Donald Trump

Com uma apresentação carregada de símbolos de Porto Rico e da América Latina, Bad Bunny fez do intervalo do Super Bowl um ato cultural e político. O espetáculo, celebrado por fãs e artistas, também escancarou divisões nos Estados Unidos e rendeu críticas duras do presidente Donald Trump.

 O intervalo do Super Bowl costuma ser um dos espaços mais disputados do entretenimento global. Neste domingo, porém, ele foi além da música. Ao assumir o palco do maior evento esportivo dos Estados Unidos, Bad Bunny transformou o espetáculo em uma declaração sobre identidade, imigração e pertencimento, colocando o espanhol e a cultura latina no centro de um país profundamente polarizado.

Um palco entre Porto Rico e Nova York

O cenário da apresentação evocava uma fantasia caribenha e urbana ao mesmo tempo: palmeiras, canaviais, telhados, uma barbearia, uma mercearia e referências diretas ao Velho San Juan e a bairros latinos de Nova York. Ali, Bad Bunny consolidou sua imagem como ícone dos hispânicos nos Estados Unidos e dos latino-americanos no mundo.

Vestido de branco e empunhando uma bola de futebol americano, o artista abriu e fechou o show com gestos simbólicos. Ao som de DtMF, declarou “Seguimos aqui” e celebrou um “touchdown” que representava, mais do que um ponto no jogo, uma afirmação continental. Ao seu redor, bailarinos exibiam bandeiras de países da América Latina; a única que ele próprio carregou foi a de Porto Rico.

Espanhol no centro do maior espetáculo da NFL

Pela primeira vez em seis décadas, o mestre de cerimônias do intervalo falou exclusivamente em espanhol. Enquanto palavras como “PERREO” surgiam em letras gigantes nas telas do estádio, canções como Tití me preguntó e Yo perreo sola ecoavam em um público majoritariamente branco, que reagiu com curiosidade — e certa distância.

A apresentação também reuniu participações simbólicas. Lady Gaga reinterpretou Die With a Smile em versão salsera antes de dividir o palco em um Baile inolvidable. Ricky Martin apareceu como homenagem à geração que abriu caminho para artistas latinos no mercado americano. Houve ainda um tributo às raízes do reggaeton, com referências a clássicos do gênero.

Identidade, política e resistência

Mais do que um show, o intervalo se transformou em um discurso visual sobre uma América que vai além das fronteiras dos Estados Unidos. Bad Bunny exaltou o espanhol como ferramenta de conquista cultural e o corpo em movimento como forma de resistência. A mensagem ganhou peso em um contexto de endurecimento das políticas migratórias e de tentativas de reforçar uma identidade nacional monolíngue.

O contraste ficou evidente fora do estádio. Grupos conservadores promoveram um “intervalo alternativo”, com artistas alinhados ao discurso nacionalista, enquanto ativistas distribuíam mensagens contra o ICE, o serviço de imigração. Dois espetáculos opostos, refletindo a fratura cultural do país.

A reação de Trump e o debate público

A resposta do presidente Donald Trump veio rapidamente. Em sua rede social, ele classificou a apresentação como “terrível”, criticou o idioma usado e o teor da dança, alegando que não representava os valores dos Estados Unidos. A crítica, para muitos analistas, soou como uma admissão involuntária do impacto do show.

Ao atacar o artista, Trump acabou amplificando o debate sobre diversidade, imigração e liberdade cultural. A presença de Bad Bunny no palco mais visível da NFL colocou a liga novamente no centro de uma discussão política — algo que ela historicamente tenta evitar.

Porto Rico, memória e pertencimento

A apresentação também carregou referências sutis à história recente de Porto Rico: crises econômicas, o abandono após o furacão Maria e os efeitos da gentrificação. Bad Bunny, cidadão americano por nascimento, mas herdeiro de uma longa história colonial, levou ao palco a voz de milhões de porto-riquenhos frequentemente tratados como cidadãos de segunda classe.

Ao final, a imagem de uma criança segurando um Grammy reforçou a narrativa de continuidade e esperança. Era um espelho do próprio Benito Antonio Ocasio Martínez, o garoto de Vega Baja que se tornou um dos maiores nomes da música global.

Um intervalo que ficará na história

Com 13 minutos de música, o show do intervalo do Super Bowl se transformou em um dos mais comentados dos últimos anos — não apenas pela estética ou pelas participações especiais, mas pelo peso simbólico.

Entre aplausos, críticas e controvérsias, Bad Bunny mostrou que o entretenimento de massa também pode ser um espaço de disputa cultural. Em um país dividido, o artista colocou o espanhol, a América Latina e Porto Rico no centro do palco — e deixou claro que, gostem ou não, eles “seguem aqui”.

 

[ Fonte: El País ]

 

Você também pode gostar

Modo

Follow us