Bill Gates acredita que os próximos meses poderão revelar consequências difíceis de conter do avanço da inteligência artificial. Em entrevista à ABC News, no domingo, 11 de outubro, o empresário apontou os ciberataques como a ameaça mais imediata. Sua preocupação está no uso dessas ferramentas por pessoas mal-intencionadas, capazes de transformar recursos desenvolvidos para ajudar usuários em instrumentos de fraude, invasão e roubo de informações.
O perigo imediato está no uso criminoso

Gates distingue dois problemas que frequentemente aparecem juntos no debate sobre inteligência artificial. Um deles envolve sistemas que poderiam agir contra os interesses humanos e escapar do controle de seus criadores. O outro diz respeito a criminosos que utilizam tecnologias já disponíveis para ampliar seus ataques.
Na avaliação do empresário, esse segundo cenário exige atenção mais urgente. Ele prevê que a cibersegurança será uma das áreas com efeitos mais expressivos da IA ao longo do próximo ano.
O alerta representa uma previsão, sem estabelecer quantos incidentes ocorrerão ou quais organizações serão atingidas. Gates também não descarta os riscos de perda de controle no futuro, mas considera necessário enfrentar desde já o uso malicioso das ferramentas atuais.
A mesma capacidade pode proteger ou atacar
Em um ensaio publicado em agosto, Gates explicou o problema por trás dessa preocupação. Um modelo capaz de localizar uma falha em um programa pode ajudar uma empresa a corrigi-la. Entretanto, também pode auxiliar um criminoso a explorar essa mesma vulnerabilidade.
Segundo ele, os recursos necessários para realizar ataques estão diminuindo. Isso permite que pessoas com conhecimentos limitados tentem atingir indivíduos, empresas e governos.
O risco também alcança serviços essenciais. Gates menciona hospitais, instituições financeiras, redes elétricas, sistemas de abastecimento de água e plataformas de benefícios públicos. Nessas situações, uma invasão pode prejudicar pacientes e cidadãos que dependem do funcionamento contínuo dessas estruturas.
Golpes podem ficar mais convincentes
Os efeitos também podem aparecer em situações comuns, como uma mensagem que tenta convencer alguém a fornecer uma senha.
Em uma análise anterior sobre os riscos da IA, Gates descreveu como informações públicas podem ajudar a personalizar golpes. Dados sobre o trabalho ou os amigos de uma pessoa tornam uma abordagem fraudulenta mais plausível.
A geração de áudio e vídeo falsos acrescenta outra dificuldade. Uma mensagem que imita a voz de um familiar, por exemplo, pode provocar uma reação emocional antes que a vítima verifique sua autenticidade.
Gates ressalta, porém, que a IA também pode fortalecer as defesas. Equipes de segurança podem usar essas ferramentas para encontrar vulnerabilidades e identificar falsificações. O desafio é acompanhar o avanço dos ataques com proteções igualmente eficazes.
A resposta precisa ir além das empresas

Na entrevista, Gates questionou se as proteções adotadas pelas companhias são suficientes e criticou a confiança exclusiva na autorregulação. Para ele, a preparação atual ainda deixa lacunas importantes.
Sua proposta mais ampla envolve criar estruturas nacionais e internacionais para lidar com a transformação. Ele defende que governos e sociedade participem das decisões, já que os efeitos ultrapassam o setor tecnológico.
Nesse debate, também apresenta ideias como impostos associados à substituição do trabalho humano e a possibilidade de reservar determinadas atividades para pessoas. São propostas para discussão, com critérios e dificuldades ainda por resolver.
Gates mantém a expectativa de benefícios em saúde, educação e outros setores. Seu alerta é que esses ganhos exigem preparação: ampliar as capacidades da inteligência artificial precisa vir acompanhado de medidas para reduzir os danos que elas também podem causar.