Com a data de início do tarifaço norte-americano se aproximando, o governo brasileiro enfrenta dificuldades inéditas para negociar com os Estados Unidos. Apesar de esforços diplomáticos e tentativas de diálogo, o presidente Lula tem sido ignorado por Donald Trump. Por trás do impasse estão motivações geopolíticas, a rivalidade EUA-China e o interesse crescente dos norte-americanos nas riquezas minerais brasileiras.
O silêncio de Trump e a frustração do Planalto

Nesta semana, Lula afirmou publicamente que o presidente Donald Trump “não quer conversar” sobre o tarifaço de 50% que os EUA impuseram sobre produtos brasileiros, com vigência prevista para 1º de agosto. Em relatos a aliados, o presidente brasileiro reclamou da ausência de canais diretos com a Casa Branca, mesmo com diálogos em curso entre diplomatas.
Segundo o colunista Valdo Cruz, a ordem para não dialogar com o Brasil teria partido diretamente de Trump. Para tentar contornar a situação, uma comissão de senadores brasileiros foi enviada aos EUA, mas especialistas veem essa estratégia como ineficaz e até descoordenada.
Viés geopolítico trava as negociações
Para analistas ouvidos pelo g1, o grande obstáculo à negociação é o modelo de política comercial norte-americano sob Trump, altamente centralizado e com forte viés geopolítico. Isso esvazia o papel de diplomatas e de órgãos como o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA), tornando o processo opaco e imprevisível.
Leandro Lima, da FGV, explica que os canais tradicionais de diálogo estão inoperantes: “As decisões vêm da cúpula, e o Brasil não está conseguindo acessar os verdadeiros tomadores de decisão”. Já o professor Amâncio Jorge, da USP, diz que o isolamento atual também é reflexo da ausência de uma política externa eficaz por parte do Brasil desde o início da gestão Trump.
Brasil vira peça em jogo entre EUA e China

Segundo o professor Alberto Pfeifer, da USP, Trump está menos interessado no Brasil em si e mais preocupado com a influência crescente da China na América do Sul. Nesse contexto, o Brasil é visto como uma peça estratégica — não por sua política interna, mas por sua posição geográfica e recursos naturais.
A recente elevação das tarifas, afirma Pfeifer, não tem justificativa econômica real. A retórica de Trump, que chegou a vincular a medida ao julgamento de Jair Bolsonaro no STF, é vista como um recado claro de que não há abertura para negociação.
O interesse dos EUA nas terras raras brasileiras
No mesmo período em que impôs o tarifaço, os EUA também demonstraram interesse explícito nos minerais críticos e estratégicos do Brasil — com destaque para as chamadas terras raras, essenciais para tecnologias como chips e baterias.
O presidente do Ibram, Raul Jungmann, afirmou que Gabriel Escobar, encarregado de negócios da embaixada americana, mencionou o tema em encontro com empresas brasileiras. O Brasil detém a segunda maior reserva mundial desses elementos, atrás apenas da China — o que o torna alvo direto de interesse geopolítico dos EUA em sua corrida tecnológica.
Apesar disso, Lula foi categórico ao afirmar que “ninguém põe a mão” nos metais estratégicos do Brasil, sinalizando resistência à entrada norte-americana nesse setor.
Pressão empresarial pode ser alternativa
Com os canais políticos bloqueados, cresce a aposta na pressão do setor privado como estratégia para reverter o tarifaço. Professores e consultores sugerem a formação de uma coalizão empresarial binacional que una exportadores brasileiros, empresas americanas instaladas no país e importadores nos EUA.
A ideia é mostrar aos EUA que as tarifas também trarão prejuízos domésticos — como inflação em produtos como café, suco de laranja, madeira e aviões. José Luiz Pimenta, da BMJ Consultoria, destaca que o Brasil registra déficits comerciais com os EUA há 16 anos, o que contradiz o discurso de “desvantagem” usado por Trump para justificar a medida.
O que esperar nos próximos dias

Com a tarifa de 50% prestes a entrar em vigor, o governo brasileiro corre contra o tempo. Apesar da retórica moderada e do apelo para manter a discussão no campo técnico e comercial, faltam sinais concretos de que os EUA estejam dispostos a ouvir.
Enquanto isso, cresce a tensão entre preservar soberania sobre recursos estratégicos e evitar o agravamento das relações comerciais com a maior economia do mundo. Até lá, o Brasil segue tentando ser ouvido — mesmo que a Casa Branca insista no silêncio.
[ Fonte: G1.Globo ]