A guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos acaba de ganhar um novo e decisivo episódio. Às vésperas do fim de uma tarifa temporária que vigorava desde o início do ano, a Casa Branca anunciou um pacote de novas cobranças sobre produtos importados de dezenas de países. A decisão rapidamente provocou reações internacionais e já levou um importante parceiro comercial a prometer uma resposta formal nos organismos internacionais.
Estados Unidos ampliam tarifas sobre importações de 60 economias

O governo do presidente Donald Trump anunciou uma nova rodada de tarifas sobre produtos importados de aproximadamente 60 países e economias, intensificando sua política comercial protecionista. As novas alíquotas variam entre 10% e 12,5% e passam a substituir a tarifa global temporária de 10% que expirava nesta sexta-feira.
Segundo o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), a decisão foi tomada após uma investigação que concluiu que diversos parceiros comerciais estariam adotando medidas consideradas insuficientes para impedir a entrada de produtos fabricados com trabalho forçado em suas cadeias produtivas.
A medida representa mais uma etapa da estratégia comercial implementada por Trump desde 2025, marcada pela imposição de tarifas para pressionar parceiros econômicos e fortalecer a indústria americana.
De acordo com o USTR, algumas economias receberão uma tarifa adicional de 10%, enquanto outras estarão sujeitas a uma cobrança de 12,5%. Em determinados casos, o percentual poderá variar conforme o tipo de produto exportado para o mercado americano.
Na América Latina, México, Guatemala, Honduras e El Salvador passam a enfrentar uma tarifa adicional de 10%. Já Costa Rica, Panamá e República Dominicana estarão sujeitos à alíquota de 12,5%.
A medida também alcança os 27 países da União Europeia, que passam a enfrentar uma tarifa conjunta de 10%. Entre os demais afetados aparecem Índia, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Suíça, Canadá e Reino Unido, embora parte desses países tenha tratamento diferenciado dependendo da categoria dos produtos exportados.
A China, por sua vez, ficou fora desta nova lista, já que continua submetida a um regime tarifário específico, com taxas superiores às anunciadas agora.
Investigação sobre trabalho forçado serviu de base para a decisão
As novas tarifas têm origem em investigações abertas em março com base na chamada Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos. O objetivo do procedimento era avaliar se políticas adotadas por diferentes países relacionadas ao combate ao trabalho forçado poderiam gerar prejuízos para trabalhadores e empresas americanas.
Após meses de análise e consultas com os governos envolvidos, o USTR concluiu que haveria justificativa para aplicar novas medidas comerciais.
Ao divulgar a decisão, o órgão afirmou que a estratégia faz parte da política do governo Trump para utilizar tarifas e acordos comerciais como instrumentos de defesa dos trabalhadores americanos e de redução dos desequilíbrios da balança comercial.
Desde o retorno à Casa Branca, Trump tem defendido uma política de prioridade aos interesses econômicos dos Estados Unidos, argumentando que diversos parceiros desfrutam de amplo acesso ao mercado americano sem oferecer condições equivalentes às empresas dos EUA.
Sua estratégia, porém, enfrentou obstáculos judiciais. Parte das tarifas globais anteriores foi derrubada pela Suprema Corte americana, levando a administração a recorrer a outros instrumentos legais, como a própria Seção 301, para manter sua política de sobretaxas sobre produtos importados.
Brasil reage e promete recorrer à Organização Mundial do Comércio

A resposta brasileira foi imediata. Em nota oficial, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva rejeitou a justificativa apresentada por Washington e acusou os Estados Unidos de utilizar o combate ao trabalho forçado como argumento para sustentar uma política comercial protecionista.
Segundo o comunicado, a administração brasileira considera as novas tarifas “completamente arbitrárias e injustificadas” e afirma que a medida não possui respaldo jurídico suficiente.
Diante da decisão americana, o governo anunciou que iniciará imediatamente os procedimentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica e que levará o caso ao mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Brasília também destacou que esta é a segunda medida tarifária aplicada pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros em apenas uma semana. Dias antes, Washington já havia imposto uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos, alegando supostas práticas comerciais desleais.
O governo brasileiro ainda ressaltou que o país possui reconhecimento internacional por suas políticas de combate ao trabalho forçado. Segundo o comunicado, o Brasil conta com 66 convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em vigor, enquanto os Estados Unidos ratificaram apenas dez.
Além disso, as autoridades brasileiras afirmaram que, durante toda a investigação conduzida pelo USTR, forneceram documentação detalhada sobre a legislação nacional e sobre as ações adotadas pelas autoridades aduaneiras para impedir a entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
Com a promessa de recorrer à OMC e a possibilidade de novas medidas de reciprocidade, o anúncio dos Estados Unidos amplia a tensão comercial entre os dois países e adiciona um novo elemento de incerteza ao comércio internacional.
[Fonte: P12]