Furtos em lojas batem recordes, mas realidade é pior
Os números oficiais já são alarmantes. Na Inglaterra e no País de Gales, os furtos em supermercados e lojas cresceram 13% no ano até junho de 2025, com 529.994 casos registrados, segundo o Escritório de Estatísticas Nacionais (ONS). Na Escócia, o aumento foi ainda maior: 15% em um ano.
Mas especialistas alertam: esses dados estão longe de refletir a realidade. Um estudo da British Retail Consortium estima cerca de 20 milhões de incidentes anuais, o que indica que apenas 3% dos furtos em lojas são formalmente denunciados. Ou seja, o problema é muito maior do que mostram as estatísticas.
Violência virou parte do cotidiano do varejo

Em cidades como Stockton-on-Tees, no nordeste da Inglaterra, a situação é crítica. A região faz parte de Cleveland, área com a maior taxa de furtos em lojas do país: 13,6 crimes por mil habitantes.
Muhammed Rabani, dono de uma loja de conveniência local, estima prejuízos mensais de cerca de 900 libras. Mais grave do que o dinheiro, porém, é a violência. Ao tentar impedir o roubo de uma caixa de chocolates, ele levou um soco. Casos assim não são exceção.
Dados do Parlamento britânico mostram que, entre 2024 e 2025, quase 290 mil investigações de furto foram encerradas sem nenhum suspeito identificado. Para muitos lojistas, a mensagem é clara: aparentemente, não há consequências.
Quadrilhas organizadas entram em cena
Especialistas apontam que o furto em supermercados deixou de ser um crime oportunista e passou a envolver estruturas organizadas. Grupos de três ou quatro pessoas usam técnicas de distração e atacam várias lojas em sequência.
A National Business Crime Solution monitora ao menos 63 quadrilhas organizadas no Reino Unido, responsáveis por roubos que somam mais de 2,4 milhões de libras em cinco anos. Parte desses grupos vem do próprio Reino Unido e da Irlanda, mas muitos têm origem no Leste Europeu.
Segundo representantes do varejo, essas gangues escolhem produtos específicos, fáceis de revender e de alto valor, e agem com rapidez impressionante.
A nova geração de “empreendedores do furto”
Além das quadrilhas, surgiu um perfil mais recente: os chamados “empreendedores do furto”. São pessoas que usam o roubo como modelo de negócio, focando em produtos com alta demanda em plataformas de revenda online.
Itens como perfumes, roupas de grife e até bichinhos de pelúcia colecionáveis da marca Jellycat estão entre os alvos mais comuns. Em centros de jardinagem, móveis de jardim, decorações de Natal e até sacos de cascalho também entram na lista.
Esse tipo de furto em supermercados e lojas acontece rápido: quando os funcionários percebem, o ladrão já saiu.
Vício, reincidência e sensação de impunidade
Outro grupo segue presente: usuários de drogas que roubam para sustentar o vício. Um relatório do Centre for Social Justice aponta que, mesmo antes da pandemia, 70% dos furtos em lojas eram cometidos por esse perfil.
Ex-ladrões relatam um ciclo perigoso: quanto mais lucrativo o furto, maior o vício — e maior a reincidência. Especialistas defendem que penas curtas são ineficazes e que a prisão, sozinha, não resolve o problema.
O que está sendo feito — e por que não basta
O governo britânico lançou planos de ação, investiu em policiamento, criou operações com uso de câmeras e dados compartilhados e prometeu leis mais duras, inclusive criminalizando agressões contra funcionários do varejo.
Os varejistas, por sua vez, gastaram um valor recorde de 1,8 bilhão de libras em segurança em apenas um ano. Algumas redes relatam melhora pontual, mas a confiança ainda é baixa.
Para quem está atrás do balcão, como Muhammed, a percepção é outra. Ele nem denunciou a agressão que sofreu, convencido de que nada mudaria.
A onda de furtos em supermercados na Inglaterra levanta um alerta incômodo: quando o crime vira rotina e a punição parece distante, o impacto vai muito além das prateleiras vazias. A pergunta que fica é até quando o varejo — e as cidades — conseguem resistir a esse cenário.
[Fonte: Correio Braziliense]