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Brasileiros na guerra da Ucrânia: o lado obscuro do “turismo de combate”

Com promessas de aventura, apoio logístico e até treinamento militar, brasileiros estão sendo atraídos por anúncios nas redes sociais para lutar na guerra entre Ucrânia e Rússia. Famílias vivem a angústia do silêncio, e o Itamaraty já contabiliza mortos e desaparecidos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Uma prática cada vez mais alarmante está se espalhando nas redes sociais: o aliciamento de brasileiros para atuarem como voluntários na guerra entre Ucrânia e Rússia. Apresentada como uma espécie de “tour perigoso pela Europa”, a oferta esconde uma realidade brutal — marcada por mentiras, abandono e risco extremo. O Itamaraty confirma que pelo menos 9 brasileiros morreram em combate e 17 estão desaparecidos.

Recrutamento via redes sociais e promessas enganosas

Guerra Na Ucrania
© https://x.com/jornalistavitor/status

O esquema funciona com promessas de facilitação de documentos, apoio logístico e treinamento militar. Os aliciadores — ligados a grupos de recrutamento ucranianos — publicam anúncios chamativos que vendem a guerra como uma experiência transformadora, embora exijam dos interessados que custeiem a própria viagem e mantenham segredo até mesmo da família.

A realidade, no entanto, é bem diferente do prometido. Brasileiros que chegam à Ucrânia relatam que são enviados rapidamente ao front de batalha, muitas vezes sem qualquer tipo de treinamento ou estrutura mínima de apoio.

Famílias brasileiras entre o luto e o desaparecimento

Um dos casos mais recentes é o do mineiro Gabriel Pereira, de 21 anos. Morador de Belo Horizonte, ele trabalhava como cobrador de ônibus antes de ser convencido, pelas redes sociais, a embarcar rumo ao conflito. Em março de 2025, viajou à Polônia com recursos próprios — cerca de R$ 3 mil — e, de lá, foi para Kiev, na Ucrânia.

Segundo relatos da família, Gabriel acreditava que passaria por um processo de treinamento antes de ser mobilizado. No entanto, foi imediatamente enviado para posições de combate direto com as tropas russas. O último contato com os parentes foi em 3 de julho. Desde então, está desaparecido, sem passaporte, identificação ou qualquer resposta do governo ucraniano.

A dor da família se mistura à indignação. “Prometeram treinamento, mas já mandavam direto para o front”, lamenta João Victor Pereira, irmão do jovem.

Ex-militar também desaparece após se alistar

Outro caso grave envolve Gustavo Viana Lemos, de 31 anos, natural de Santa Catarina. Ex-integrante da Marinha do Brasil, ele viajou à Ucrânia no início de 2025 e, segundo amigos, teria morrido durante uma missão. No entanto, não há confirmação oficial. A família não tem notícias do paradeiro nem recebeu qualquer apoio ou comunicação por parte do governo ucraniano.

“Turismo de guerra” ou negligência internacional?

A prática ganhou o apelido de “turismo de guerra” justamente pelo caráter informal e desorganizado com que os voluntários são recebidos. Apesar de assumirem riscos altíssimos, muitos deles partem sem respaldo legal, apoio institucional ou informações claras. Ao chegar, são frequentemente alocados nas áreas mais perigosas do conflito, inclusive sem equipamentos adequados.

A exigência do sigilo, imposta pelos recrutadores, impede que familiares acompanhem a movimentação ou solicitem ajuda com antecedência. O resultado: brasileiros morrendo ou desaparecendo em um país em guerra, muitas vezes sem sequer terem contado a verdade para seus entes queridos.

A resposta oficial do Itamaraty

O Ministério das Relações Exteriores confirmou que, até o momento, nove brasileiros morreram no conflito entre Ucrânia e Rússia, e outros 17 seguem desaparecidos. Diante do aumento dos casos, o governo brasileiro afirma estar monitorando a situação e alerta sobre os riscos extremos dessa decisão.

Entretanto, famílias como as de Gabriel e Gustavo sentem-se desamparadas, sem suporte efetivo nem canais diretos de busca ou investigação.

Enquanto a guerra continua a ceifar vidas no Leste Europeu, o aliciamento informal de brasileiros transforma o drama internacional em uma tragédia também nacional — e silenciosa.

 

[ Fonte: G1.Globo ]

 

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