O roubo de celulares virou um dos crimes mais comuns e mais lucrativos nas grandes cidades brasileiras. Agora, o governo quer mudar a lógica desse mercado com uma medida que mira não apenas quem rouba, mas também o caminho percorrido pelos aparelhos depois do crime. A nova estratégia prevê rastreamento, mensagens de notificação e bloqueio progressivo dos dispositivos, em uma tentativa de desestimular a revenda e enfraquecer uma cadeia que movimenta milhões de aparelhos todos os anos.
O novo plano do governo para travar o mercado de celulares roubados

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta terça-feira um decreto que cria um novo mecanismo para bloquear celulares roubados no Brasil. A iniciativa faz parte de uma estratégia do governo federal para enfrentar um tipo de crime que se espalhou pelo país e já virou uma das principais preocupações da população, especialmente nos grandes centros urbanos.
A medida entra em vigor com a criação de uma base nacional de dados que reúne mais de 3 milhões de números IMEI de aparelhos roubados desde 2020. O IMEI é o código único que identifica cada celular, funcionando como uma espécie de “RG” do aparelho. A ideia do governo é usar essa base para rastrear dispositivos ligados a roubos e dificultar sua circulação no mercado informal.
Na prática, o plano pretende atingir um dos motores desse tipo de crime: a facilidade com que celulares roubados são revendidos e voltam a circular. Em vez de mirar apenas o ladrão no momento do assalto, o programa tenta interromper a vida útil do aparelho depois do roubo, tornando a revenda mais arriscada e menos vantajosa.
O desenho da medida parte de uma constatação simples: o roubo de celulares não se sustenta apenas pelo furto em si, mas por uma cadeia posterior de receptação, revenda e reutilização dos aparelhos. Ao tornar esses dispositivos identificáveis e progressivamente inutilizáveis, o governo aposta em um efeito de desestímulo que pode reduzir o interesse criminoso nesse mercado.
Como vai funcionar o bloqueio e o que acontece com quem estiver usando o aparelho

O programa prevê um processo em etapas. Em um primeiro momento, quem estiver com um celular identificado como roubado será notificado por mensagem. A orientação será procurar a polícia e entregar o aparelho voluntariamente. A intenção, segundo o governo, é abrir uma porta para que pessoas que compraram um telefone sem saber sua origem possam regularizar a situação sem sofrer punição imediata.
Foi esse o recado dado por Lula durante a cerimônia de assinatura do decreto. Segundo o presidente, quem comprou um celular roubado sem saber disso deve procurar uma delegacia e entregar o aparelho. Ele afirmou ainda que a pessoa não será presa por isso e sugeriu que informar onde o celular foi comprado pode ajudar nas investigações.
Se, após a notificação, o aparelho não for devolvido, começa a fase de restrição. Primeiro, o usuário perde o acesso a aplicativos de serviços públicos vinculados ao dispositivo. Em seguida, se a situação não for resolvida, o celular poderá sofrer bloqueio total, deixando de funcionar de forma ampla.
Esse modelo tenta criar uma espécie de pressão gradual sobre quem está com o aparelho, em vez de simplesmente cortar tudo de uma vez. Ao mesmo tempo, sinaliza que o foco do governo não é apenas o roubo em si, mas também a receptação, mesmo quando ela acontece em um ambiente de informalidade no qual muitos consumidores alegam desconhecer a origem do produto.
Por que o governo aposta nessa medida em um momento de alta preocupação com segurança
Segundo dados oficiais, cerca de 1 milhão de roubos de celulares são denunciados por ano no Brasil. Mas o próprio governo admite que esse número pode ser apenas uma parte do problema. O secretário nacional de Segurança Pública, Francisco Lucas Costa Veloso, afirmou que há uma subnotificação muito grande desse tipo de crime, o que indica que o volume real de aparelhos roubados pode ser bem maior.
Essa percepção ajuda a explicar por que o tema ganhou peso político. A criminalidade e a violência urbana vêm aparecendo como uma das maiores preocupações dos brasileiros nas pesquisas de opinião, e o celular roubado se tornou um símbolo visível dessa sensação de insegurança cotidiana. É um crime frequente, de impacto direto na rotina e que muitas vezes carrega prejuízos financeiros, acesso indevido a contas e exposição de dados pessoais.
O anúncio do novo programa acontece em um momento especialmente sensível para o governo: a pouco mais de três meses das eleições presidenciais de outubro. Segurança pública tende a ocupar um espaço central no debate eleitoral, e o tema já foi abraçado por adversários de Lula. Entre eles está Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que tem apostado no discurso de endurecimento contra o crime como uma de suas principais bandeiras.
Nesse contexto, o bloqueio de celulares roubados funciona também como uma resposta política a uma demanda social urgente. O governo tenta mostrar que tem uma medida concreta, de alcance nacional e com impacto visível sobre um crime que afeta milhões de brasileiros. Resta saber se a estratégia será suficiente para reduzir o problema em escala relevante — e, principalmente, se conseguirá quebrar a engrenagem que mantém o mercado de aparelhos roubados funcionando no país.
[Fonte: Yahoo]