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Tecnologia

Você usa esta tecnologia todos os dias, mas ela controla muito mais do mundo do que imagina

Ela parece servir apenas para encontrar caminhos, mas está silenciosamente por trás de bancos, redes elétricas, agricultura e transportes. E tudo depende de uma precisão extraordinária.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Existe uma tecnologia tão integrada ao cotidiano que praticamente esquecemos que ela está funcionando. Basta abrir um aplicativo e um pequeno ponto aparece na tela dizendo exatamente onde estamos. Só que localizar pessoas é apenas uma pequena parte dessa história. Satélites a milhares de quilômetros da superfície ajudam a manter sincronizados sistemas fundamentais da sociedade moderna. Um estranho episódio envolvendo navios revelou o que pode acontecer quando essa infraestrutura deixa de mostrar a realidade.

Os navios estavam no porto, mas seus sistemas mostravam outra coisa

Você usa esta tecnologia todos os dias, mas ela controla muito mais do mundo do que imagina
© Rosy Ko – Unsplash

Em 2017, tripulações de vários navios-tanque que navegavam pelo Mar Negro passaram por uma situação difícil de explicar.

Ao se aproximarem do porto russo de Novorossiysk, os marinheiros podiam enxergar claramente onde estavam. Tudo ao redor confirmava que as embarcações avançavam sobre a água em direção ao destino esperado.

Os instrumentos, porém, contavam outra história.

Segundo o sistema de posicionamento global, aqueles enormes navios pareciam estar se deslocando sobre terra firme.

Quando finalmente atracaram, a situação ficou ainda mais estranha. Os sistemas de GPS continuavam indicando uma localização impossível: as embarcações apareciam em um aeroporto próximo.

Era como se existissem em dois lugares simultaneamente.

O episódio despertou o interesse da jornalista econômica Katherine Dunn e serviu como ponto de partida para uma investigação sobre uma tecnologia que transformou profundamente nossa relação com espaço e tempo.

Porque o GPS fez muito mais do que substituir mapas de papel.

Ele criou uma maneira completamente nova de enxergarmos nossa própria posição no planeta.

Um pequeno ponto azul mudou nossa relação com o mundo

Hoje, abrir um mapa no celular parece um gesto banal.

Em poucos segundos, surge aquele conhecido ponto azul indicando onde estamos. Quase ninguém precisou de instruções para compreender seu significado. Intuitivamente, aprendemos que aquele ponto representa “eu”.

Essa mudança parece pequena, mas transformou profundamente nossa experiência de deslocamento.

Antes do GPS, viajar por uma cidade desconhecida significava interpretar mapas, memorizar ruas, observar placas e pedir informações. Agora, o mapa se reorganiza constantemente ao redor do usuário.

Não precisamos necessariamente saber onde estamos em relação ao mundo. O sistema sabe por nós.

Além disso, a pergunta deixou de ser apenas “onde fica?”.

Queremos saber quanto tempo levará para chegar, qual trajeto possui menos trânsito, quando devemos sair e qual caminho deve ser alterado diante de um congestionamento inesperado.

Mas até essas funções representam apenas a camada mais visível de uma infraestrutura gigantesca.

O GPS está funcionando mesmo quando ninguém está olhando para um mapa.

Seu táxi, suas compras e até a comida dependem dessa rede

Você usa esta tecnologia todos os dias, mas ela controla muito mais do mundo do que imagina
© ben ali – unsplash

Aplicativos de transporte precisam conhecer a localização de motoristas e passageiros para aproximá-los.

Serviços de entrega utilizam posicionamento para organizar rotas. Empresas acompanham caminhões, navios e mercadorias enquanto atravessam continentes.

Quando uma compra feita pela internet percorre milhares de quilômetros até chegar à porta de casa, sistemas de localização ajudam a coordenar diferentes etapas dessa jornada.

Na agricultura, máquinas equipadas com GPS conseguem trabalhar com precisão impressionante.

Tratores podem percorrer trajetórias cuidadosamente definidas, enquanto sistemas de agricultura de precisão ajudam produtores a decidir onde plantar, aplicar fertilizantes ou realizar diferentes intervenções.

Semáforos também podem depender de sistemas de sincronização extremamente precisos para coordenar o trânsito.

E é justamente aqui que surge uma das características menos conhecidas do GPS.

Ele não serve apenas para informar onde alguma coisa está.

Também pode informar, com enorme precisão, quando alguma coisa acontece.

Bancos e redes elétricas precisam saber a hora com precisão extrema

Cada satélite de GPS transmite sinais contendo informações temporais extremamente precisas.

Essa capacidade de fornecer uma referência de tempo comum tornou a tecnologia fundamental para infraestruturas que aparentemente não possuem nenhuma relação com mapas.

Torres de telefonia celular precisam permanecer sincronizadas para que enormes volumes de comunicação circulem corretamente.

Redes elétricas utilizam referências precisas de tempo para acompanhar e coordenar diferentes partes do sistema.

Infraestruturas financeiras também dependem de registros temporais confiáveis para ordenar operações que podem acontecer em frações minúsculas de segundo.

O GPS tornou-se, portanto, uma espécie de relógio invisível da sociedade moderna.

Sua influência também chega a aplicações militares, sistemas de navegação avançados e armamentos guiados.

Tudo isso significa que uma tecnologia frequentemente associada à pergunta “como chego até aquele restaurante?” participa silenciosamente do funcionamento de estruturas muito maiores.

E seu princípio básico depende de resolver um problema matemático extraordinariamente preciso.

Tudo depende de satélites e quatro incógnitas

Você usa esta tecnologia todos os dias, mas ela controla muito mais do mundo do que imagina
© Wikideas1 via Wikimedia Commons

O GPS funciona graças a uma constelação de satélites que orbitam a Terra transmitindo continuamente informações sobre sua posição e o momento exato em que cada sinal foi enviado.

O receptor, como aquele instalado no celular, compara sinais provenientes de diferentes satélites.

Como as ondas viajam à velocidade da luz, diferenças minúsculas no tempo necessário para que cada transmissão chegue ao aparelho permitem calcular distâncias.

Para determinar uma localização tridimensional de maneira confiável, o sistema precisa resolver simultaneamente quatro incógnitas fundamentais: três relacionadas à posição espacial e uma ligada ao tempo do próprio receptor.

É justamente essa combinação que permite transformar sinais vindos do espaço naquele pequeno ponto azul que aparece quase instantaneamente na tela.

O episódio dos navios no Mar Negro também mostrou o outro lado dessa dependência.

Quando os sinais são interferidos, manipulados ou substituídos por informações falsas, sistemas que aprenderam a confiar no GPS podem passar a enxergar uma realidade que simplesmente não existe.

E quanto mais dependemos dessa infraestrutura, maior se torna a importância de sua segurança.

O GPS começou como uma extraordinária solução para descobrir posições. Hoje, ele ajuda a organizar movimentos, comunicações e até o tempo de uma sociedade inteira.

Talvez seja por isso que raramente percebemos sua importância: quando tudo funciona corretamente, ele foi projetado justamente para desaparecer.

[Fonte: bbc]

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