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Ciência

Cientistas fazem relógio molecular de células de 80 anos recuar para menos de 20

Experimento transformou células sanguíneas em células-tronco neurais e reduziu marcas de envelhecimento. O resultado abre caminhos para pesquisa, mas ainda não representa um tratamento.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Pesquisadores na Alemanha conseguiram reduzir sinais de envelhecimento em células humanas cultivadas em laboratório. Em um dos exemplos, células obtidas de uma pessoa de 80 anos passaram a apresentar uma idade molecular inferior a 20. O avanço ocorreu durante uma reprogramação que transformou precursores sanguíneos em células-tronco neurais, capazes de originar neurônios. A descoberta oferece uma maneira de acompanhar como determinadas marcas da idade desaparecem durante essa transformação.

Uma mudança de identidade celular

Células Jovens
© New Scientist – Youtube

A equipe reuniu pesquisadores do Hospital Universitário de Bonn, da Universidade de Bonn e da Universidade Técnica de Aachen. Os resultados aparecem em um estudo publicado na revista Aging Cell.

Os cientistas trabalharam com precursores de glóbulos vermelhos de doadores de diferentes idades, incluindo um centenário de 101 anos. Para alterar o destino dessas células, utilizaram dois fatores de reprogramação, chamados SOX2 e cMYC.

O procedimento modifica quais instruções genéticas a célula utiliza. Assim, ela pode adquirir características de outro tipo celular, sem precisar passar primeiro por um estado pluripotente, no qual teria capacidade de gerar muitos tecidos diferentes.

Nesse experimento, o destino foram células-tronco neurais. Durante a conversão, os pesquisadores observaram uma redução expressiva da idade estimada por um relógio epigenético.

O que significa ter uma idade molecular menor

A idade molecular não corresponde simplesmente ao tempo transcorrido desde o nascimento do doador. Ela é uma estimativa baseada em alterações químicas associadas ao envelhecimento.

Conforme explica a Universidade de Bonn, essas marcas afetam a maneira como a informação genética é utilizada, sem mudar a sequência do DNA.

Durante a reprogramação, parte dessas marcas recuou gradualmente. O processo se estendeu por semanas, permitindo que a equipe acompanhasse a transformação por mais de 100 dias.

Essa lentidão tem valor científico. Em vez de observar apenas o resultado final, os pesquisadores podem investigar quais etapas, fatores ou substâncias aceleram ou retardam a mudança. O modelo oferece, portanto, uma janela para estudar mecanismos ainda pouco compreendidos do envelhecimento celular. 

O relógio não explica tudo sozinho

Um ponto importante do experimento foi que o recuo continuou mesmo quando os cientistas reduziram a capacidade de multiplicação das células. Isso indica que a divisão celular, isoladamente, não explica o fenômeno.

A análise também identificou mudanças em outras características relacionadas à idade. Com o tempo, diferenças entre células provenientes de doadores jovens e idosos diminuíram.

Entretanto, os autores reconhecem uma limitação: mudar de identidade pode influenciar o próprio cálculo da idade epigenética. Células sanguíneas e neurais apresentam padrões diferentes, o que dificulta determinar quanto do resultado corresponde a rejuvenescimento e quanto decorre da conversão.

Por isso, a expressão “de 80 para 20 anos” resume uma medição molecular. Ela não demonstra que todos os danos acumulados pela célula desapareceram.

Uma ferramenta para entender o envelhecimento

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© alpay tonga – unsplash

O experimento ocorreu em células cultivadas, sem demonstrar rejuvenescimento dos doadores ou de seus organismos. A reportagem da WIRED destaca que o mecanismo responsável por apagar essas marcas ainda precisa ser esclarecido.

A possibilidade de produzir células com características mais jovens a partir de pessoas idosas pode contribuir para pesquisas e, futuramente, para a medicina regenerativa. Contudo, essa aplicação permanece uma perspectiva, não um tratamento disponível.

O resultado também ajuda a formular perguntas mais precisas: quais sinais da idade podem ser revertidos? Quais permanecem? E quais mudam porque a célula assumiu outra função?

Responder a essas questões será necessário para transformar o recuo de um relógio molecular em conhecimento sobre a recuperação das funções celulares. 

 

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