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Boicote de Europa a EUA está afastando o turismo do país

Reservas caindo, voos esvaziando e um sentimento generalizado de desinteresse: o que antes era um dos destinos mais desejados do mundo agora vê seus visitantes europeus voltarem atrás. O motivo? Um movimento crescente que vai muito além do turismo e pode afetar um dos setores mais lucrativos dos EUA.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Embora ainda seja um dos países mais visitados do planeta, os Estados Unidos começam a enfrentar uma queda notável no turismo vindo da Europa. A mudança não é apenas uma impressão: números, declarações de grandes empresas e decisões governamentais apontam para um novo comportamento entre os viajantes europeus. E tudo indica que o cenário geopolítico atual tem papel central nesse afastamento.

Turismo em queda: números que preocupam

De acordo com a Administração de Comércio Internacional (ITA), o número de visitantes europeus que passaram ao menos uma noite nos EUA caiu 17% em março, na comparação com o mesmo período de 2024. A queda é ainda mais expressiva considerando que a Semana Santa, que costuma impulsionar o turismo, aconteceu em março no ano anterior — e não em 2025.

A gigante hoteleira francesa Accor confirmou que as reservas para o verão despencaram 25% em relação ao ano passado. Ao mesmo tempo, agências de turismo na Europa relatam um desinteresse crescente por destinos norte-americanos. A consultoria Tourism Economics, por exemplo, revisou suas previsões: em fevereiro, estimava queda de 5% no turismo dos EUA em 2025. Agora, o número subiu para 9,4%.

Entre os países com maior recuo no fluxo de visitantes estão Áustria, Suíça, Noruega, Alemanha, Espanha e Reino Unido. Além disso, voos internacionais partindo da Europa para os EUA também estão diminuindo. A rede francesa Voyageurs du Monde reportou à CNN uma redução de 20% nas reservas desde a posse do presidente Trump.

Mais que uma queda — um sinal geopolítico

A mudança no comportamento dos turistas europeus parece refletir um sentimento político. O retorno de Donald Trump à presidência reacendeu tensões diplomáticas entre os EUA e a União Europeia. As políticas adotadas por seu governo, especialmente as ligadas à imigração, fronteiras e direitos civis, estão influenciando diretamente a decisão de muitos europeus sobre onde passar as férias.

O CEO do grupo Accor acredita que a questão vai além de políticas práticas e está relacionada ao “medo de entrar em um território desconhecido”. Em outras palavras, trata-se de uma sensação de instabilidade — um clima que, para muitos, afasta o turismo.

Vários países da Europa atualizaram seus alertas e recomendações para viagens aos Estados Unidos. A Dinamarca, por exemplo, emitiu um aviso formal. A Espanha revisou suas diretrizes de segurança, com destaque para políticas migratórias mais rígidas e possíveis impactos sobre pessoas trans.

Reflexo além da Europa

A retração de turistas não se limita ao continente europeu. O governo da China também emitiu um comunicado recomendando precaução a quem planeja viajar aos Estados Unidos, citando o “deterioramento das relações econômicas e comerciais” entre os dois países. Já no Canadá, os deslocamentos de carro com destino aos EUA caíram 23% em fevereiro. O tráfego aéreo também teve redução, de 13%.

Esses dados indicam que há um movimento mais amplo, que ultrapassa o setor turístico e pode sinalizar um boicote silencioso. Em diversos países, cresce o número de campanhas nas redes sociais incentivando o consumo de produtos locais em detrimento dos fabricados nos EUA. Páginas como Choose.Europe e Made in CA compartilham listas de alternativas a itens americanos — de cosméticos a alimentos.

Na Dinamarca, algumas lojas passaram a sinalizar com estrelas os produtos que foram fabricados dentro da Europa, para estimular o consumo regional e evitar marcas estadunidenses.

Um impacto profundo em um setor estratégico

O turismo representa cerca de 2,5% do PIB dos Estados Unidos. A queda na chegada de visitantes internacionais — especialmente os europeus, que tendem a gastar mais durante suas estadias — representa não apenas uma perda econômica imediata, mas também uma possível mudança estrutural.

Se o atual clima geopolítico e social continuar, o país pode perder seu apelo como destino turístico global. E, mais preocupante ainda, pode sofrer um abalo em sua imagem internacional, especialmente entre públicos historicamente próximos, como os europeus e os canadenses.

A combinação de fatores políticos, sociais e econômicos está criando um cenário que vai além da preferência por destinos mais tranquilos. O que está em jogo agora é a reputação dos Estados Unidos — e ela pode estar sendo reavaliada por milhões de turistas em potencial ao redor do mundo.

[Fonte: Terra]

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