Buracos negros supermassivos costumam ocupar o coração das grandes galáxias. Por isso, quando astrônomos detectaram um deles devorando uma estrela a cerca de 30 mil anos-luz do centro galáctico, perceberam que estavam diante de algo extraordinário.
O fenômeno aconteceu na galáxia WISEA J014656.04-152214.7, localizada a aproximadamente 750 milhões de anos-luz da Terra, na direção da constelação de Cetus.
Batizado de TDE 2025abcr, o evento revelou um buraco negro com massa estimada em cerca de 1 milhão de vezes a do Sol. A descoberta pode ajudar os cientistas a entender como esses objetos gigantes acabam vagando pelas regiões periféricas das galáxias.
Uma estrela teve um encontro fatal com o buraco negro

Quando não estão absorvendo matéria, buracos negros podem ser extremamente difíceis de detectar. A situação muda completamente quando uma estrela passa perto demais.
A enorme diferença da força gravitacional entre os lados da estrela começa a deformá-la, esticando e comprimindo sua matéria. O processo é conhecido informalmente como “espaguetificação”.
Em determinado momento, a estrela é destruída.
Esse fenômeno recebe o nome de evento de disrupção de maré, ou TDE. Parte do material estelar começa então a circular ao redor do buraco negro e libera enormes quantidades de energia antes de desaparecer.
O TDE 2025abcr foi inicialmente identificado pelo Zwicky Transient Facility, instalado no Observatório Palomar, na Califórnia. A detecção contou com um novo algoritmo de inteligência artificial desenvolvido pela equipe de Robert Stein, pesquisador da Universidade de Maryland e do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA.
Durante meses, os restos da estrela atingiram temperaturas próximas de 30 mil °C.
No auge do evento, o brilho ultravioleta chegou a superar o da própria galáxia hospedeira, alcançando uma luminosidade equivalente à de aproximadamente 10 bilhões de sóis.
O estranho é onde esse buraco negro estava escondido
Eventos de disrupção de maré são raros. Em uma determinada galáxia, estima-se que algo assim aconteça aproximadamente uma vez a cada 100 mil anos.
Quase todos os TDEs conhecidos aparecem próximos dos núcleos galácticos, justamente porque essas regiões normalmente abrigam buracos negros supermassivos.
O TDE 2025abcr quebra esse padrão.
O buraco negro estava a aproximadamente 9,3 quiloparsecs, ou 30 mil anos-luz, do centro de sua galáxia. Para efeito de comparação, o Sistema Solar está a cerca de 26 mil anos-luz do centro da Via Láctea.
O telescópio espacial Neil Gehrels Swift, da NASA, ajudou a confirmar a natureza do fenômeno por meio de observações em raios X e ultravioleta.
Uma das pistas importantes foi a evolução da temperatura. Enquanto uma supernova tende a esfriar depois da explosão, o objeto observado apresentou um comportamento diferente, compatível com matéria sendo consumida por um buraco negro.
Como um buraco negro supermassivo foi parar ali?

A descoberta, descrita no The Astrophysical Journal Letters, deixa uma pergunta importante: como um objeto desse tamanho acabou tão distante do centro galáctico?
Os pesquisadores trabalham principalmente com duas possibilidades.
A primeira envolve antigas fusões de galáxias. Quando várias galáxias colidem, seus respectivos buracos negros podem entrar em uma complicada interação gravitacional. Em determinadas condições, um deles pode ser arremessado para longe do centro, tornando-se uma espécie de nômade cósmico.
A segunda hipótese é igualmente interessante.
O buraco negro poderia ser o último vestígio de uma pequena galáxia engolida pela atual hospedeira. Durante o processo, forças gravitacionais teriam arrancado progressivamente suas estrelas, deixando apenas seu núcleo extremamente compacto e o buraco negro que ocupava seu centro.
Próximas observações podem resolver o mistério
Os astrônomos pretendem observar novamente a região quando o brilho provocado pela destruição da estrela desaparecer.
Se telescópios extremamente sensíveis não encontrarem uma população de estrelas ao redor do buraco negro, a hipótese de uma ejeção gravitacional ganhará força.
Por outro lado, a descoberta de um pequeno e discreto aglomerado estelar poderia indicar que estamos observando o núcleo sobrevivente de uma antiga galáxia anã.
Novos observatórios também poderão transformar eventos como esse em descobertas menos excepcionais. O telescópio espacial Nancy Grace Roman, da NASA, e o Observatório Vera C. Rubin, no Chile, terão capacidade para monitorar enormes regiões do céu em busca de fenômenos transitórios.
Se outros eventos semelhantes aparecerem longe dos centros galácticos, os astrônomos poderão finalmente descobrir quantos gigantes desse tipo estão escondidos pelo cosmos.
O TDE 2025abcr pode ser apenas uma raridade. Mas também existe uma possibilidade muito mais intrigante: o Universo pode estar repleto de buracos negros supermassivos órfãos vagando silenciosamente entre as estrelas.
[ Fonte: National Geographic ]